‘Vivemos na era de ouro do vigilantismo’, alertam especialistas

Quase um ano depois do ex-funcionário da NSA, Edward Snowden, tornar público cerca de 20 mil documentos sobre os programas de espionagem do governo dos EUA, a comunidade de ativistas e entusiastas de informação digital se enxerga no início de uma ciberguerra de informações, longe de um término.

O combate à espionagem e a privacidade dos indivíduos foi tema central de diversas palestras e debates na 15º edição do Fórum Internacional do Software Livre (FISL), realizada esta semana no centro de eventos da PUCRS. No encontro da última quinta-feira, o painel “Software livre e a era da espionagem”, formado por Isabela Fernandes, Jeremie Zimmerman, Leonardo Lazarte e Pedro Rezende, atentou à inédita facilidade das agências governamentais em praticar espionagem de massa.

Fundador do ‘La Quadrature du Net’, grupo de advocacia que promove os direito digitais e a liberdade dos cidadãos, o francês Jeremie Zimmerman apontou uma mudança na relação entre homens e máquinas nos últimos 15 anos. “Tínhamos máquinas amigas. Máquinas que podíamos entender, máquinas em que podíamos confiar. Crescemos num mundo de amizade. Foi nesse mundo de máquinas amigáveis onde aprendemos computação. Atualmente, carregamos máquinas inimigas em nossos próprios bolsos”, afirmou.

“Vivemos na era de ouro da espionagem”. A frase de um funcionário da NSA, relatada em um dos documentos publicados por Edward Snowden, é um consenso entre os especialistas de informação digital. Professor de Ciências da Computação da Universidade de Brasília, Pedro Rezende enxerga ainda mais gravidade no atual momento. Segundo o professor, a questão é mais profunda que uma era de ouro da inteligência de sinais: “É a era de ouro do empoderamento de sinais, que é o vigilantismo. Enquanto nossa sociedade estiver vivendo um momento de fartura, ninguém enxerga a dimensão do risco que o vigilantismo representa. A partir do momento em que as pessoas começarem a lutar pela sobrevivência por causa de escassez de energia, de alimentos, etc, quem se achar em posição de poder decidir, vai decidir”. Segundo o professor, o problema não é tecnológico, mas cultural. “É perigoso pensar que a tecnologia vai resolver o problema (…) Por que nós precisamos ter todas as novidades da tecnologia? Ninguém aqui se questiona a respeito disso.”, questionou.

Os dados públicos, cada vez mais valorizados pela comunicação social, através do jornalismo de dados, foram sublinhados enquanto importante dispositivo de soberania da população diante do Estado, no discurso do professor de Engenharia de Software da Universidade de Brasília, Leonardo Lazerte. Na visão do professor, o grande fluxo de diferentes dados, sejam de saúde, metadados, ou do governo, exigem a compreensão maior do seu significado por parte da sociedade: “Primeiro, temos que juntar dados, guardar informações. Em segundo lugar, compartilhar a informação para que o jornalismo de dados possa realmente trabalhar, processar sua inteligência em cima desses fatos”, afirmou.

Pontuado por palestras, debates e workshops de profissionais mundialmente conhecidos, o Fórum Software Livre é um dos principais encontros mundiais de entusiastas e especialistas de softwares de código aberto, desde 1999.

Texto: Gabriel Gonçalves (3º semestre)
Foto: Frederico Martins (5º semestre)