Projeto que tira carroceiros e carrinheiros das ruas já beneficiou 380 trabalhadores da Capital

  • Por: Rodrigo Oliveira (2º semestre) | Foto: Annie Castro (2º semestre), Juliana Baratojo (3º semestre) | 22/04/2015 | 0

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Passado um ano e meio desde o início das ações do programa Todos Somos Porto Alegre, que prevê o ingresso de carroceiros e carrinheiros no mercado formal de trabalho e a reestruturação do sistema de unidades de triagem, é possível perceber os resultados proporcionados pelo benefício. Desenvolvido pela prefeitura da Capital, o projeto garantiu, até agora, renda e ocupação em melhor condição para 380 trabalhadores, que antes utilizavam veículos de tração animal ou humana para coletar resíduos recicláveis. Na perspectiva da prefeitura, além dos trabalhadores, são beneficiados cônjuges e filhos. Desta forma, estima-se que cerca de 3 mil pessoas já tiveram suas vidas transformadas pela iniciativa. A meta é atingir 4 mil até 2016.

Um dos favorecidos é Vanderlei Gregório, 59 anos, presidente da Unidade de Triagem Paraíba (U.T. Paraíba), localizada no bairro Floresta. “Aqui dentro não tem o que se queixar”, comemora. Ele se mostra satisfeito com o curso de reciclagem que realizou durante nove meses, quando aprendeu questões técnicas, entre elas as diferenças e ciclos de vida dos materiais.

Vanderlei Gregório, 59 anos, presidente da Unidade de Triagem Paraíba
Vanderlei Gregório, 59 anos, presidente da Unidade de Triagem Paraíba

Gregório puxou carrinho durante 22 anos e garante estar feliz com a nova ocupação. Anteriormente, sua jornada era instável e ele não tinha salário fixo. Enchia o carrinho de lixo, vendia para terceiros e depois recebia o pagamento. Não era tão simples. Condições climáticas, como vento e chuva, prejudicavam muito a atividade. Houve muita insegurança no início da abordagem da prefeitura, em razão da mudança de cultura profissional, mas Gregório garante estar feliz com a nova rotina.

A U.T. Paraíba recebe auxílio da Associação de Mulheres do Loteamento Santa Teresinha, coordenada por Glória Maria Zimmer, que pontua problemas na infraestrutura da unidade, única finalizada dentre as cinco previstas pelo programa Todos Somos Porto Alegre. Conforme ela, atrasou a conclusão do galpão onde é feita a reciclagem. Ela lamenta a falta de equipamentos de combate a incêndio. Além disso, os gastos com manutenção, arcados pela associação e pela Rede Marista, são altos, em relação ao valor faturado. Somente com óleo para as prensas, gastam cerca de R$ 160 mensais. Desde dezembro de 2014, a unidade aguarda firmar o convênio com o Departamento Municipal de Limpeza Urbana (DMLU) para receber uma verba de R$ 3 mil.

Nova fase
Neste mês, o processo de inclusão dá um passo para sua fase mais delicada. No dia 6, uma equipe de 22 profissionais de psicologia, de assistência social e de sociologia iniciou a operação de conscientização para que carroceiros e carrinheiros do Centro Histórico e da região Humaitá/Navegantes ingressem no programa e adquiram uma nova ocupação. O processo nessas localidades é considerado mais complexo, conforme o coordenador do Todos Somos Porto Alegre, Fernando Mello, porque nelas existe um maior número de catadores em situação de vulnerabilidade social. É necessária uma abordagem educativa e sensível, além de um tratamento individual, que amenize o impacto da mudança de realidade. A ação já foi desenvolvida em outras duas zonas, que englobam as regiões Centro-Sul, Glória, Cruzeiro, Cristal, Lomba do Pinheiro, Partenon, Noroeste, Leste, Norte, Eixo Baltazar e Nordeste.

O programa surgiu como resposta à Lei Municipal 10.531, proposta em 2008 pelo então vereador Sebastião Melo (PMDB), hoje vice-prefeito da cidade, que estabelece a redução gradativa do número de veículos de tração animal e humana. O projeto Todos Somos Porto Alegre passou por uma fase de planejamento em 2011 e 2012, quando os trabalhadores foram cadastrados e as regiões, mapeadas para elaboração do orçamento.
Em setembro de 2013, iniciou-se a etapa de restrição da circulação dos catadores nas primeiras áreas determinadas e o consequente oferecimento de cursos de capacitação. Mello explica que o trabalhador pode continuar exercendo atividades na área de separação de resíduos sólidos inorgânicos, atuando em unidades de triagem conveniadas com o DMLU, ou receber capacitação para, depois, exercer funções em áreas como construção civil, elétrica ou serviços. Durante a formação, o aluno recebe uma bolsa mensal de um salário mínimo, uma das maiores no Brasil, segundo o coordenador do programa, e deve ter frequência de 75% nas aulas.

A ideia da iniciativa não é somente propiciar uma nova função para os catadores, mas tornar a cidade mais sustentável. Até 2016, a prefeitura pretende que 40% do lixo recolhido seja reciclado. Mello afirma que, atualmente, é aproveitado apenas 13% do potencial reciclável da cidade. Para tanto, também está prevista no programa a educação ambiental da população, com o intuito de gerar mais lixo reciclável, aumentando a capacidade produtiva de matéria-prima.

O orçamento do programa Todos Somos Porto Alegre é de R$ 18 milhões, sendo R$ 9 milhões de fundo não reembolsável do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e os outros R$ 9 milhões provenientes da própria prefeitura e de empresas parceiras: Celulose Riograndense, Bunge, Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo do Estado do Rio Grande do Sul (SESCOOP/RS), Ambev e Mãos Verdes. O dinheiro está depositado em um fundo específico para o programa.