Um espaço para se pensar a favela

“O Estado tem uma lógica profundamente perversa de transformar a favela em arena de guerra”. É esta a opinião de Jaílson de Souza e Silva, um dos criadores do Observatório de Favelas, ONG do Rio de Janeiro. Para ele, a Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), apesar de ser um avanço, é justamente o reconhecimento da falência dessa política de confronto e de guerra. “O Estado usa a violência como instrumento fundamental contra o acesso às drogas, e isso é um absurdo”, explica.

Vivendo na favela da Maré, onde funciona o Observatório, o geógrafo e professor acredita que as ações da UPP apenas amplificaram diversos problemas, como violência, uso de armas de guerra, mortalidade, corrupção policial, insegurança urbana e a criminalidade. E isso não dificultou o acesso da população às drogas. “Não há razão que justifique essa política”, completa.

Jaílson de Souza e Silva veio a Porto Alegre para o 26º SET Universitário, realizado pela Famecos. Antes da sua palestra, ele falou ao Editorial J. Lembrou que, em junho desse ano, houve um dos maiores massacres da história do Rio de Janeiro, na favela da Maré, quando dez pessoas morreram. “O próprio nome revela que a UPP funciona na lógica militar de ocupar e governar determinado território”, disse. Para Jailson, no Rio, o comandante da UPP é quem decide se pode haver um evento público em determinada favela. Ele e os colegas do Observatório de Favelas querem que o Estado tenha uma ação republicana, que reconheça o histórico de regulação construído ao longo do tempo nas comunidades. “Queremos que o Estado chegue, que haja um projeto integrado e que envolva a sociedade civil”, sustenta.

Apesar das manifestações questionando o papel da UPP, elas não renderam muito resultado. “O fato de o comandante ter mais autoridade do que o prefeito dentro da favela é o reconhecimento de que ela é um território de exceção”, explica. “E isso a gente não admite”. Para combater essa situação, o Observatório fez mobilizações, na rua e em redes sociais, propôs iniciativas, criou ouvidorias comunitárias e mobilizou os moradores da Maré. “Fizemos ações que pressionam o Estado para cumprir seu papel de forma democrática e republicana”, argumenta.

Diante da necessidade de pensar as comunidades surgiu o Observatório de Favelas, em 2001. Jailson observa que, tradicionalmente, falar sobre a favela é uma tarefa da classe média e dos setores intelectualizados. “Quando surgimos, éramos uma experiência sui generis, formada por muitos intelectuais que cresceram na favela”, conta. “Éramos universitários de primeira geração”.

Formado em geografia e com mestrado, doutorado e pós-doutorado em sociologia, Jailson se define “mais como cientista social do que geógrafo”. Com este apoio acadêmico, ajudou o Observatório a se constituir como uma instituição que produz novos conceitos, metodologias e tecnologias sociais para pensar a inserção plena das favelas na cidade. “O objetivo é conduzir projetos que construam mecanismos para pensar a desigualdade”, descreve.

Da ideia à mão na massa

Considerado uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip) desde 2003, o Observatório se preocupa com a criação de projetos que possam refletir em políticas públicas futuras. “Queremos mudar a forma como os setores estatais atuam nas favelas”, ressalta o geógrafo. As ideias são pensadas conforme um dos cinco pilares: educação, comunicação, direitos humanos, políticas urbanas e cultura.

Mas os projetos não são pensados apenas para moradores das comunidades. “O eixo principal é o encontro da cidade; para isso, precisamos oferecer a todos”, comenta. Muitos universitários procuram o curso, já que é uma possibilidade que não encontram na universidade. As inscrições são abertas no site.

Os cursos oferecidos sempre na Maré, gratuitos e em parcerias com universidades públicas, tratam de diversas temáticas e muitos são da área da comunicação. O objetivo é pensar como a ideia das comunidades e da periferia é construída pela grande mídia. Além disso, grande parte deles possui ajuda de custo (para transporte e alimentação), o que facilita o acesso. Recentemente, o curso Novos Saberes preparou cerca de 50 alunos para mestrado e doutorado.

“Temos algumas centenas de alunos que participam das nossas atividades”, relata Jaílson. Outra atividade do Observatório é uma pesquisa, o censo da Maré. O objetivo é levantar práticas culturais dos moradores de 22 favelas. Nesta empreitada, até estrangeiros aparecem para ajudar. O professor conta que, toda semana, chegam novos voluntários. Muitos trabalham com tradução ou dentro da área em que atuam no exterior. Hoje, no Observatório estão atuando dois portugueses, um italiano, um inglês e um chileno. “Tem muito gringo procurando a favela”, brinca.

O Observatório, além do Rio de Janeiro, tem parceria com 16 regiões metropolitanas de diferentes estados do Brasil. São dois pesquisadores em cada região. No entanto, Jailson rechaça a ideia de que é um salvador de jovens, tirando-os do tráfico. “As pessoas entram porque querem e saem porque querem”, sustenta “É dura a vida no tráfico. O problema não é salvar o menino porque muitos pensam em sair quando perdem aquela ilusão”, explica. O professor revela que um amigo, que possui um grupo de teatro em uma das favelas do Rio, sempre recebe a seguinte questão: “Vocês já perdeu muitos meninos para o tráfico?”. A resposta dele é sempre a mesma: “Para o tráfico, nenhum, mas perdi muitos para as Casas Bahia, para o McDonald’s e para as Lojas Americanas”.

Isso ocorre porque, na maioria das vezes, os meninos com potencial para ser artistas têm de largar o sonho para enfrentar o mercado, onde ganha pouco. “O jovem da favela é para estes trabalhos”, ressalta. Recentemente, o programa Rota de Fuga pesquisou cerca de 200 jovens integrados ao tráfico por dois anos para tentar entender por que alguém entra, permanece e como consegue sair. “O problema é que, muitas vezes, nada é competitivo o suficiente para o tráfico. Essa é a discussão fundamental”, destaca.

Iniciativas como a Observatório de Favelas são uma alternativa para que quer colaborar para inserção das comunidades na cidade e para quem quer aprender, também. Para isso, um elemento é fundamental valorizar a potência. Jailson diz que até hoje os relatos sobre as classes populares são dos seus fracassos. “O que fazemos é contrapor esse discurso com o discurso da potência”.

Hoje, projetos como do Observatório começam a receber a atenção da grande mídia que buscava às favelas, apenas para relatar a violência. “O Rio não aparece mais como um problema”, comemora Jailson. O Observatório já ganhou três capas no Segundo Caderno d’O Globo. “Ainda temos muito a avançar, como a possibilidade de se pensar a favela na condição de constituinte da cidade, e não apenas uma parte e um problema”, idealiza.

Texto: Bibiana Dihl (6º semestre)
Foto: Cassiana Martins/Famecos/PUCRS