Aplicativos de transporte exclusivo para mulheres chegam em Porto Alegre

Femini Driver e Venuxx começaram a operar na capital neste segundo semestre

  • Por: Mariana Gomes Puchalski (3º semestre) | Foto: Maria Helena Sponchiado | 22/11/2017 | 0

 

Aplicativos de transporte só para mulheres estão operando em Porto Alegre
Aplicativos de transporte só para mulheres estão operando em Porto Alegre

Aplicativos de transporte somente para mulheres já existem em outras capitais. Agora, Porto Alegre conta com duas plataformas operando desta forma. Atualmente, ainda existem poucas motoristas mulheres para a população feminina da capital, mas os fundadores dos projetos acreditam no potencial de crescimento. Procurando segurança, algumas motoristas e passageiras preferem os aplicativos exclusivo para elas.

Com foco em questões de segurança e conforto para o público feminino em Porto Alegre, o aplicativo Femini Driver começou a funcionar no dia 14 de agosto. Assim como outros no mercado, ele aceita somente passageiras e motoristas mulheres.

A ideia partiu de Brunno Velasques, depois de sua esposa pegar um aplicativo de transporte junto com as filhas e sofrer assédio do motorista. Após isso, Velasques, que já era analista de sistemas, fez uma pesquisa de mercado com cerca de 30 mulheres. Segundo ele, mais de 80% destas relataram que já haviam sofrido algo semelhante a assédio.

Durante este tempo operando na capital, já foram realizadas 700 corridas. De acordo com Velasques, 100 motoristas estão ativas por turno no aplicativo. Para ele, esta ainda é uma quantidade pequena, pelo tamanho da população feminina de Porto Alegre. O Uber, por exemplo, passou de 50 mil motoristas para 500 mil em um ano no Brasil inteiro, desde outubro de 2016. Confira as exigências para ser motorista dos aplicativos abaixo.

Se a passageira estiver acompanhada de um homem ou do filho, Velasques explica que será do bom senso da motorista para aceitar esse tipo de situação.

Já o aplicativo Venuxx, criado em São Paulo, em janeiro deste ano, a partir de estudos dos irmãos Thiago e Diego Della Gomes sobre o mercado feminino, começou a operar em Porto Alegre no dia 29 de setembro. Assim como o Femini Driver, ele somente aceita motoristas e passageiras mulheres, com crianças de até 12 anos acompanhando suas mães.

“Comecei a dirigir para Uber e Cabify. Conhecendo os passageiros, vi que tinha uma demanda grande de pedidos de ter um aplicativo segmentado com motoristas mulheres. Pensei em fazer uma nova plataforma, mas é muito caro. Fazendo uma pesquisa encontrei a Venuxx e surgiu a ideia de trazer o aplicativo para Porto Alegre”, explica a diretora operacional Inês Medvedovski.

O aplicativo já conta com 500 motoristas pré-cadastradas e está com 65 motoristas online na plataforma. Inês comenta que os números representam um bom começo: “no início sabíamos que não teríamos muitas motoristas trabalhando, principalmente porque somos muito rígidos em relação aos carros e à documentação das nossas motoristas, sempre pensando na segurança de nossas passageiras”.  

A forma de utilizar os aplicativos é parecida com Uber e Cabify. É necessário que a passageira tenha um celular com Android ou iOS, se cadastre com CPF e cartão de crédito e solicite o veículo.Visando a segurança e bem-estar tanto das motoristas como das passageiras, não será aceito dinheiro em espécie.

 

A mulher no volante

Em geral, as motoristas estão se sentindo vulneráveis quando dirigem para os aplicativos de transporte. Assim como as passageiras, as condutoras que trabalham diariamente revelam que também sentem medo de assédios e abusos. Contudo, segundo as motoristas, entre elas e as passageiras ocorre um sentimento de empatia, onde se sentem mais tranquilas e confortáveis com outra mulher no carro.

Ana Carolina Bonfante, motorista do Uber há cinco meses, está cadastrada para a plataforma Venuxx, mas ainda aguarda para ser aceita. Ela relata que sente medo de assaltos, agressões e assédio por passageiros homens nos aplicativos de transporte e acredita que com passageiras mulheres seja menor o risco.

Já Camila Chios conheceu o aplicativo Femini Driver pelas redes sociais. Era motorista de outros aplicativos de transporte, quando soube do Femini Driver se inscreveu para ser motorista para saber como seria e para ter mais segurança. Ela comenta que fez poucas corridas pelo aplicativo, seu carro estragou e ficou um mês sem conseguir trabalhar. Mas segundo ela, as mulheres falam que gostam da iniciativa e se sentem mais confortáveis e confiantes.

