Editorial J mapeia escolas ocupadas no estado

Com apoio de alguns pais e professores, estudantes organizam debates e oficinas sobre temas da atualidade e dividem tarefas

  • Por: Caio Escobar (4º sem.), Vinícius Dutra (4º sem.), Sofia Lungui (1º sem.) e Alícia Porto (3º sem.) | Foto: Ana Carolina Lisboa (7º sem.), Juliana Baratojo (5º sem.), Annie Castro (4º sem.), Fernanda Lima (3º sem.), Wellinton Almeida (2º sem.) e Mia Sodré (1º sem.) | 19/05/2016 | 0

O movimento de estudantes secundaristas que, desde o dia 11 de maio passou a ocupar escolas públicas de Porto Alegre e de algumas cidades do interior do Estado, mudou completamente as atividades do cotidiano escolar nestes estabelecimentos. Apenas entre os dias 17 e 18 de maio, mais de 30 foram ocupadas no Estado. Na maioria delas, assim como nas já sob o controle dos estudantes, a nova rotina inclui a organização do grupo com a divisão de tarefas, a promoção de debates sobre temas de interesse dos jovens e a realização de oficinas diversas. A ocupação não se resume à presença dos alunos durante o dia. Equipes montam guarda nos colégios também à noite e, às vezes, recebem o reforço de pais e professores.

Assista abaixo uma reportagem em vídeo sobre a rotina nas escolas ocupadas:

De acordo com Tássia Amorim, vice-presidente da União Gaúcha dos Estudantes, uma das principais reivindicações conjunta dos estudantes é barrar o Projeto de Lei 44/ 2016 (que autoriza o poder público a transformar empresas públicas e fundações ligadas ao ensino e à pesquisa científica em organizações sociais) o que, no entendimento dos manifestantes, encaminha a privatização da educação pública no Estado. Além disso, o movimento denuncia os problemas de infraestrutura nas escolas e apoia professores e funcionários públicos prejudicados pelo parcelamento dos salários.

Mapa com as escolas ocupadas no estado do Rio Grande do Sul

Atualizado em 23/05

Colégio Júlio de Castilhos (16/05)

Foto: Juliana Baratojo (5º sem.)
Foto: Juliana Baratojo (5º sem.)

Na entrada, cartazes de protesto exigiam educação de qualidade, além de prestar apoio à luta dos professores contra o parcelamento de salários. No portão, a identificação era exigida para que se pudesse ter acesso ao Colégio Júlio de Castilhos, ocupado pelos alunos desde quinta-feira (12). Segunda-feira (16), no saguão principal, era realizado um seminário sobre a importância do feminismo na história da política, organizado pelo Grêmio Estudantil do Julinho. Até mesmo alunos do curso de Psicologia da PUCRS participavam do debate.

A ocupação, inicialmente, era para ser apenas um ato simbólico. Os alunos iriam permanecer no local no máximo 24 horas. “A ideia era ocupar das 19h de quinta até 19h de sexta (13), mas aí tivemos adesão de mais pessoas e ficamos”, diz Bárbara Vuelma, 18 anos, aluna do terceiro ano do Ensino Médio.

O ambiente no interior do colégio era tranquilo naquela tarde. Os alunos se organizaram, e cada um conhecia a sua tarefa. Havia os responsáveis pela identificação das pessoas estranhas à escola e por atender os veículos de comunicação. Outros por fazer a vigilância do local à noite, além dos encarregados de mostrar os demais setores da escola.

No segundo andar, as salas de aula foram transformadas em dormitórios. “Contamos com doações dos pais e apoiadores da ocupação para recolher colchões e colchonetes. Por volta de 50 alunos dormem aqui”, conta Guilherme Carvalho, 18 anos, estudante do primeiro ano.

No refeitório, os alimentos eram separados por tipo. Bárbara explica que o movimento recebe também doações de alimentos: “Utilizamos o Facebook para conseguirmos comida. As pessoas têm nos ajudado bastante”, revelou.

O expediente era normal na secretaria da escola, com os funcionários trabalhando normalmente. Apesar da ocupação ser liderada por estudantes, eles dizem receber o apoio dos professores e da direção. “A relação com a diretora é boa. Quando há algum problema, resolvemos normalmente”, explica Bárbara. O movimento não tem previsão de sair da escola: “Não sabemos quando pretendemos deixar o Julinho. Acho que vai levar tempo”, comenta Guilherme Carvalho.

