Alunas de computação lutam contra a discriminação de gênero

Grupo de extensão da UFRGS, formado por mulheres, promove reflexões sobre a presença feminina em área majoritariamente masculina.

  • Por: Nádia Probst (4º semestre) | Foto: Nicolas Chidem (7º semestre) | 14/01/2019 | 0

Em 07 de novembro de 2018 o grupo de extensão Program.Ada Mulheres da Computação, vinculado à UFRGS, publicou em sua página no Facebook uma nota expondo comentários de cunho machista que recebem em formulários online de pesquisa e de inscrição em eventos promovidos pelo grupo. A postagem colocou novamente em evidência o tema da desigualdade de gênero em áreas profissionais como a computação, onde hoje há uma minoria de mulheres (dados abaixo), além das denúncias de frases preconceituosas.

Mas a computação nem sempre foi predominantemente masculina. Logo que surgiram, os computadores eram utilizados para fazer cálculos e processamento de dados. Quando da criação dos primeiros softwares para uso corporativo mais difundido, em meados do século XX, essas funções eram associadas ao trabalho das secretárias. Por isso, os computadores acabavam sendo mais utilizados por mulheres. É famoso também o caso de Ada Lovelace, considerada a primeira programadora, entre homens e mulheres. Esse cenário era refletido também nos cursos de graduação que envolviam o uso de computadores. As primeiras turmas dos cursos de computação da Universidade de São Paulo (USP), por exemplo, registravam muito mais mulheres do que homens. Entretanto, esse cenário acabou se invertendo com o passar dos anos.

Em 2018, segundo os dados mais recentes disponibilizados pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), os cursos de Ciências da Computação e Engenharia da Computação somavam, no mês de agosto, um total de 985 alunos. Destes, 119 (12%) eram mulheres, com o restante, 866 (88%), de homens.

O Program.Ada, cujo nome faz referência a Ada Lovelace, surgiu em 2015, após alguns encontros de um grupo de alunas do Instituto de Informática. Durante esses encontros as meninas perceberam que algumas situações envolvendo discriminação de gênero eram mais comuns do que deveriam. Em 2017, o grupo promoveu uma pesquisa sobre o machismo dentro do Instituto de Informática. Os resultados foram apresentados ao público durante a Semana Acadêmica do mesmo ano. A estudante de ciências da computação da UFRGS Isis Pericolo, uma das organizadoras do Program.Ada, conta que “na palestra que a gente apresentou os resultados dessa pesquisa […] houve muitas lágrimas, muito choque, houve muito interesse”. Junto com outras duas organizadoras, Laura Grippa e Maria Flávia Tondo, ela conta que tanto professores quanto professoras choraram na ocasião.

O machismo não está presente apenas no ambiente virtual. Isis relata que durante as atividades práticas do curso as mulheres costumam esperar mais tempo para receber ajuda e recebem respostas mais curtas do que as dadas aos homens e que, quando os trabalhos são em duplas, os garotos costumam fazer juntos, deixando as alunas por último na hora da escolha de colegas.

“Eu não sei se eles não nos veem, ou se eles não nos veem como relevantes o suficiente para fazer um trabalho com eles. Esse implicit bias [viés implícito, em tradução livre, ou a ideia de que existem preferências inconscientes que são percebidos] que tem de achar que o aluno homem vai ser mais capaz, isso tem tanto entre os alunos quanto entre os professores, quanto entre os monitores, e é uma coisa que acontece quase todos os dias, com todas nós aqui”, relata Isis.

Da esquerda para a direita: Laura Grippa, Maria Flávia Tondo e Isis Pericolo são organizadoras do grupo da UFRGS que oferece oficinas e palestras na área da computação

A partir da realização da pesquisa sobre machismo, o grupo começou a ter mais visibilidade, o que, segundo as alunas, promoveu mudanças dentro do Instituto de Informática. Uma delas foi em relação à postura de alguns professores. Maria Flávia, aluna de engenharia da computação, relata que “tem uns professores que se deram conta que talvez o que eles falavam impactava na vida das alunas, principalmente, e aí cuidavam mais o que falavam”. Ainda sobre esse assunto, Isis completa que “deu para ver que alguns professores mudaram os slides que eram um pouco machistas, e começaram a não usar certos termos que eram ruim de serem usados. É pouco, mas é progresso”.

Outro resultado da pesquisa foi a criação da Comissão de Relações Internas. A Comissão é comandada por um grupo de professores escolhidos com ajuda das meninas do Program.ada, e tem como uma de suas atribuições resolver problemas que surjam entre professores e alunos, alunos e alunos ou mesmo entre dois professores.

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