Tensão ao fazer edição histórica

Fechou, anunciava à redação, à meia noite de domingo (26/10), o diagramador Jonathas Costa. Estava pronta a edição de segunda-feira (27/10) do Correio do Povo, mais tradicional jornal de Porto Alegre. O fechamento do periódico costuma ser às 22h30 em dia tranquilo, mas a edição finalizada anunciando Sartori como novo governador do Estado e Dilma Rousseff reeleita presidente do país atrasou uma hora e meia.

“Esse foi o fechamento de edição mais tranquilo pelo qual passei. Quando comecei, levava dias para terminar a apuração”, observou o diretor de redação Telmo Flor. Cheguei, num pleito, a entrar no jornal domingo de manhã e sair segunda de noite, relatou.

Às 18 h de domingo, a edição começou a tomar forma. Os editores Dulci Emerim e Luis Augusto Kern, mais conhecido como Lak, e o Jonathas, diagramador responsável pelas páginas de política planejam a distribuição do conteúdo. Enquanto isso, no núcleo on-line, o editor Tiago Medina alimenta o Convertlive, sistema que permite a atualização rápida com pequenas frases ao vivo; atualiza a capa do www.correiodopovo.com.br e acompanha a Rádio Guaíba para novas informações. Trinta e três minutos depois, todos os canais do Correio anunciavam José Ivo Sartori como governador do Estado.

Na troca de capa do site, que é o processo mais complicado desde que o portal do Correio foi renovado, Medina digitou, afoito, a nova chamada da manchete: “José Ivo Sartori é eleito governador do Estado”. Salvou as mudanças e recostou-se na cadeira, apreensivo. “Não adianta atualizar a capa de minuto a minuto. O sistema do site leva, mais ou menos, dois minutos para alterar a informação que o usuário vê. Toda vez que eu preciso trocar com uma informação importante é assim, fico nervoso”, revela.

Ao faltar poucos minutos para 20h, se aproxima o horário da divulgação dos resultados da eleição presidencial. O diagramador Pedro Dreher desenha o primeiro rascunho do que será a capa do dia seguinte e comenta. “Aqui em cima vai um fotão do Sartori porque as pessoas se importam mais com o que está perto delas. Na parte inferior vai a foto da Dilma, porque ela provavelmente deve ganhar. A foto é do mesmo tamanho, títulos em cima e legendas embaixo”, explica.

20 horas, todos olham ansiosos para a televisão ligada que vai divulgar os primeiros dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Em seguida, Dilma é anunciada como a candidata vencedora, com cerca de 95% das urnas apuradas. “Vamos esperar chegar mais perto dos 100% para colocar na capa”, avalia Medina.

Meia hora depois, o www.correiodopovo.com.br exibe uma foto de Dilma Rousseff, em carreata do dia anterior, anunciando sua reeleição. Lak senta na cadeira relaxado. “Não tem o que fazer agora. Os repórteres não retornaram dos comitês ainda, não tem matéria”. Por isso, Lak decide escrever uma matéria especulando o secretariado de Sartori. Ele explica ter apurado, em off, durante a semana, possíveis nomes indicados ao governo peemedebista. Experiente, o editor escreve sem consultar anotações, se vale apenas da memória. O telefone toca e Lak atende:

Política, boa noite.

Boa noite. Senhor, por favor, ponha no jornal que o país vai explodir.

Como o país vai explodir?

Vai explodir com esse monte de PT!

Meu amigo, por favor, seja breve, estamos com muito trabalho.

Mais um minuto se passa. Lak encerra a ligação e desabafa: “Dia de eleição e a gente tem que aguentar essa gente falando da República Bolivariana! Fraude no TSE! E ainda me manda botar no jornal”.

Preocupado com o avanço das horas, os editores Lak e Dulci decidem chamar os repórteres que estão nos comitês dos candidatos de volta. Ricardo Giusti, fotógrafo, apresenta aos editores as opções de imagens das agências de notícias. O repórter Iuri Ramos retorna do comitê de José Ivo Sartori às 22h12min, senta ao lado da colunista Taline Oppitz e escreve sobre o que acompanhou durante o dia. Ele cobriu a agenda do candidato peemedebista no domingo eleitoral. Três minutos mais tarde, Lak se agita: “Vou começar a enlouquecer. Ainda tenho uma hora até enlouquecer, não tem jornal ainda!”

Dulci, com olhar preocupado, reclama a foto da Dilma, do seu primeiro discurso como presidente após o pleito. Todo o conteúdo das páginas de política nacional do Correio é de agência e editado por ela. Na edição de segunda, são sete páginas de política, quatro sobre política local e três sobre política nacional.

Às 22h30min, nenhuma página de política está pronta. Na diagramação, Jonathas corre contra o tempo. Pela sua experiência com infografia, ficou responsável pelas páginas de política d edição. A ideia é que as nacionais contenham 13 pequenos gráficos com os demais governadores eleitos, além de um mapa do Brasil que distingue a votação dos Estados para presidente. O deadline inicial da diagramação era às 22h30. “A situação aqui está periclitante. São 23 horas e eu não consigo colocar na página todos os governadores eleitos, declara em meio a batalha com o ilustrador.

Os repórteres retornam das ruas para escrever. Lak aguarda a produção, ansioso. Na pré-impressão, as páginas que estão prontas passam por teste de cor e Telmo Flor corre entre a sala dele e a redação. Atravessa a sala com um passo pesado, quase uma corrida, buscando página por página na sala da pré-impressão. As revisoras já estão trabalhando, correm atrás dos editores para pequenos consertos nas páginas ainda em revisão. Ufa! Fica pronta a edição anunciando “Novo estilo no Piratini” (José Ivo Sartori) e “Desafios da reeleição” (Dilma Rousseff).

Texto: Camilla Pereira (6º semestre)
Foto: Reprodução