Samba e luta unidos no primeiro bloco de carnaval feminista de Porto Alegre

Bloco Não Mexe Comigo Que Eu Não Ando Só é composto somente por mulheres, que vão às ruas cobrar seu espaço no carnaval de rua da cidade

Texto e foto: Roberta Requia (1º sem.)

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Brilhos, flores, saias e fitas coloridas. Instrumento por instrumento, elas afinam e ensaiam. Uma, duas vezes e param. Começam de novo. Uma, duas vezes. Agora vai, de novo. Cerca de 30 ou 40 mulheres tocam e fazem ritmo de bateria no pátio da ocupação Mulheres do Mirabal, no centro de Porto Alegre. Bumbos, tamborins, surdos e chocalhos. Um saxofone soa solitário nos braços de uma moça de biquíni vermelho. O bloco Não Mexe Comigo Que Eu Não Ando Só representa a união do samba e do carnaval de rua, com a luta feminista perante a sociedade.

O bloco, que completa um ano em meados de fevereiro, teve sua semente plantada nas redes sociais: “Cerca de 80% das integrantes da bateria dos blocos de rua de Porto Alegre são mulheres. Ao mesmo tempo, todas as baterias são regidas por homens. Faltava um espaço que fosse só para mulheres, regido por nós, onde onde possamos nos sentir mais à vontade. Feito isso, criamos um grupo no Facebook, e no final do dia, havia mais de quinhentas mulheres participando”, conta a socióloga e uma das fundadoras do grupo, Kátia Azambuja, de 29 anos. Ela também ressalta a construção democrática do grupo, no qual as decisões são tomadas pelo grupo, para que a informação chegue a todas as participantes de maneira horizontal. O regimento também é revezado entre cerca de quatro mestras de bateria e, ao longo do ensaio, as instrumentistas dão suas opiniões e percepções sobre o ritmo e a harmonia da bateria. Assim, criam e mudam juntas a música feita por elas.

A jornalista Bebê Baumgarten, responsável pela comunicação do bloco Não Mexe Comigo, conta que o nome do grupo nasceu quando um grupo de meninas se deslocava em direção a Cidade Baixa após uma das primeiras reuniões de formação do bloco e foram perseguidas: “Depois do nosso primeiro encontro, que aconteceu ali no Largo Zumbi dos Palmares, cada menina foi para o seu lado. E um grupo foi caminhando pra Cidade Baixa, pra tomar uma cerveja. E como sempre, teve um grupo de homens que ficou em volta, chamando, observando, fazendo o tipo de coisa que a gente já tá acostumada a ver, e saíram atrás delas. Então, elas se juntaram e começaram a cantar a música Não Mexe Comigo Que Eu Não Ando Só, (da cantora Maria Bethania) e nós achamos que esse seria um ótimo nome para o bloco.” Bebê toca caixa na bateria do bloco e participa da oficina de percussão do bloco Turucutá.

Algumas instrumentistas do bloco vêm de outras baterias e oficinas, principalmente do Turucutá e Bloco da Laje. Já outras, tiveram o primeiro contato com os instrumentos de percussão dentro do grupo, explicou a percussionista Kátia. “Teve meninas que chegaram aqui sem saber tocar nada. Elas diziam ‘eu não sei tocar nada, eu só sei tocar o terror’ E assim a gente começou a tocar e aprender junto.”

O bloco Não Mexe Comigo Que Eu Não Ando Só planeja sair em seu carnaval no mês de março, sem auxílio e doações da prefeitura de Porto Alegre, que não repassará valores para as escolas de samba do grupo de Ouro e do Grupo de Prata. Para isso, elas contam com a doação das próprias integrantes do bloco, que colaboram da maneira que podem para arcar com os custos e a manutenção das reuniões do bloco. Kátia afirma que os cortes orçamentários terão impacto sobre a cultura na Capital. “Carnaval é a festa do povo. E por mais que esteja ficando cada vez mais elitizado, o povo que tá na rua ainda quer sim fazer festa. Ainda mais com a crise, onde gastar com entretenimento e lazer tá cada vez mais difícil. E no carnaval, o pobre pode ser a realeza, pode se fantasiar e ser quem ele quiser”, afirma.

Confira abaixo uma galeria de fotos do bloco:

Samba e Luta unidos no primeiro bloco composto somente por mulheres na capital