Temas LGBT pautam campanha presidencial

Em pleno ano de eleições presidenciais, temáticas pautadas pelo movimento LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgêneros) ganharam grande destaque nos debates entre os candidatos, refletindo uma movimentação já percebida nas ruas e nas redes sociais. Temas tradicionalmente abordados em campanhas, como questões econômicas e sociais, acabaram não tendo a mesma visibilidade verificada em outros pleitos.

O cientista político Juliano Corbellini avalia que a força da luta LGBT conseguiu o espaço que buscava. “Isso é o reflexo do que está em pauta na sociedade mediante ao extraordinário avanço do movimento na luta por direitos civis. A sociedade vai amadurecendo, e debates mais contemporâneos começam a ganhar espaço”, observa.

A luta em prol do respeito à diversidade sexual começou no Brasil na década de 1970. Mesmo com cerca de 40 anos de mobilização, esta campanha mostrou que ainda há muito a se conquistar na garantia de direitos relacionados a gênero e diversidade sexual, conforme ficou evidenciado no debate promovido pela Record no domingo (28/9).

Na ocasião, uma declaração do candidato à Presidência da República Levy Fidelix (PRTB) causou polêmica e indignação, ao mesmo tempo em que recebeu muito apoio. Ao responder a uma pergunta da candidata Luciana Genro (PSOL) sobre o crescimento do número de mortes na comunidade LGBT e sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo, Fidelix afirmou: “Tenho 62 anos e, pelo que eu vi na minha vida, dois iguais não fazem filho. E digo mais: aparelho excretor não reproduz”.

Ele ainda comparou homossexuais a pedófilos e afirmou que jamais apoiará a união homoafetiva. “Temos 200 milhões de habitantes no Brasil. Se estimularmos isso, vamos reduzir para 100 milhões. Vamos ter coragem, somos maioria! Vamos enfrentar essa minoria”, bradou.

Para Sandro Ka, diretor do grupo Somos – Comunicação, Saúde e Sexualidade, o maior motivo para o tema ter ganhado espaço nos últimos dias de campanha é o “tom de polêmica”. “É arriscado para algumas campanhas tocar no assunto, então a maioria dos candidatos pouco se posiciona claramente ou fala sobre isso apenas quando o clima é favorável, após muito tempo de observação. Na vida privada dos candidatos, alguns até tem essas questões mais claras, mas, na campanha, não querem perder votos para um assunto desses”, pondera.

Segundo o assessor de imprensa do PRTB no Rio Grande do Sul, Tomás Sá Pereira, a posição de Fidelix no debate não é unanimidade no partido. “Ele exerceu o direito de falar o que pensa. Ele não é todo o partido, é o presidente. Somos mais de 3 mil filiados no Estado e tantos outros no Brasil. Não encontraremos a mesma ideia em todos os militantes. Isso são pensamentos particulares de Fidelix”, relativiza.

A linha adotada por Fidelix é a mesma percebida em líderes políticos e religiosos vinculados às igrejas pentecostais, como os pastores Everaldo, também candidato à Presidência pelo PSC, e Silas Malafaia, líder do programa televisivo Vitória em Cristo, ligado à Assembleia de Deus. Este último esteve envolvido em outra polêmica, relacionada à candidata Marina Silva (PSB), que alterou o seu programa de governo após declarações que Malafaia publicou no Twitter em 29 de agosto. Depois de cobrar uma posição da candidata acerca do texto originalmente publicado em relação aos direitos LGBTs, o pastor ameaçou que, caso ela não voltasse atrás, faria “a mais dura fala” em relação a um presidenciável.

Em menos de 24 horas, Marina aderiu à pressão e mudou o plano. Na primeira versão, afirmava “apoiar propostas em defesa do casamento civil igualitário”, já no texto corrigido, a candidata foi mais genérica: “Garantir os direitos oriundos da união civil entre pessoas do mesmo sexo”. Isso gerou revolta em eleitores simpáticos às demandas da comunidade LGBT, ao mesmo tempo em que arrancou outras manifestações de Malafaia nas redes sociais. “O ativismo gay está irado com Marina, começo a ficar satisfeito kkkk [sic] valeu a pressão de todos, não estamos aqui para engolir agenda gay”, publicou o pastor no Twitter.

A menos de uma semana para os brasileiros irem às urnas, a declaração de Fidelix – que, após o debate, viu o número de seguidores de sua página no Facebook crescer 1.500%, somando mais de 40 mil – ganhou espaço dentro e fora das redes sociais em todo o Brasil, com comentários que atacam e defendem o presidenciável.

