Todo jornalismo é investigativo, diz jornalista canadense

Com sotaque carregado, mas um português de causar inveja a muitos gringos, a jornalista canadense Isabel Vincent, atualmente repórter investigativa do jornal The New York Post, esteve no auditório da Famecos na manhã do dia 12 de novembro. Ela compartilhou, por cerca de uma hora, suas principais coberturas, os desafios dos grandes jornais na atualidade e a realidade da mídia no Brasil e nos Estados Unidos. Começou com uma crítica em relação ao termo jornalismo investigativo: “Todo jornalismo é investigativo”. A base da argumentação de Isabel é que toda jornalismo exige algum nível de investigação.

Canadense e formada em literatura, ela começou sua carreira bem cedo. Sem experiência como jornalista, veio para o Brasil onde se empenhou tanto na sua primeira reportagem que escreveu um livro a partir da apuração. Ao chegar ao Brasil, ela deparou com um caso de sequestro do Abílio Diniz (ocorrido em 1989), dono do grupo de supermercados Pão de Açúcar, no qual descobriu uma falha na versão que circulava no seu país de origem.

Dois canadenses estavam envolvidos no sequestro e eram tratados como inocentes pelos jornais do Canadá. Curiosa com o caso, Isabel passou a investigar o que realmente tinha acontecido. Foi, então, em busca de documentos públicos sobre o caso, notando que o que estava sendo dito não era verdade e seus conterrâneos eram culpados pelo sequestro.

Ao comentar a descoberta, ela disse que a sua investigação acabou expondo dois problemas da cobertura dos seus colegas, no Brasil e fora dele: a falta de ética em relação à veracidade dos fatos e o uso restrito dos recursos que estão disponíveis e amparados pela lei de acesso à informação. “Não fiz uma grande investigação, apenas peguei informações que são acessíveis e estavam disponíveis”, disse. “Demonizaram o Brasil, como se os condenados tivessem sido injustiçados”, complementou.

Contando um pouco de suas várias reportagens, explicou que, por ser uma canadense que trabalha nos Estados Unidos, ela consegue ter uma visão distanciada dos fatos, além de não precisar declarar sua posição politica por exemplo. “Sendo alguém de fora é possível ver as coisas de modo diferente sem interferir com suas ideias”, explicou.

Isabel é conhecida por fazer reportagens sobre corrupções e escândalos políticos, além de organizações não governamentais (ONGs). Ao ser questionada sobre como tratava as questões ligadas ao risco e à privacidade das suas apuração, ela disse que, durante muito tempo, ficou sem aparecer e sem se expor em redes sociais, não por medo, mas para preservar seu trabalho. Ela garantiu seguir uma das regras do Post, que é sempre se identificar e deixar clara suas intenções com as matérias.

No final, a jornalista deu algumas dicas. Ela considera essencial não ter medo de fazer perguntas, mesmo que sejam aparentemente bobas, pois muitas vezes elas são as melhores. Recomendou não ter vergonha, ter boas fontes, sempre verificar o que foi dito ou apurado, incluindo os documentos públicos. Ela terminou com uma frase polêmica: “O Brasil é o país mais democrático da América Latina, mas os Estados Unidos é o único país com plena liberdade de imprensa”.

Texto: Júlia Silveira (8º sem.) e Yanlin Costa (3º sem.)