Projeto espalha pianos por pontos de Porto Alegre e Canoas

Com início em 2008, uma ideia do britânico Luke Jerram intitulada Play Me, I’m Yours buscou espalhar a música e a arte por diversas ruas ao redor do mundo. Já foram mais de 1,3 mil pianos instalados em 45 cidades — a grande maioria na Europa e nos Estados Unidos. No Brasil, o projeto já tomou espaços públicos de São Paulo e inspirou o modelo que chegou ao Rio Grande do Sul. Depois de uma semana expostos na Usina do Gasômetro, dez pianos começam a ser distribuídos a partir desta quarta-feira (12/11) por ruas de Porto Alegre e Canoas com o projeto Piano Livre.

Lilian Ferrari, fundadora da produtora Mata Hari, conta que a ideia surgiu em setembro de 2013, em uma parceria com a loja de instrumentos Person Piano, o espaço cultural StudioClio e foi financiado pela Secretaria de Estado da Cultura. “O Person tinha um acervo antigo que foi recolhido para restauração, o que é muito caro e demorado. Eles estavam parados há algum tempo e começamos a pensar o que poderíamos fazer com eles”, explica Lilian.

Um show de inauguração fez parte do primeiro momento do projeto, que reuniu não só pianistas, mas também artistas plásticos que customizaram os dez pianos que ficaram expostos no saguão do Gasômetro. “Selecionei obras diferenciadas e convidei os artistas”, conta Lilian. Lídia Brancher, Cauan Rolim, André Venzon, Ananda Kuhn, Victor Nievas, Barbara Benz, Cadu Peixoto, Daniel Eizirik, Angela Longo, Carla da Cunha Barth e Chana de Moura foram os nomes escolhidos para estampar os instrumentos.

Na inauguração, pianistas profissionais realizaram recital nos instrumentos customizados.

No recital — assim como nas apresentações de inauguração dos novos espaços que irão abrigar os instrumentos — foram abordados diferentes gêneros musicais. Nomes como Hique Gomez, Leandro Faber, Arthur de Faria, Renato Borba, Luciano Leães, Sofia Idiart, Alexandre Alles e Francisco Marshall, estes dois últimos também se encarregaram da seleção de canções, foram os convidados a embalar o projeto.

Para Cadu Peixoto, estudante de Artes Plásticas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e um dos fundadores do espaço cultural Acervo Independente, a ideia de pintar em um piano foi bem-vinda: “Estou acostumado a trabalhar em coisa planas. Em um piano foi diferente, um desafio”.

O artista, que se empolgou com a ideia por também se arriscar no piano, escolheu retratar o cotidiano das pessoas nos seus traços. “O principal do projeto é deixar os instrumentos na rua. Pensando nisso, resolvi pintar pessoas nas paradas de ônibus por achar que isso representa um pouco a cidade”, diz. Cadu conta que tirou diversas fotos pela Capital para depois estampar o instrumento, sem saber quem seria o pianista que o tocaria ou onde ficaria exposto depois de pronto.

A fotógrafa e artista Chana de Moura também não hesitou ao receber o convite, que aconteceu através de amigos que a indicaram a participar. “Achei muito interessante a ideia de intervir em um instrumento que sempre tive muito apreço. Aceitei na hora”.

O trabalho de Chana não fugiu do que já está acostumada a fazer: “Arquitetar ideias e juntar palavras e imagens”. O instrumento utilizado por ela ganhou um “ar de história, talvez até infantil”, do qual a artista não esconde o carinho e intitulou como O Incrível Caso da Cidade que Não Queria Crescer. “Penso em cidades de fantasia, que permanecem pequenas, que resistem a processos de urbanização ou de desumanização. Penso sempre em um mundo mais natural, no sentido de refazer elos perdidos entre as pessoas e o ambiente da natureza. Meu trabalho todo, pelo menos por agora, fala para mim sobre reencontros”, explica.

A partir de hoje, os instrumentos seguem para seu novo local, onde devem ficar até abril de 2015. Escolas municipais, um espaço da UFRGS, estações de metrô, Rodoviária, o Mercado Público e até o Hospital de Pronto Socorro estão entre os endereços. Cada local contará com uma nova apresentação no dia da instalação do instrumento. De acordo com Lilian, a escolha foi de espaços públicos, mas em locais fechados para que os instrumentos não sofram com chuva e outras condições climáticas.

Lilian salienta que o principal objetivo “é fazer com que as pessoas fiquem curiosas e se aproximem, mas com bom senso para não machucar o piano”. Os instrumentos estarão à disposição de quem quiser se arriscar no mundo música: “pessoas que nunca tocaram podem tentar, sem problema nenhum. Essa é a vibe do projeto: quem quiser pode tocar”. Passados os cinco meses expostos em diferentes pontos, os pianos serão recolhidos. O destino ainda não foi definido, mas Lilian garante: “Teremos novos projetos para eles”. Além disso, um documentário sobre os pianos e o projeto está sendo produzido, ainda sem data de exibição definida.

Texto: Bruna Ayres (6º semestre)
Fotos: Filipe Castilhos (6º semestre)