Luciana Genro ressalta que apresenta a questão LGBT na campanha porque a sua candidatura “é a única que tem a coragem de pautar esse tema em rede nacional e em todos os debates, exigindo posicionamento dos demais candidatos”. Ela critica Marina, que “rifou os direitos LGBTs em menos de 24 horas após quatro tuítes do Malafaia”. Sobre Dilma Rousseff, lembra que a candidata à reeleição pelo PT vetou o programa Escola sem Homofobia por pressão da bancada fundamentalista. “Aécio mal toca no tema”, conclui.

O atraso civilizatório do país, para a candidata, é o maior motivo para temas que envolvam diretos dos homossexuais. “Enquanto em muitos países o casamento civil igualitário e o direito à livre identidade de gênero já são assegurados pelo Estado, no Brasil, esses temas ainda não foram encarados pelo Congresso Nacional. O governo Dilma tem um papel fundamental na omissão da garantia desses direitos, já que nunca mobilizou sua base para apoiar o projeto do casamento civil igualitário e a Lei João Nery [lei que facilita que transgêneros obtenham identidade social], ambos protocolados pelo deputado federal Jean Wyllys”, ressaltou Luciana.

Nas redes sociais, a candidata recebeu críticas por conta de sua resposta à declaração de Fidelix. Os internautas cobraram mais rigidez de Luciana diante do comentário. “Durante o debate, nem sempre é simples responder com a mesma forma que se faria vendo de fora”, explica Luciana, que promete tomar providências sobre a declaração dada pelo candidato.

“Fiz uma firme defesa do casamento civil igualitário, dos direitos da comunidade LGBT e de todas as formas de família durante minha intervenção no debate. É importante que não apenas eu, mas todos os presidenciáveis se pronunciem sobre as barbaridades ditas pelo Levy Fidelix. É muito perigoso que um candidato à Presidência expresse, em rede nacional, esse tipo de discurso de ódio. É esse tipo de discurso que serve de legitimação para os criminosos que atacam fisicamente e verbalmente a população LGBT todos os dias”, acusa Luciana. Segundo Luciana, a indignação perante o discurso de Fidélyx a levou a representar contra ele no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), por incitação ao ódio, juntamente com o deputado Jean Wyllys, também do PSOL.

Segundo a jornalista e pesquisadora na área de sexualidade Fernanda Nascimento, uma pressão histórica obrigou os candidatos a colocarem essa questão em pauta nas candidaturas: “Isto foi imposto pelo crescimento da demanda. O avanço da medicina, do judiciário e o fato de a mídia abordar mais essas questões contribuíram para esse fenômeno”.

A jornalista lembra que a luta LGBT não se resume apenas ao casamento homoafetivo, mas também envolve fatores como a criminalização da homofobia, a garantia de direitos aos transexuais e a necessidade de abordar o tema nas escolas, por meio da preparação de professores para discutir o tema em aula.

“O que Levy falou foi tão chocante que ele surpreendeu as pessoas. Ninguém esperava aquele discurso com tanto ódio e bobagem. Muitos candidatos são preconceituosos e evitam tratar disso, mas ninguém falou daquela maneira”, observa Fernanda. A jornalista salienta que, nas considerações finais do debate, os outros candidatos não falaram sobre a declaração de Fidelix, mas depois, ao constarem a repercussão do assunto, várias candidaturas começaram a manifestar repúdio.

Para Ka, existem discursos que vão “conforme a onda”, dependendo da posição de cada candidato e de suas circunstâncias. “Eles pensam o que vão ganhar com tal posicionamento. O Levy acabou sendo o mais franco dos candidatos que fazem isso, de acordo com suas convicções e com aquilo que acredita. Enquanto outros presidenciáveis não são claros. Luciana não é a única que abraçou a causa, mas a sua campanha tem desde o início esse posicionamento marcado. Ela tem sido muito didática em suas colocações, sempre trazendo elementos informativos”, avalia.

Para Fernanda Nascimento, a homofobia já está estigmatizada na sociedade por ser desconsiderada e tratada como doença. “No Brasil, vivemos um sistema de cultura machista, sexista, racista. Para desconstruir isso demora, mas chegamos ao momento em que pessoas estão colocando em pauta ações como essas”, explica.

Este material integra a cobertura realizada pelos alunos do Editorial J, laboratório do curso de Jornalismo da Famecos-PUCRS, com supervisão dos professores Alexandre Elmi, Fábian Chelkanoff, Fabio Canatta, Flavia Quadros, Ivone Cassol, Marcelo Träsel, Marco Antonio Villalobos, Tércio Saccol e Vitor Necchi.

Texto:  Bruna Ayres (6º Semestre)
Foto:  Srta. Bia (Flickr)