“Só aprendemos o verbo to be”

O turista que fala apenas inglês terá dificuldade para se deslocar em Porto Alegre, devido ao desconhecimento deste idioma por parte dos taxistas e alguns funcionários de serviços turísticos, como os situados na Estação Rodoviária. “O curso foi muito básico, em inglês só aprendemos o verbo to be e outros poucos conteúdos”, desabafa o taxista Cláudio Pavão, que considera fraco o ensino oferecido pela prefeitura de Porto Alegre em parceria com os Serviços Social e Nacional de Transporte (Sest/Senat). Durante dez meses, cerca de 200 taxistas tiveram aulas de inglês e espanhol com preparação para receber turistas na Copa do Mundo no Brasil.

O motorista Cláudio Pavão, que reconheceu a despreparação para dialogar em inglês, atua na área do Aeroporto Internacional Salgado Filho, onde a equipe do Editorial J esteve, além da rodoviária, para testar a comunicação com prestadores de serviços básicos aos turistas. Com a intenção de conferir o desempenho de atendentes e taxistas diante de interlocutores de língua inglesa e espanhola, repórteres acompanharam as estudantes intercambistas do curso de Relações Públicas da Famecos Yukie Yagishita, japonesa falante de inglês, e Ingrid Peralta, peruana que se expressa em espanhol. As duas saíram em busca de informações turísticas usando seus respectivos idiomas.

O primeiro destino das intercambistas foi o aeroporto da Capital. A peruana Ingrid se dirigiu ao Centro de Informações Turísticas, localizado no centro do primeiro andar, para perguntar como chegar ao Centro Histórico. A única atendente que estava no balcão prontamente respondeu a pergunta, apesar de falar um “portunhol”. Desse modo, não houve dificuldade na comunicação.

Diferentemente de Ingrid, a japonesa Yukie não recebeu a mesma atenção por parte dos atendentes. No balcão de serviços da Infraero, localizado no segundo andar do aeroporto, falando inglês Yukie fez a mesma pergunta sobre o deslocamento ao Centro-Histórico. Naquele momento havia apenas uma atendente no local. Ao se deparar com a pessoa que se expressava em inglês, enrugou a testa em sinal de estranheza e pegou o telefone. Alguns segundos depois, a funcionária solicitou a pessoa que estava do outro lado da linha que se comunicasse, em inglês, com a intercambista. Yukie repetiu o que havia falado pausadamente e esperou a explicação do funcionário pelo telefone. A intercambista comentou que, apesar de ter entendido a informação, o atendente mostrou pouco domínio da língua. Quando questionada sobre o serviço para estrangeiros, a atendente com quem Yukie tentou se comunicar inicialmente declarou que fala apenas espanhol e que outros funcionários da empresa entendem inglês, mas não estavam naquele momento.

Na área externa do aeroporto, a japonesa dirigiu-se ao ponto de táxi e enfrentou as mesmas dificuldades. Com um mapa na mão, Yukie avistou um taxista esperando clientes e perguntou o preço da corrida até seu bairro. O primeiro taxista, antes mesmo dela concluir a fala, chamou o coordenador de fila para ajudá-lo. Jorge Barcelos, que organiza a entrada e saída de táxis no aeroporto, arriscou-se e respondeu prontamente a solicitação de Yukie. Apesar disso, não foi capaz de continuar o diálogo.

Minutos depois a peruana Ingrid colocou seu idioma em prática. A peruana abordou o taxista Cláudio Pavão, que entendeu seu espanhol e respondeu em português, sem dificuldade. Para Diego Lima, outro coordenador de fila do aeroporto, o curso realizado pelos taxistas pouco acrescentou. “Não fez muita diferença. Conheço apenas dois taxistas daqui do aeroporto que dominam o inglês. Quando os outros colegas não entendem algum turista, eles chamam os dois para ajudá-los.”

Estação Rodoviária

Ao trocar a tranquilidade do aeroporto pela grande movimentação da rodoviária, as estudantes se depararam com o rápido entra-e-sai de pessoas nos carros. No ponto de táxi, localizado na entrada da rodoviária, as intercambistas esperarem por 10 minutos em vão. Sem ninguém para atendê-las, dirigiram-se à rua na tentativa de abordar algum taxista.

Assim como no aeroporto, todos os taxistas entenderam o espanhol da peruana, embora não falassem o idioma, mas escorregaram nas perguntas em inglês da japonesa. Alguns deles, inclusive, saíram de onde estavam estacionados ao ver a aproximação da pessoa que falava apenas inglês. Para o motorista Paulo Sérgio Silveira, não há necessidade dos colegas falarem o idioma para receber os turistas na Copa do Mundo. “A gente já sabe que todos que vierem para cá vão fazer o caminho para o Beira-Rio, então não é preciso”, justifica. Irineu Salvador concorda com o colega e acrescenta que “além disso, é obrigação deles aprenderem a se comunicar na nossa língua. Quando nós viajamos para lá, a gente tem que se virar para se comunicar com eles”.

No interior da rodoviária, o serviço de informações turísticas estava fechado neste dia, às 16h48min. Caminhando em busca de outro posto, as estudantes avistaram um balcão para tirar dúvidas referentes à Copa no centro da rodoviária. Para os atendentes Eduardo Pereira e Carine Amaral, os taxistas não têm condições de receber os turistas, pois não sabem se comunicar em outras línguas. Carine atribui “a fuga” dos taxistas para não atenderam Yukie à falta de entendimento na comunicação. “Eles devem ter se recusado a dar informação por vergonha de não entenderem”, acredita.

Enquanto isso o atendimento prestado pelo funcionário Guilherme Geovane, no centro de informações turísticas do aeroporto, foi considerado eficiente pela intercambista Yukie. Geovane mostrou fluência e naturalidade ao fornecer informações para a japonesa e foi capaz de desenvolver um diálogo sem interrupções para explicar os diversos pontos da cidade.

Texto: Gabriela Giacomini e Sofia Schuck (1º semestre)

Fotos: Yanlin Costa (2º semestre)