A repórter Juliana Baratojo passou uma noite acompanhando a ocupação. Confira o álbum fotográfico resultante da experiência:

A noite na ocupação

Protásio Alves (16/05)

Foto: Mia Sodré (1º sem.)
Foto: Mia Sodré (1º sem.)

No Colégio Protásio Alves, na Avenida Ipiranga, a situação era semelhante. Cerca de 40 alunos se instalaram em barracas dentro do ginásio de esportes da instituição. Eles defendem melhores condições para escola e apoiam a greve dos professores. “O estado do Rio Grande do Sul demorou a ter o levante da juventude. A gente acha que a educação de qualidade tem que ser de todos para todos. A escola é um lugar que passamos grande parte da nossa vida, então deve ser um lugar emancipador, deve acolher todas as pessoas. Decidimos dar um basta, motivados pelos protestos vistos em São Paulo”, argumenta a estudante, presidente do Grêmio Estudantil, Maria Eduarda, 17 anos.

Ao apresentar o interior da escola, Maria Eduarda revela que recebem doações de pais e apoiadores. Existe o interesse em mostrar a organização, a divisão das tarefas. “De modo geral, nos organizamos por comissões. Tem a comissão da segurança, da estrutura, da comida, de várias coisas necessárias, para não ser prejudicial a ninguém”, esclarece.

Para que a escola se mantenha ativa no período da ocupação, ocorrem atividades ao longo do dia: “Não temos previsão de desocupação, então organizamos algumas discussões. Hoje, o professor Marcelo Rocha nos explicou sobre saúde e sexualidade. Agora, (segunda à tarde) temos a reunião de mulheres. E para dar prosseguimento aos estudos, estamos em contato com o curso Emancipa, para termos uma aula com eles”.

Escola Estadual Infante Dom Henrique (17/05)

Foto: Annie Castro (4º sem.)
Foto: Annie Castro (4º sem.)

A instituição foi ocupada na manhã de terça (17) e, à tarde, os organizadores ainda pareciam inseguros quanto ao futuro da mobilização. Mesmo após reunião com acadêmicos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), incluindo ex-aluno que faz parte do Levante Popular, ainda não haviam decidido onde os ocupantes dormiriam. O planejamento era de que os cinco alunos do colégio e as outras cinco pessoas participantes do movimento levassem barracas e cobertores para passarem a noite.

Alimentos eram doados, principalmente por ex-estudantes e mães, que abraçaram a causa e cozinharam para os ocupantes, diretores e professores que também apoiavam o movimento. No entanto, a Secretaria da Educação havia ligado para a escola e avisado que a diretora, Jaqueline Boff, seria responsabilizada por qualquer inconveniente durante a noite. Jaqueline manteve sua posição, afirmando que “não é uma ocupação e sim um apoio aos professores do Estado”. Ela explicava que menores de idade precisariam de autorização dos pais e algum integrante do corpo docente deveria passar a noite no local. Gislaine Schnack, professora de biologia e apoiadora do movimento, assumiu a tarefa de pernoitar na instituição.

Na tarde da terça-feira, já havia cartazes espalhados pelo muro em frente à escola e no interior da mesma, mas ainda ocorriam algumas aulas. A estudante Juliana Vieira, 16 anos, do segundo ano do Ensino Médio, e João Vitor Ávila, 17 anos, aluno do primeiro ano, encontravam-se na entrada da escola para cuidar a movimentação. Juliana explicava que, na Escola Infante Dom Henrique, a luta é “mais por segurança no bairro Menino Deus e pelo recebimento de verbas estatais, destinadas à merenda e manutenção, visto que o valor não é transferido há dois meses”.

Escola Ernesto Dornelles (17/05)

Foto: Ana Carolina Lisboa (7º sem.)
Foto: Ana Carolina Lisboa (7º sem.)

O portão de acesso à Escola Técnica Estadual Senador Ernesto Dornelles estava trancado com corrente e cadeado. Os estudantes identificavam a entrada de visitantes.

O cenário montado pelos estudantes era muito mais impactante na tarde de terça (17). Classes, cadeiras e outros objetos das salas de aula formavam uma espécie de barricada. Atrás, os estudantes participavam de uma reunião com alguns representantes do Centro de Professores do Rio Grande do Sul (Cpers) que os ajudava com algumas instruções.