Sinara Pereira tomou a decisão de ser motorista do Femini Driver por conta de ser um público selecionado. Contudo, trabalha em outros aplicativos de transporte, já que, segundo ela, um único aplicativo não conseguem sustentar as motoristas.

A motorista comenta que nunca sofreu assédio por conta de passageiros, mas sim por conta de outros motoristas: “certa vez estava trabalhando e encostei o carro em um posto de gasolina para abastecer. Mostrei o aplicativo para ganhar desconto na gasolina. Um homem que estava com o carro parado viu que eu mostrei o aplicativo e disse, ‘é, temos carne nova para trabalhar no aplicativo’. Mas eu fiquei quietinha, não fiz nada”.

Outra vez, quando fui ao mesmo posto, o mesmo homem estava atrás de mim e falou, “ah, isso aí não é hora de mulher estar trabalhando”. Era meia noite. Eu olhei para ele e disse, “meu lugar é onde eu quiser”. Sinara comenta que, depois disto, não abastece mais o carro neste posto.

 

Violência repercute

Os aplicativos de transporte voltados exclusivamente para passageiras e motoristas mulheres foram criados em meio a um quadro de elevado números de violência contra a mulher no país.

Um dos casos de violência nos aplicativos de transporte mais recentes e de grande repercussão nas redes sociais foi da escritora e ativista feminina Clara Averbuck, que fez um relato em sua página do Facebook denunciando o assédio que sofreu por um motorista no aplicativo de transporte Uber. A partir disso, Clara criou a campanha #Meumotoristaabusador para que mulheres possam compartilhar através da hashtag relatos de assédio ou estupro que já sofreram em táxi, aplicativos de carona ou de transporte coletivo. “Você tem uma história de abuso ou assédio no uber, táxi, cabify, qualquer um desses serviços? Não tenha medo e nem vergonha. A culpa não é sua”, escreveu a escritora na publicação em que fez a campanha. Isso também incentivou a criação de aplicativos onde as mulheres possam se sentir seguras.

Estes aplicativos com motoristas mulheres buscam evitar casos como o de Raquel, CEO do Femini Driver, que foi assediada por um motorista de um aplicativo de transporte quando estava se deslocando para uma reunião de trabalho. Em relação ao assédio, Raquel admite que ficou com medo, por conta de estar trancada em um carro: “fica um sentimento de frustração”, aponta.

Estes relatos também podem ser marcados pelo medo. No dia 26 de agosto, por volta das 3h, Andréa Martins pegou um táxi em frente ao Bar Opinião, no bairro Cidade Baixa, em Porto Alegre. Durante o trajeto, ela explica que o motorista foi grosseiro e dirigia devagar.

Em um determinado momento, o taxista passou do endereço dado por ela e fez um convite para irem para outro lugar, “fiquei muito furiosa e desci do táxi. Me esqueci até de anotar o prefixo”, conta.

 

      Para ser motorista do Femini Driver é preciso ter:

  • Carro modelo a partir de 2008;
  • Veículo precisa ter quatro portas e  ar-condicionado;
  • CNH com EAR (Exerce Atividade Remunerada);
  • Documento do carro atualizado;
  • IPVA pago;
  • Para se cadastrar no aplicativo, é necessário acessar este link e preencher os dados cadastrais.
  • A tarifa da plataforma é mais cara que os outros aplicativos de transporte, por ser um serviço diferenciado. A base é R$ 3,50, por km R$ 3,20 e minuto R$ 0,60. Por enquanto, é aceito pagamento somente em cartão de crédito.

 

     Para a motorista poder operar no Venuxx, é necessário:

  • Passar pelo processo de verificação;
  • Possuir atestado de bons antecedentes;
  • Carteira de atividade remunerada;
  • Seguro para passageiras do tipo APP;
  • Carro modelo a partir de 2008;
  • Veículo precisa ter quatro portas e com ar-condicionado;
  • A documentação do veículo deve estar em dia.
  • O preço da tarifa do aplicativo varia, pois a cobrança é feita levando em conta o tempo e a quilometragem da viagem. A corrida básica fica em torno de R$ 9,00.
  • O diferencial do aplicativo é o botão SOS em que a passageira pode acionar em caso de emergência. Quando acionado, o aplicativo faz uma chamada para um número de contato cadastrado.