Turfe tenta voltar à agenda do porto-alegrense

Todas as quintas-feiras, às 15 horas, no Jockey Club do Rio Grande do Sul, no bairro Cristal, dezenas de pessoas se reúnem em torno de um esporte de tradição antiga em Porto Alegre: o turfe. Trata-se da corrida de cavalos na qual homem (jóquei) e cavalo se comportam como um só e juntos podem alcançar uma velocidade de 60km/h. O esporte envolve criação e treinamento dos equinos e humanos, competições e apostas.

Jóqueis campeões se enfrentam em Porto Alegre

De roupas coloridas – as sedas, farda que identifica o proprietário do cavalo – os jóqueis começam sua carreira ainda muito cedo, como nos demais esportes. Adailton Nascimento tem 20 anos e saiu de seu sítio, no Mato Grosso do Sul, para realizar o sonho de viver a vida em cima dum cavalo. Ele mora num alojamento junto do Jockey Club com outros jovens da mesma aspiração. Esses jovens têm uma rotina bastante diferente de outros na mesma faixa de idade. A vida de um turfista exige dedicação e trabalho. Eles tentam conciliar os treinos diários com o estudo, mas nem sempre conseguem. O esporte se torna a vida deles.

Todas as manhãs há treino, seguido de pesagem para acompanhar o peso do corredor. Para o melhor desempenho da dupla jóquei/cavalo, quanto mais leve, melhor. Um cavalo carrega entre 50 quilos e 60 quilos, contando corredor e os arreios. Por isso, baixa estatura e peso são características fundamentais de um jóquei. Para eles, o alimento fast food, tão comum entre os demais jovens, deixou de ser um hábito. “É difícil ir ao McDonalds. As provas são na quinta, então, na segunda já começamos a comer menos”, conta Adailton. Em caso de excesso de peso, os competidores passam por sessões de sauna até perderem a massa necessária.

O turfe é considerado um esporte de risco. Quando é dada a largada, os cavalos disparam e uma ambulância sai logo em seguida, realizando o percurso junto com os corredores. É assim sempre. Lucas Conceição, jóquei de 23 anos, está com um colar cervical em volta do pescoço. Ele fraturou pela segunda vez uma vértebra da coluna. Desta vez, foi a sétima. Na primeira vez, a quinta. “Os médicos me perguntaram se eu pensava em largar. Eu falei que jamais largaria. Eu sou apaixonado por isso. Eu amo correr”, relata.

Mesmo quem está acostumado com os garanhões da Expointer se impressiona com o porte dos cavalos de corridas. O puro-sangue inglês (PSI) é uma raça selecionada por cruzamentos para a prática de competições esportivas. A massa muscular é maior, mas ele tem menos densidade óssea. Tem perfil retilíneo e forte, pernas longas, bem articuladas e musculosas, o que faz dele um animal muito veloz. No Hipódromo do Cristal hoje vivem cerca de 800 cavalos. O consumo mensal de aveia gira em torno de 140 toneladas, segundo organizadores.

O treinador é figura chave neste esporte. Os cavalos treinam de segunda a sábado, das 6 às 9 horas. Por trás de um campeão, há todo trabalho de engenharia genética, mas, segundo criadores, um cavalo é sempre uma surpresa. Não é permitida a inseminação artificial. Eles são treinados desde potrinhos até os oito anos.

Para reconquistar o público

Augusto Garcia foi jóquei por muitos anos e hoje é treinador. Essa foi a maneira que encontrou para continuar no ambiente em que viveu grandes momentos de sua vida. Ele também é o único jóquei do mundo que produziu um filme. A Transa do Turfe, de 1974, conta a história de um corredor de sucesso perseguido por uma quadrilha que costuma eliminar os que atrapalham seus planos. Para ele, o Jockey Club do Rio Grande do Sul passou por uma fase difícil, mas está se reerguendo.

Na quinta-feira, 18 de setembro, dois dos maiores campeões do turfe mundial estiveram em Porto Alegre para um desafio de cinco provas. A entrada e estacionamento eram gratuitos, mas mesmo assim o hipódromo não estava lotado. Para Garcia, o problema está na divulgação. “O que falta para o Jockey é publicidade. É um desafio mundial, isso aqui deveria estar lotado”, lamenta.

As apostas podem ser feitas a distância. Um calendário organiza as corridas para evitar que mais de uma aconteça no mesmo dia, o que poderia dividir os apostadores. Mas, segundo Rosely Rhomberg, jóquei nos anos 1970 e hoje criadora e frequentadora do clube de Porto Alegre, a ideia é, justamente trazer as pessoas ao hipódromo. “Há um interesse em trazer não só o público ligado ao turfe, mas também famílias, crianças, isso é importante”, avalia.

Segundo ela, o turfe envolve o trabalho de inúmeras famílias, mas, muitas vezes o preconceito o reduz a mera jogatina. “Milhares de famílias dependem do esporte. É diferente da lotérica, que não precisa muito mais do que algumas pessoas nos guichês. A gente nem fica sabendo como se dá o sorteio”, explica.

José Ariosto Lopes Palma é uma dessas pessoas que vivem do esporte. Ele e a esposa vieram de Santiago, da Fronteira Oeste, em 1997. José é ferrador. Uma vez por mês, os cavalos recebem uma ferradura nova, quando o casco cresce. Seu filho, Dalton, nasceu na Capital. O ferrador pretende mostrar seu ofício para o filho, mas afirma que ele não pode ser jóquei. “Dalton é muito grande para ser jóquei que tem que ser magro e baixinho”.

Texto: Bruna Zanatta (4º semestre)