Proposta de incluir comércio agroindustrial em área da Feira Ecológica do Menino Deus preocupa agricultores

Feirantes pedem exclusividade no uso do espaço interno da Secretaria da Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural, onde expõem há mais de 24 anos

  • Por: Maria Eduarda Rocha (3º semestre) | Foto: Taimá Souza (6º semestre) | 01/04/2019 | 0

Produtores da Feira Ecológica do Menino Deus se mobilizam contra os novos usos planejados para o galpão onde tradicionalmente comercializam orgânicos sempre nas tardes de quartas-feiras e nas manhãs de sábados. Nos demais dias da semana, o espaço da Secretaria de Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural é usado como estacionamento. A proposta é destinar a área nos dias de estacionamento para venda de produtos agroindustriais (alimentos produzidos com agrotóxicos), ampliando as opções aos consumidores e usufruir melhor do espaço público.

“Os maiores beneficiados por esta ação serão os pequenos produtores familiares, tanto orgânicos quanto tradicionais, que terão seus espaços e dias separados, propiciando uma grande oferta de produtos e iguarias aos porto-alegrenses”, explicou o diretor administrativo da secretaria, Gabriel Fogaça. Os dias e horários da tradicional feira ecológica não seriam alterados. Conforme informação divulgada pela assessoria de imprensa da Secretaria da Agricultura, o protagonismo da Feira Ecológica será mantido e as novas práticas comerciais irão atrair ainda mais visibilidade. “A ideia não é dificultar a venda de produtos orgânicos, muito pelo contrário, é chamar ainda mais o público, pois as pessoas passarão a ir até o local em outros dias da semana”.

Agricultores da Feira Ecológica acreditam que a inclusão de outros tipos de produtos no mesmo espaço destinado aos orgânicos pode confundir os clientes e trazer prejuízos incalculáveis. “No momento em que se abre a feira para produtores convencionais, que não produzem no mesmo sistema, acreditamos que acaba gerando conflito para os consumidores”, afirma Gilmar Bellé, produtor agroecológico e Representante da Comissão da Feira do Menino Deus. Outro tópico levantado pelo agricultor é a valorização do galpão, projetado especialmente para abrigar a feira. “Aqui não existia nem pavilhão, era feito com lona e não tinha calçamento. Ao longo dos anos, nós fomos construindo esse espaço e começamos também a ter uma clientela que vem para cá em busca de produtos orgânicos”. Em 2016, o local passou por uma reforma, custeada pelos produtores da Feira Ecológica, e hoje recebe visitas de Universidades e produtores agrícolas de diferentes partes do mundo, sendo considerada uma das maiores feiras ecológicas do Brasil.

O que mais inquieta a comunidade da feira é o risco de contaminação dos alimentos. Os agricultores temem que seus produtos podem atingidos pelos agrotóxicos utilizados na produção agroindustrial, embora não exista comprovação técnica de que isso possa acontecer.

O representante dos produtores orgânicos, Gilmar Bellé sustenta que a comunidade da Feira Ecológica não foi consultada oficialmente pela Secretaria da Agricultura sobre a intenção de utilizar o espaço para vendas não orgânicas em outros dias da semana. Diz que só souberam da proposta a partir de uma declaração pública da Secretaria. “A gente sente que tem o direito porque construímos esse espaço e queríamos participar dessa discussão também”, conta Gilmar Bellé. Os feirantes já solicitaram audiência com o secretário da Agricultura, mas ainda não conseguiram.

Gilmar Bellé há mais de 15 anos vende frutas e hortaliças na Feira do Menino Deus.

Como forma de reivindicar a manutenção do atual espaço sem novos expositores, a comunidade agroecológica do Menino Deus organizou um abaixo-assinado, que será entregue à Seapdr. A intenção é recolher o máximo de assinaturas de consumidores para demonstrar apoio a Feira Ecológica do Menino Deus. Para Anselmo Kanaam, organizador da feira há 8 anos, manter a exclusividade do espaço é uma questão de responsabilidade social e um compromisso com a saúde da população: “A gente quer e precisa de apoio. Por isso, nós estamos recolhendo assinaturas, para demonstrar o apreço por esse trabalho e pela defesa da saúde de todos”.

Feirantes recolhem assinaturas da comunidade em apoio ao abaixo-assinado na entrada da Feira.

O diretor administrativo da Secretaria da Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural, Gabriel Fogaça, informou que ainda não recebeu nenhuma reivindicação formal, mas que já se tem conhecimento das movimentações. Adiantou que caso seja entregue qualquer solicitação, será recebida com muito respeito e avaliada com muita atenção. Além disso, ele assegurou que, no dia 20 de fevereiro deste ano, representantes da feira foram recebidos pela direção da Seapdr e que eles foram os primeiros a serem comunicados sobre a intenção de ampliar o espaço para outros tipos de comércio.