Todo jornalista tem de ser mala, diz André Rizek

Sem medo de ser “mala”, o jornalista André Rizek, editor-chefe do programa Redação SporTV, afirmou, antes da palestra no 25º SET Universitário da Faculdade de Comunicação Social da PUCRS, que os jogadores brasileiros estão estragando o espetáculo do futebol e que o Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) causa muito barulho por nada.

André Rizek esteve em Porto Alegre para participar do RBS Debates, que ocorreu no Prédio 41 da PUCRS, encerrando o SET Universitário na quarta-feira, 19 de setembro. Antes de subir ao palco, o jornalista analisou o jornalismo esportivo, jogadores e dirigentes.

Editorial J – Num post em seu blog, você se intitula um “jornalista-mala”. Todo jornalista esportivo é “mala”?
André Rizek – Todo jornalista tem que ser mala, porque a gente liga para as pessoas sem ser convidado, a gente se mete na vida de todos. Eu acho que a nossa função é não ter vergonha de ser chato. Eu tive produtores que não queriam ligar às seis horas da manhã para um contato para não incomodar. A nossa função é ser chato, é desconfiar da pessoa sempre e de tudo que ela fala, então se o cara tem medo de ser chato, ele tem que mudar de profissão.

Editorial J – Você concorda que os jogadores brasileiros são mimados pela mídia?
André Rizek – Os jogadores não são apenas mimados pela imprensa. Primeiro porque para a imprensa tudo é culpa de dirigente ou do técnico e nunca do jogador. Ele sempre acaba sendo poupado das críticas e o comportamento do jogador brasileiro anda muito ruim. Um jogo da Liga dos Campeões comparada com a Libertadores ou Campeonato Brasileiro deixa claro que o jogador brasileiro está estragando o espetáculo, pois sempre está reclamando, fazendo “mimimi”, ou simulando. Ele acaba sendo chato no sentido de que ele não está fazendo a parte dele para ser um bom espetáculo. Daí, nesse quesito eles são um pouco mimados.

Editorial J – Você realizou a matéria da Veja sobre a Máfia do Apito. Falta mais jornalismo investigativo na área esportiva?
André Rizek – Falta totalmente. A maioria das pessoas que faz faculdade de jornalismo visando a área esportiva quer ir para a TV e falar de táticas, se espelham muito no PVC [Paulo Vinicius Coelho]. Não vejo nada de ruim nisso, mas o PVC não é só isso. Ele é um grande repórter e apura muito. Então, as pessoas sabem que investigar é chato e dá trabalho. Às vezes são meses apurando alguma denúncia. É muito mais legal, divertido e prazeroso fazer uma matéria falando se o técnico está escalando bem do que investigar uma denúncia de corrupção de algum clube brasileiro, ou entre os juízes. Falta um pouco dessa ambição de quem trabalha com esportes.

Editorial J -O STJD é um bom tribunal para julgar casos no futebol?
André Rizek – O STJD é muito barulho por nada, é canhão para matar tico-tico. Devia ser como na Europa, mais simples e com menos burocracia. Lá, no domingo, o cara é expulso e na terça-feira uma comissão determina se aquilo foi agressão, dando pena de quatro ou seis jogos. Aqui temos a primeira e segunda estância, uma margem para manobras. Os advogados passam a ser tão importantes quanto os craques. Essa é uma das partes mais chatas do futebol brasileiro, não precisa disso. É muita burocracia para pouca coisa. O tribunal deveria analisar casos como anulação de jogos, mas esses julgamentos de primeira e segunda instância são apenas um “cabidão” de emprego. Os advogados esportivos querem transformar o jornalismo esportivo numa cadeira do Direito. Isso é desnecessário, pois é um circo o julgamento de um atleta. Eu já vi advogado levar desenho do Pica-Pau e do Popeye para provar que um tapa foi apenas um gesto hostil. Então é um grande teatro e uma grande bobagem e perda de tempo.

Editorial J – O jornalismo esportivo pode ser considerado uma grande horta onde interessados plantam informações sobre jogadores?
André Rizek – Não apenas o jornalismo esportivo, isso é comum em toda profissão. Eu já trabalhei com política e na Revista Playboy. A gente tem que lidar com interesses, quem passa notícia para jornalista tem interesse. Às vezes, quando um bandido passa uma denúncia, quando eu recebi a denúncia da Máfia do Apito, ele tinha o interesse dele. É nosso papel filtrar esse interesse e saber avaliar.

Texto: Eduardo Bertuol (7º semestre)
Foto: Mauricio Amaral (4º semestre)