“Revista Veja pauta o neoliberalismo”

Semanalmente nas bancas de todo o país com tiragens de mais de um milhão de exemplares, a revista Veja pode ser considerada a publicação com maior número de leitores no Brasil. A liderança no mercado é acompanhada por críticas relativas ao papel político que desempenha na sociedade brasileira através de sua linha editorial e reportagens investigativas. Nessa segunda-feira (29 de outubro), na 58ª Feira do Livro de Porto Alegre, o tema foi discutido no debate: “Mídia como protagonista político: um sujeito chamado Veja”, contando com as participações das professoras Carla Luciana Silva e Tânia Almeida e mediado pelo historiador Luiz Antônio Grassi.

Antes das falas das professoras, Grassi ressaltou a importância do encontro, assistido por uma platéia majoritariamente composta por profissionais da área da comunicação e da história. “É um tema relevante para o momento atual do Brasil, quando a mídia e imprensa influenciam de maneira velada nosso processo político”, salientou.

Professora de História da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), Carla Luciana Silva, autora do livro “Veja: o indispensável partido neoliberal”, caracterizou a publicação como uma defensora do Estado mínimo. “Defendem esses interesses até mesmo porque o Grupo Abril, que comanda a Veja, possui acionistas internacionais. Entre esses, há até mesmo grupos que financiaram o Apartheid na África do Sul. Em resumo, a revista Veja pauta o neoliberalismo”, aponta.

Fazendo referência ao filósofo marxista Antonio Gramsci, Carla afirmou que a imprensa pode atuar como partido. “Durante a Ditadura Militar, Veja é mais um entre os veículos de imprensa que apoiaram o regime dos generais. Depois, quanto temos as eleições de 1989, as primeiras eleições diretas para presidente, a revista vai ‘criar’ e apoiar Fernando Collor”, analisa.

Empossado, Collor será alvo de cobranças da revista. “Nesse momento, a publicação exige um programa de governo liberal. Quando surge o Impeachment, eles cedem ao clamor popular e noticiam o escândalo, mas, na linha editorial, permanecem favoráveis ao ‘Caçador de Marajás’”, afirma a pesquisadora. E completa: “Após algum tempo, eles ainda se colocam como ‘a revista que derruba presidentes’”, indigna-se, fazendo uma referência às denúncias que Pedro Collor, irmão do ex-presidente, fez à Veja, dando início ao processo de Impeachment.

Hoje, o semanário mudou os seus alvos. “Na América Latina, eles colocam como problemas os governos de orientação popular que se opõem aos interesses de empresas multinacionais”, acredita Carla.

Professora de Relações Públicas da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), Tânia Almeida iniciou sua fala destacando a missão a que Veja se propõe. “Eles pretendem ser a maior revista do país e reformular a sociedade brasileira, adequando-a ao seu modo de enxergar o mundo”, afirma.

Tânia Almeida, Feira do Livro, debate revista Veja foto: Romulo Alves/Divulgação
Tânia Almeida vê nos textos de Veja a tentativa de induzir o leitor

Para Tânia, o texto de Veja apresenta uma tentativa de moldar o pensamento do leitor. “Notamos um tom didático, com perguntas que são respondidas logo na seqüência e sentenças proferidas por uma revista”, analisa.

A pesquisadora ainda apontou razões para que Veja priorize em suas matérias de maior extensão a política. “Embora muitas vezes as denúncias sejam rasas e questionáveis, os temas que mais vendem, nesse caso específico, são política e saúde”, finalizou.

A reportagem entrou em contato com a revista Veja, que não quis se pronunciar, alegando estar em processo de fechamento antecipado de edição.

Texto: Caio Venâncio (2º semestre)
Fotos: Rômulo Alves (Divulgação)