Restrições e ameaças ao trabalho da imprensa por parte da equipe de Bolsonaro preocupam jornalistas

Presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) recomenda que profissionais não se calem, não se intimidem diante da agressão

  • Por: Fernanda Nudelman (2º semestre) | Foto: Valter Campanato/Agência Brasil | 14/11/2018 | 0

Jornalistas da Folha de São Paulo, O Estado, O Globo e da imprensa internacional foram impedidos de entrar na coletiva dada pelo presidente eleito Jair Bolsonaro, em sua casa, no Rio de Janeiro, em 1º de novembro. Em outras ocasiões, jornalistas foram hostilizados por integrantes da equipe de apoio do eleito, principalmente no período da campanha eleitoral.

Preocupados com o crescimento do ambiente hostil para atividade dos jornalistas, principalmente em Brasília, onde está se instalando a equipe de transição para o novo governo, a presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), Maria José Braga, destacou que “a liberdade de imprensa é um pilar da democracia, porque é através do debate público, das informações que circulam na esfera pública, que o cidadão e a cidadã podem constituir seu juízo e podem ter suas opiniões sobre o que está em jogo no país”.

Para coordenador geral do sindicato dos jornalistas de Brasília, Gésio Passos, Bolsonaro vem declarando guerra a vários veículos, principalmente da mídia impressa, a vários canais de televisão, “inclusive negando o acesso até à própria televisão pública nas suas entrevistas coletivas”. Segundo Passos, não é de hoje que essa categoria é atacada de diferentes formas e, nos últimos dias, isso tem se evidenciado de diversas maneiras.”O que a gente percebe entre os colegas é um grande temor, um temor de como será o exercício profissional do jornalismo nos próximos quatro anos.”

Um levantamento da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI) registrou mais de 130 casos de agressões a jornalistas em contexto político-eleitoral. A  pesquisa também divulgou que 75 ataques ocorreram por meios digitais, atingindo 64 profissionais e os números convergem com o acompanhamento e verificação que a FENAJ tem feito. A presidente da FENAJ conta que, “o maior número de casos é de agressões verbais e de ameaças, tentativas de intimidações. Têm alguns casos em que se tenta impedir o trabalho dos jornalistas”.

Em casos de agressões, Maria José orienta que o primeiro passo a ser seguido é denunciar às autoridades. “Deve-se procurar o sindicato de jornalistas do seu estado para ter o apoio institucional […] e, obviamente, o jornalista também sente-se parceiro da FENAJ, do sindicato, em cobrar das empresas medidas protetivas para que essas agressões não sejam tão frequentes, tão corriqueiras”, observou a presidente..

O jornalista Matheus Schuch, da RBS em Brasília, comenta que sua maior preocupação “está relacionada ao debate distorcido de Bolsonaro e seus aliados sobre verdade e mentira, fatos e fake news. Durante a campanha, o então candidato classificou de “fake” várias reportagens embasadas em fatos e documentos, simplesmente porque iam contra os seus interesses, enquanto compartilhou diversas notícias comprovadamente falsas.” Ele acrescenta que o este discurso vem sendo replicado por seus seguidores que acabam dando descrédito a notícias verdadeiras.

A presidente da Federação Nacional dos Jornalistas relembra que o jornalismo é necessário, deve fazer um trabalho de qualidade, exigir que as pessoas consumam essas notícias que são produzidas. “A perspectiva para o próximo governo não é boa porque nós temos um presidente eleito que, por diversas vezes, já demonstrou seu caráter autoritário, de quem não convive bem com democracia e com as críticas.”

O jornalista Schuch acrescenta que “dificultar a comunicação com determinados veículos e/ou jornalistas é algo comum, não se limita a Bolsonaro. Porém, em seus discursos, o presidente eleito e seus aliados já fizeram muitos ataques à imprensa tradicional”. Para ele, a relação do futuro governante com a imprensa é conturbada, seus assessores respondem com dificuldade aos pedidos de informação e de entrevistas, sendo difícil até mesmo saber a agenda dele.

Na sua primeira viagem à Brasília como presidente eleito, conta o repórter da RBS, “Bolsonaro atendeu a imprensa em várias ocasiões, sem privilegiar ou boicotar veículos e jornalistas”. Mas, Schuch diz que ainda é preciso que o presidente eleito e sua equipe aumentem os contatos com as mídias, para que seja garantido que todas as informações, de forma transparente, cheguem à imprensa e consequentemente à  população.