Quando uma mulher se torna prenda

E como eram solidárias

na lida dos ajutórios,

nos partos e nos velórios

e nos transes, e reponsos

dos terços tristes, chorados

por alma dos que morriam.

 

Rijas mulheres do pampa!

Enlutadas heroínas

que se chamaram de “chinas”

por esse esquivo recato

e pelos olhos rasgados

deixados de herança índia

nos sangues miscigenados!

 

(…) Decerto delas herdamos

essa força primitiva,

essa fé que nos anima,

que mantém a raça viva,

perene através da idade.

Da mulher quase cativa

nasceu esta gente altiva

que ama tanto a liberdade

 

Os versos de Delci Oliveira em Retrato, Romance das Mulheres dos Guerreiros, fazem referência às tantas mulheres que, por uma década, se encarregaram da estância, dos negócios da família, das lidas campeiras e do lar, além de criarem os filhos, enquanto seus maridos guerreavam.

Passados 178 do início da revolução Farroupilha, que transformou a vida de mulheres do Rio Grande do Sul, meninas de 10 a 28 anos também alteram sua rotina, desta vez na disputa por uma faixa e, com ela, o título de Prenda do Rio Grande do Sul. A Ciranda Cultural de Prendas é realizada pelo Movimento Tradicionalista Gaúcho

Kelly Rocha, de 28 anos, viu sua dedicação gerar frutos ao alcançar o título de atual 3ª Prenda do Rio Grande do Sul. Desde os 14 anos, ela desfila com uma faixa de couro sobre o vestido e, até hoje, passou apenas um ano sem carregar um título. Por seis anos, preparou-se para a Ciranda e conta que chegou a atrasar a formatura (Kelly é estudante de Direito na UniRitter) para aproveitar melhor o prendado, que tem um ano de duração. “Eu me vi em uma saia justa, poderia me formar no final do ano e não curtir tanto quanto gostaria a faixa que conquistei agora. Como lutei 14 anos para ganhar e, agora, eu não vou aproveitá-la, sendo que, em mais seis meses, eu vou estar formada igual?”.

Algumas prendas trancam a faculdade ainda na preparação para o concurso, que tem seis avaliações distintas. A prova escrita vale mais, 35 pontos. Nessa prova, as candidatas devem responder a 30 questões sobre História do Brasil e do Rio Grande do Sul, geografia, tradição, tradicionalismo e folclore do Estado, além de fazer uma redação sobre um tema atual.

Uma vez eleitas, além de representarem a mulher gaúcha, as prendas exercem importante papel no âmbito social e devem auxiliar na busca de solução para problemas fundamentais do Estado, conforme sugere a Carta de Princípios do MTG/RS. Pensando nisso, o movimento tradicionalista vai às escolas na tentativa de conquistar as crianças, oferecendo um ambiente bastante familiar, onde avós, filhos e netos convivem em harmonia e, principalmente, um espaço livre de drogas. “Pode até parecer um pouco convencido da nossa parte, mas dentro do Movimento Tradicionalista as drogas não têm vez”, argumenta Kelly. Além das ações nas escolas, as prendas eventualmente realizam campanhas para arrecadar suprimentos para populações carentes, ou vítimas de enchentes, como as que aconteceram em agosto. Na ocasião, elas se reuniram para arrecadar suprimentos para as famílias prejudicadas pelas enchentes em Alvorada e Esteio.

Por um ano, vários lugares são visitados pelas prendas. Ajudar na preparação de outras prendas, representar o MTG em eventos, participar de rodeios e cavalgadas estão entre as atividades que as fazem viajar pelo interior do Estado. Kelly diz que essa é a parte mais prazerosa e enumera cidades que provavelmente não conheceria sem a faixa, como Uruguaiana, Bagé e o distrito de Santo Amaro do Sul, onde esteve para o acendimento da Chama Crioula, em agosto. Tudo isso, porém, tem um custo que não é integralmente reembolsado. Uma prenda precisa estar sempre impecável. Além dos custos com viagens, há gastos com indumentária (Kelly tem 24 vestidos de prenda em seu guarda-roupa), maquiagem, cabelo e acessórios. “Ser do CTG é muito bom, mas também não é barato”, completa.

A partir de maio de 2014, Kelly estará em uma situação rara: sem faixa. Em razão da idade, esse é seu último prendado. Sem faixa, porém, devidamente pilchada. A prenda tem planos para voltar à invernada do Departamento de Tradição Gaúcha (DTG) Lenço Colorado, do Sport Club Internacional, entidade que representou por todos esses anos. A menina que se escondia no banheiro para não precisar ler em voz alta na escola, está prestes a se formar em Direito. Hoje venceu o medo de microfone, expõe sua opinião em público e mostra talento para lidar com pessoas. Requisitos essenciais para a futura advogada, adquiridos nos 14 anos em que fez de uma faixa de couro sua segunda pele, uma extensão de si mesma. “Para mim, esse é o maior aprendizado. Não consigo imaginar minha vida longe do tradicionalismo”, projeta.

Texto: Bruna Zanatta (2º semestre)
Fotos: Janaína Marques (6º semestre)