Uso da faca no Acampamento Farroupilha “não é problema”

Bombacha, camisa, botas, colete, guaiaca, chapéu, paletó, lenço, faixa, pala, esporas e faca. Utilizada desde os primórdios da humanidade (Idade do Bronze, cerca de 4 mil anos A.C), a faca é uma ferramenta relacionada historicamente com a figura e o folclore do gaúcho. De acordo com o manual de pilchas do Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG), é parte da indumentária, assim como o chapéu e o lenço. Mas, a faca é também uma arma branca. Ou seja, serve para agredir alguém e é, originalmente, um instrumento de trabalho. No Rio Grande do Sul, é lei. O sujeito devidamente pilchado pode portar uma faca. No âmbito nacional, também não há proibição clara às armas brancas de nenhum tipo.

No Acampamento Farroupilha, em Porto Alegre, a cena é corriqueira: facas de diferentes tamanhos passeiam atravessadas na guaiaca. Uma só tenda chega a vender até 300 exemplares entre 7 e 20 de setembro, período de duração do acampamento. Durante um mês, os acampados ficam neste ambiente regado a música e bebida alcóolica, em que os ânimos se alteram em questão de segundos. Nos registros da Brigada Militar se constata que ao menos um incidente mais grave é registrado a cada edição.

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O tenente Oscar Vernei, que há três anos integra o batalhão da Brigada que cuida da segurança no Parque Harmonia, afirma que, por ser uma atividade ligada ao cultivo do passado, é difícil promover alterações e conviver com a faca. Apesar disso, o uso do instrumento está condicionado a algumas exigências, presentes no Regulamento do Acampamento Farroupilha, que são: para portar faca, o cidadão deve estar devidamente pilchado; não pode se embriagar, gozar de plenas faculdades mentais. Também é vedado utilizar ou portar essa arma nos bailes, shows e atividades artísticas, culturais e recreativas em geral.

Ainda, segundo Vernei, a pena para quem desrespeitar as normas depende do caso, se for criminal ou dizer respeito ao regulamento do evento. O infrator pode ser expulso do Acampamento e até ser preso, conforme a gravidade da agressão. “É uma ferramenta, mas que pode se transformar em uma arma. Se o indivíduo estiver embriagado ou promovendo alguma desavença, ameaça, ou esse tipo de coisa, a gente retira e apreende o instrumento”, relata.

Entre os tradicionalistas, não há motivos para o veto. Jorge Missioneiro é tradicionalista e compositor. Ele acredita que as pessoas são bem intencionadas. “Na maioria das vezes é só pra cortar a carne, 99,9% eu diria. Mas gaúcho tem sangue quente por natureza. Se passarem a mão na minha mulher eu vou reagir”, revela.

O MTG entende que o Acampamento Farroupilha é um ambiente familiar e que o gaúcho não utiliza a faca como uma arma. Leandro Riva é coordenador dos avaliadores culturais do MTG e diz que a preocupação não se justifica. “A faca não é problema. Uma simples garrafa de vidro quebrada, uma pedra, um pedaço de pau se tornam uma arma na mão de quem bebeu e está fora de si”.

Ainda assim, há um esforço entre MTG e a Polícia para manter um diálogo que alie tradição e segurança. Nas dependências do parque, Polícia Civil e Brigada Militar ocupam postos na tentativa de impedir que incidentes voltem a acontecer. “Ocorrências desse tipo não engradecem, só depreciam a nossa organização”, avalia Riva.

A atual edição do Acampamento Farroupilha (2014) começou em junho, período da Copa do Mundo e até seu encerramento, em 20 de setembro, são quatro meses de atividade. Nenhum caso de violência envolvendo o uso de facas foi registrado até 18 de setembro.

Texto: Bruna Zanatta (4º semestre)
Foto: Frederico Martins (6º semestre)