A voz de quem sobreviveu ao desespero

  • Por: Eduarda Endler Lopes (3º sem.) | 29/03/2016 | 0

O suposto suicídio de uma mulher em uma sala de cinema do Shopping Iguatemi, em Porto Alegre, levantou mais uma vez debates sobre um clássico tabu do jornalismo: deve-se ou não publicar notícias sobre suicídio? O Editorial J aproveita o momento para republicar um texto que faz essa reflexão, originalmente da edição 21 do Editorial J impresso.

O suicídio não é um tema novo. A abordagem do assunto pela mídia, porém, permanece tímida. O Editorial J tentou quebrar esse silêncio, por entender que falar sobre a questão é importante. Portanto, dar voz a quem tentou pôr fim à própria vida e hoje convive com sequelas dessa tentativa é o objetivo da reportagem. Três pessoas, com idades distintas e problemas diferentes em função do ocorrido, contam suas histórias e relatam como convivem com a sequela.

O suicídio é um grave problema de saúde. A cada 40 segundos, uma pessoa morre dessa causa no mundo. De acordo com a pesquisa Comportamento Suicida: Conhecer para Prevenir, realizada pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), por trás de uma tentativa atendida em pronto-socorro, outras 17 pessoas pensaram seriamente em pôr fim à própria vida. Destas, cinco chegaram a elaborar um plano de morte. O ato contra a própria vida não é um problema atual. É visto como saída extrema, em alguns casos, há muitos séculos.

Um livro do alemão Johann Wolfgang Goethe criou uma onda de suicídios na Europa, no século 18. Em seu romance Os Sofrimentos do Jovem Werther, o protagonista põe fim à própria vida, dando um tiro na cabeça, devido a um amor não correspondido. A literatura, naquela época, era responsável por um grande impacto na vida cultural, política e ideológica da humanidade. Por isso, a obra de Goethe influenciou no modo de pensar e agir da sociedade. Como consequência, houve inúmeras tentativas de suicídio relacionadas ao romance, fazendo com que o livro se tornasse maldito pela Igreja.

Apesar do número elevado de tentativas, com sucesso ou não, o suicídio ainda é um tabu. De acordo com o psiquiatra e psicoterapeuta Lucas Spanemberg, cerca de 90% das pessoas que cometem o ato estão sofrendo algum tipo de transtorno mental, principalmente depressão, abuso de álcool e outras drogas. Quando ocorre, a vida de outras 10 pessoas é diretamente impactada, aponta o médico. Spanemberg, que também é professor do Curso de Especialização em Psiquiatria da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), salienta que, em alguns casos, é necessária uma internação em ambiente hospitalar. “Atualmente, mais de 50% das internações psiquiátricas realizadas no Hospital São Lucas da PUCRS são indicadas pela presença de ideação ou tentativa de suicídio”, conta.

Como problema de saúde, o suicídio é um dos principais motivos da morte de jovens entre 15 e 35 anos. No Rio Grande do Sul, estado com maior taxa de suicídio por 100 mil habitantes, cerca de 20 pessoas tentam cometer suicídio todos os dias. Muitas fracassam e seguem vivendo com sequelas da tentativa desesperada, como se o ato deixasse sua marca para sempre. O Editorial J buscou encontrar pessoas que tentaram o suicídio e não obtiveram sucesso, além de terem ficado com sequelas físicas. Os três entrevistados – Monyque, Tânia e Elci – preferiram ser identificados somente com seus primeiros nomes.

Monyque, 21 anos, sempre foi vaidosa. Quando enfrentou sérios problemas, não conseguiu se abrir com ninguém – nem mesmo com a irmã, que é psicóloga. Duas tentativas de suicídio ocorreram. Na segunda vez, ela atirou contra si mesma, o que causou a paralisia dos membros inferiores. Desde então, vive em uma cadeira de rodas, mas ainda cuida bastante da aparência. A mala de maquiagem, trazida pela mãe durante a entrevista, continua sendo parte do seu cotidiano.

Tânia, 52 anos, era professora. Trabalhou por 10anos na biblioteca da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc) restaurando livros. Quando começou a lecionar em uma escola do interior da cidade, foi perseguida por um partido político – mas não quis falar muito sobre o assunto –, o que fez com que largasse o emprego e realizasse as tentativas, que a deixaram com sequelas. Na primeira vez, ateou fogo em si mesma. Na segunda, tomou soda cáustica, o que fez com que seu estômago tivesse que ser recolocado próximo ao pescoço.

Elci, 73 anos, conta com a ajuda da esposa Celina. As atitudes dele, que muitas vezes o tornam agressivo, faz com que sua esposa abdique dos cuidados. Apesar disso, Celina participou ativamente da entrevista, muitas vezes falando de momentos que o marido não lembrava ou não conseguia contar devido às tentativas de enforcamento, que o deixaram com problemas respiratórios – asma e bronquite. Cada um lida de maneira distinta com as marcas deixadas. Os depoimentos dos três, porém, falam mais de vida do que de morte.