Repórter do Editorial J acompanha de dentro o protesto em Porto Alegre

Os olhos ardem intensamente, a garganta está irritada. O efeito da bomba de gás lacrimogêneo, sentido pela primeira vez na vida, de certa forma potencializa os sentimentos de ansiedade, euforia e medo. Nos dois lados da Avenida Ipiranga, os manifestantes querem a redução da passagem de ônibus e mostram indignação com os gastos para a Copa do Mundo de 2014. A voz de uma multidão de mais de 10 mil pessoas ecoa pela cidade, na noite de segunda-feira, 17 de junho.

“Zero Hora, Zero Hora”, gritavam alguns dos integrantes da manifestação, ao deixarem a Avenida Azenha, de onde vinham. O ato começou às 18h, em frente à Prefeitura Municipal de Porto Alegre. “O povo tá na rua, Fortunati a culpa é tua”, clamavam as vozes, que se somavam aos apitos e tambores. Faixas, bandeiras, rostos pintados, encapuzados, escondidos por máscaras e completamente limpos, sem medo de reprimenda.

O protesto seguiu pelas avenidas Borges de Medeiros, Salgado Filho, João Pessoa e, finalmente, alcançou a Ipiranga, onde estavam soldados da Brigada Militar. Enquanto balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo eram jogadas, a população brada ser gaúcha e lembra que “você aí fardado, também é explorado”. Tentam avançar, em direção à sede do jornal da RBS, mas as tentativas de conseguir espaço são seguidas por fortes estouros, um manto branco que encobre a linha de frente da população e gritos. Muitos deles, o tempo todo. Gritos que são de uma mãe que é presa e pede para ir ao hospital, ao invés da delegacia. Gritos de jovens que querem um país mais igual. Gritos misturados ao choro de um adolescente, enquanto é detido e está com medo. Gritos de outra mãe que ataca a polícia – pede para que eles parem de atirar, já que seu filho, e de outros tantos, está do outro lado da fita zebrada, de frente para a polícia.

Se a proteção ao prédio do grupo RBS se mostra intransponível, o mesmo não pode ser dito de outros estabelecimentos. No caminho, uma minoria entre os protestantes depredaram prédios e derrubaram contêineres de lixo, sem sofrer censura por parte da polícia. Enquanto alguns destruíam, outros tentavam consertar o erro. Vaias eram lançadas aos vândalos, uma pequena equipe colocava os contêineres no local, e o público no entorno aplaudia o ato. Infelizmente, nem todas as destruições tinham reparo, caso dos estabelecimentos como Banrisul, Panambra e Honda, locais que sofreram depredação.

“O vandalismo de um grupo pequeno não coloca a real intenção do protesto. A Federação Anarquista Gaúcha (FAG) faz a violência; e os protestantes pagam pelos atos deles”, reclama o integrante do grupo Anonymous, José Carlos Souza, 33 anos, técnico em informática. Na sua mão, uma ferida redonda, próxima ao polegar, aberta por bala de borracha, disparada contra ele em outra manifestação.

Com a polícia impedindo o avanço dos manifestantes, boa parte do público se dispersa ou vai embora. No entanto, o confronto ainda está longe de acabar. Enquanto um ônibus é pichado e tem seus vidros quebrados, ateiam fogo em um contêiner de lixo próximo. A polícia ganha espaço, a pé e montada a cavalo, e um dos rapazes que está filmando as prisões é conduzido por um dos policiais para conversar. Segundo outro militar, o jovem foi chamado por estar no lugar errado, na hora errada. São 21h30min, esquina das avenidas Azenha e Ipiranga, e parte da população recua, mas não vai embora.

Enquanto um grupo de manifestantes se dirige às ruas da Cidade Baixa, outro segue pela Avenida João Pessoa e queima um ônibus da empresa Carris, do qual sobra apenas a carcaça enegrecida pelas chamas. Cada vez menor, o grupo continua até as proximidades do Largo Zumbi dos Palmares. As discussões entre os vândalos e os manifestantes que querem um ato pacífico tornam-se mais acentuadas. Em determinado momento, garrafas de vidro são jogadas ao alto. O que no princípio era orgulho, vira desentendimento.

Entre os depredadores, antes do confronto com a polícia, um menino que não devia ter mais de 10 anos segurava uma pedra na mão. Não sabia explicar ao certo o porquê do seu ato, mas alegou que não jogaria a pedra do meio da multidão, o que evitaria que alguém saísse ferido. Argumentos de um ato sem violência foram escutados, mas ele desapareceu entre os demais, segurando firmemente a pedra que carregava consigo.

Meninos, homens. Os manifestantes que restaram deixam a Avenida Loureiro da Silva e se dirigem ao Centro Histórico, local de início da caminhada. Estouros, pessoas correndo. Os avisos de que a polícia militar cerca o local são muitos, atemorizam, no entanto ela não é vista, e isso aumenta a angústia. Não há mais unidade no movimento, contudo há depredações. Entre os alvos, a Companhia Estadual de Energia Elétrica (CEEE). Em frente ao Palácio Piratini, a polícia aguarda. Entretanto, não há mais coesão no movimento, tampouco um número expressivo de pessoas, como no começo. Algumas tentam se aproximar da Praça da Matriz, policiais montados em cavalos surgem, dando início a uma nova fuga.

Passava das 23h. Enquanto restos de lixo queimam na João Pessoa, o guincho se prepara para levar o que sobrou do ônibus incendiado. O caminhão de bombeiros rapidamente percorre o asfalto, em direção ao Centro Histórico. A população caminha nas ruas, conversa, avalia os estragos e os acertos da noite. Uma dúvida paira no ar: Por que o policial disse ao menino que estava na hora errada, no lugar errado?

Texto e vídeo: Douglas Roehrs (5º semestre)
Foto: Laísa Mendes (3º semestre) e Gabriela Cavalheiro (5º semestre)