Quando a arte transforma a vida

Um terno preto, óculos redondos e um semblante sereno.  Foi assim que um dos mais premiados cineastas do século, presidente da Academia de Cinema Asiática e aclamado diretor iraniano Mohsen Makhmalbaf discorreu sobre a história do Irã, sua carreira e a força do cinema na mudança de uma sociedade na manhã desta terça, 1º de novembro, no auditório da Famecos na PUCRS.

Honrando suas origens orientais, lembrou os milenares poetas persas ao utilizar metáforas simples, porém simbólicas em sua fala. As diferentes influências que constituíram o Irã foram transfiguradas em água. “O Irã é alimentado por três rios: o persa, o islã e o ocidente. Nos últimos anos sofremos uma crise de identidade, ficamos tontos. Não sabemos se somos os poetas persas de 2 mil anos atrás, os islâmicos ou os persas ocidentalizados”. Neste contexto paradoxal o cinema exerce papel libertador. “Os cineastas começaram a desempenhar o papel dos antigos poetas, mostrando que democracia é ter liberdade para pensar”, declamou.

A simplicidade e contemplação características dessa civilização oriental são princípios básicos dentro do cinema iraniano. “O cinema iraniano é uma mistura de realismo e poética. Não usamos atores, escolhemos pessoas que andam na rua, que não vão fingir mas vão viver a vida como ela realmente é”. O diretor prima por cenários verdadeiros e afirma que estúdios matam a naturalidade.

Outra métrica defendida pelo poeta das telas é o baixo orçamento na produção de filmes. “Tentamos fazer filmes com baixo orçamento para mostrar nossas crenças e conceitos. Minha equipe nunca excede 6 ou 7 pessoas”. Prova disso foi o documentário “Alfabeto Afegão” que denuncia a situação de 700 mil crianças afegãs refugiadas no Irã que eram impedidas de estudar nas escolas do país. “Fiz esse filme com uma câmera simples e com a ajuda de minhas duas filhas e esposa. Concluímos o filme em duas semanas e ele teve o resultado desejado porque conseguimos modificar a lei do país. Mais de 500 mil crianças afegãs foram incluídas no sistema escolar iraniano”, ressalta o cineasta que defende o cinema como catalisador da democracia.

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“Não somos árabes, somos persas. Chamar-nos de muçulmanos é o mesmo que chamar os brasileiros de mexicanos” frisa o diretor sobre a diferença étnica que é generalizada pelo mundo ocidental. A regra aplica-se para explicar as insurreições populares que estão derrubando ditadores no Oriente Médio. “Não é a primavera árabe, é a primavera persa porque aconteceu antes no Irã. Ela é resultado de imagens e do cinema que a população assistiu”. Makhmalbaf acredita que esta é a hora da mudança e ele deve vir pelas mãos  dos 67% da população que tem menos de 30 anos. “Os jovens iranianos querem amor, ver o mundo, democracia e o regime não da nada disso para eles, esse é o ponto mais importante”.

Texto: Felipe Martini. Foto: Divulgação