Após a primeira noite na escola, eles ainda organizavam a distribuição de tarefas. Cerca de 17 alunos ficaram no período da noite e quase 30 durante o dia, além de outros apoiadores, como professores grevistas e simpatizantes da ocupação. A vigilância noturna era feita pelos próprios, que se revezavam a cada duas horas. As refeições tinham horários determinados e também eram de responsabilidade dos estudantes presentes.

Somente uma das salas de aula foi utilizada como dormitório. Colchões, travesseiros e cobertores levados, além de colchonetes das aulas de Educação Física foram usados para dormir. Na parede, ao lado da porta, encontrava-se um quadro branco com nomes, tarefas e horários anotados.

“Nós estamos desenvolvendo um cronograma de atividades semanais separado em turnos, em que teremos oficinas de manhã e de tarde”, revela Vitória Leonora, estudante de 16 anos do segundo ano do Ensino Médio. “A ideia é manter no mínimo duas atividades por dia”, projetos como aulas públicas, teatros e oficinas de “bordado imponderado”, que se baseia em uma roda feminina de bordado para discutir feminismo, são algumas das atividades previstas

As reivindicações dos movimentos coincidem, em geral, com as das demais escolas: barrar o PL 44/2016, contra o sucateamento da educação, contra o projeto Escola sem Partido. “Este projeto acaba nos calando. É tão horrível não poder falar o que sente, dar opiniões”, comenta Vitoria. Contudo, a estudante Larissa Pinheiro manifestou um problema específico da escola. “Durante o verão, principalmente, pombas entram nas salas, e os alunos ficam com receio de pegar uma doença. É um problema simples de saneamento básico que a prefeitura em conjunto com a vigilância sanitária poderia resolver ’’, sustenta.

Os secundaristas ainda revelam que os estudantes estão se prevenindo contra ações policiais. Advogados foram procurados para esclarecimentos de possíveis acusações que possam ser feitas tendo os estudantes como alvo. A polícia não tomou nenhuma atitude mais repressiva em resposta às ocupações na Capital, mas os estudantes temem que possam ser reprimidos em manifestações e protestos.

Escola Estadual Padre Réus (18/05)

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Foto: Wellinton Almeida (2º sem.)

Na Padre Réus, o clima era de alegria. Os estudantes, divididos em grupos de trabalho (GTs, como chamam), organizavam as doações recebidas, a segurança, a alimentação, a saúde e a limpeza, além de controlar quem entra e quem sai do local. A escola foi uma das cinco primeiras a serem ocupadas. Os alunos estão lá desde a quinta-feira (12). Sem o auxílio da direção do colégio, que não interveio nem impediu a ocupação, os estudantes se esforçam para estabelecer uma nova rotina. Eles contam com o apoio dos professores, mas que não participam, pois ficou decidido que o movimento seria somente dos estudantes.

Os alunos James Farias, 18 anos, e Ana Laura Juk, 15 anos, comentam sobre um ginásio abandonado, além de um pavilhão de sete salas de aula depredadas: “Este pavilhão, construído em 1976, foi interditado há dois anos e desde então nada foi feito”. Segundo Ana, a escola recebeu repasses para realizar obras no ginásio em 2010, mas a Secretaria da Educação do Rio Grande do Sul não as autorizou. Por essa razão, o dinheiro foi utilizado para outros fins e o local continua inutilizável.

A estudante Laura Barão, 15 anos, explicou que o movimento é liderado pelo grupo Ubuntu (palavra africana que significa “sou, porque nós somos”), dissidente e agora aliado ao Grêmio Estudantil da Padre Réus: “Parte do Grêmio não se posicionava politicamente, não nos representava. Por isso decidimos, em conjunto, criar o movimento Ubuntu”. Ela alegou, ainda, que os ocupantes não permitem a entrada de entidades na escola, pois estas têm a intenção de se promoverem, fugindo do foco da mobilização.

Para o representante do Grêmio Estudantil, Pablo Gonçalves (16), as atividades culturais que estão sendo realizadas (oficinas, teatro, sarau) são experiências importantes para os estudantes. Confira a nossa galeria completa de fotos no Flickr.