Manifestações de domingo a favor e contra impeachment

Votação do impeachment divide Porto Alegre geográfica e ideologicamente

Parcão e Praça da Matriz foram, respectivamente, os locais de manifestações pró e contra o impedimento da presidente Dilma Rousseff

  • Por: Caio Escobar (4º sem.) | Foto: Annie Castro (4º sem.), Camila Lara (3º sem.) e Sara Santiago (3º sem.) | 19/04/2016 | 0

O domingo, 17 de abril, ficará na história de Porto Alegre. Poucas vezes se viu um evento político mexer tanto com as emoções das pessoas. Os manifestantes assistiam à votação da abertura do processo de impeachment contra a presidenta Dilma Rousseff como se fosse uma partida de futebol. Cada voto a favor de um “time” ou outro era um gol, comemorado fervorosamente pelos seus torcedores.

Ato a favor do Impeachment no Parcao 

 

Manifestação contra impeachment na Praça da Matriz

Praça da Matriz

O Editorial J produziu um questionário, na tentativa de traçar um “perfil” dos manifestantes de cada região da cidade. Nele indagava-se a confiança das pessoas em instituições como imprensa, partidos políticos e movimentos sociais, assim como em políticos e comentaristas da imprensa. As possíveis respostas eram “não confia”, “confia pouco”, “confia muito”, “não sabe/conhece”.

Pela manhã, a Praça da Matriz estava com ares de tensão, e o povo, mobilizado e desmontando a grande maioria dos acampamentos desde cedo. Havia muitas barracas com bandeiras da CUT, do MST e de movimentos estudantis. Um caminhão, localizado em frente ao Theatro São Pedro, era preparado para que atrações culturais tivessem início, atividade recorrente segundo as pessoas que estavam frequentando o acampamento. Alguns grupos temperavam coxinhas de galinha para serem assadas, em alusão aos manifestantes favoráveis ao processo de impedimento da presidente.

Dois telões estavam sendo preparados para acompanhar a votação. Por volta das 10 horas, as atividades de “prosa” começaram e se estenderam até meados de meio dia, quando os núcleos se reuniram para decidir qual seria a programação do resto do domingo. Do outro lado da praça, em frente à Igreja da Matriz, integrantes da União da Juventude Socialista se reuniam e entoavam cantos de apoio à presidenta e de críticas ao Juiz Sérgio Moro. Isso acabou incomodando uma senhora que transitava pela rua, fazendo a mesma se direcionar até um outro senhor, esse com camisa e bandeira do PT, para reclamar do protesto: “Na frente da Igreja não, na frente da Igreja não, isso é um absurdo! ”

Raul Pont (PT), ex-prefeito de Porto Alegre, acompanhou a caminhada que foi da Redenção até a Praça da Matriz. Por todo o cortejo, o político conversou com correligionários e expôs a sua opinião quanto ao processo de impeachment e o cenário político atual. Em entrevista ao Editorial J, ele questionou a legalidade do processo, ao apontar que, para ele, a real intenção do ato não é combater a corrupção, mas sim mudar o resultado das últimas eleições, e o próprio governo, sem o voto popular. Conforme Pont, se o motivo realmente fosse a corrupção, Eduardo Cunha, presidente da câmara, teria que ser julgado primeiro, pois já é réu nas investigações da Lava Jato. Entrevistado ainda no começo das votações, Raul Pont ressaltou a importância da mobilização popular nessa situação: “As pessoas continuam vivas, os sindicatos estão aí, os movimentos sociais, nós vamos continuar resistindo, e com saída favorável hoje ou não, essa luta vai continuar! ”

O ex-governador do Rio Grande do Sul Olívio Dutra também participou da manifestação contra o impeachment da presidenta. Ele chegou no início da tarde e foi embora um pouco antes da votação, que se iniciou com duas horas de atraso. Olívio foi recebido com muito carinho. Admiradores o abordavam para tirar fotos. Olívio foi muito atencioso e conversou com cada um. Para o Editorial J, relatou, emocionado, como ele enxerga a situação atual do país, a corrupção e a proposta de impeachment. Além disso, o ex-governador do Estado é o político no qual os manifestantes contra o impeachment mais confiam, segundo enquete do Editorial J.

Durante a aplicação do questionário na praça da Matriz, uma entrevistada se denominou cientista política, afirmando que trabalha na Secretária da Cultura, na área de elaboração de pesquisas. Destacou que, na sua opinião, o relatório feito pelo Editorial J foi mal elaborado, apontando que os critérios do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) não foram utilizados nas perguntas, considerando-o tendencioso. Após responder, perguntou se a faculdade de jornalismo tem alguma disciplina de sociologia.

Em certo momento, um manifestante relatou, entre outras coisas, como estava funcionando o acampamento desde seu início. Quando questionado sobre como estava a movimentação de alimento, segurança etc., respondeu: “O pessoal está desde segunda-feira se organizando de forma colaborativa, com comissões voluntárias de higiene, segurança, cozinha e programação do acampamento, tudo de forma colaborativa.” Destacou ainda que o acampamento sempre foi muito politizado, tendo todos os dias atividades culturais, aulas públicas dos mais variados temas e oficinas. Finalizou afirmando que receberam bastante apoio em doações de pessoas que não poderiam ficar acampadas. Próximo ao fim da manhã, um grupo organizou um “velório” de Michel Temer e Eduardo Cunha.

Parcão

No Parque Moinhos de Vento, os manifestantes em geral foram bem receptivos. Uma das áreas da manifestação, localizada na passarela do parque, só era liberada para imprensa e organizadores do evento. Lá, o ambiente era mais opressivo e silencioso do que no restante da concentração, principalmente por conta da proximidade dos organizadores aos profissionais que faziam as coberturas.

O clima no Parcão era de evidente antipetismo. A antipatia das pessoas em relação à “esquerda em geral” era clara, mas especialmente ao PT. Muitos entrevistados perguntavam qual era o posicionamento dos veículos e comentaristas políticos citados no questionário em relação ao Partido dos Trabalhadores, para não cometerem o “erro” de confiar em algum dos que defendem o partido atualmente. Um bom exemplo ocorreu com Luis Fernando Veríssimo. Mais de um entrevistado destacou que gostava do escritor e colunista da Zero Hora, mas, pela opinião dele em relação ao processo de impeachment, marcou que não confiava nele. Um homem, ao completar o questionário, marcou que confiava em comentaristas tanto de esquerda quanto de direita. “Posso não concordar com o que eles falam, mas confio na palavra deles”, explicou.

Outro aspecto relevante é a consideração que a maioria dos manifestantes tem pelo deputado federal Jair Bolsonaro. Um dos entrevistados afirmou com veemência que não confiava em nenhum veículo de comunicação, nenhum partido ou político, somente em Bolsonaro, em quem confiava muito. O deputado foi o que mais recebeu avaliações “confio muito” entre todos os entrevistados no Parcão.

Estava presente ao ato um senegalês, vestindo roupas verdes e amarelas, que declarou ser a favor do impeachment de Dilma. O imigrante teve dificuldades para responder algumas questões, pelo fato de não ter conhecimento de todos os partidos políticos e seus representantes. Deixou claro que estava lá para apoiar os manifestantes, embora não tenha declarado suas razões para tal. Entretanto, poucos negros foram vistos participando do evento. A maior parte dos negros e pardos presentes eram os vendedores ambulantes.

Colaboraram Alicia Porto, Analine Broniczack, Ângelo Menezes, Angelo Werner, Bibiana Garcez e Kamylla Lemos