Campanha ‘Fica Fabi’ leva diretora a sustar sua aposentadoria

Diretora da Escola Júlio Grau, na Zona Norte de Porto Alegre, se emocionou com a mobilização da comunidade escolar e pelo reconhecimento de seu trabalho de 18 anos na direção escolar

  • Por: João Vargas (2º semestre) | Foto: Gabriela Felin(2º semestre) | 10/12/2018 | 0

O sucateamento do ensino público estadual é visível pelo Rio Grande do Sul. Em meio aos atrasos do pagamento de salários de professores e os frequentes parcelamentos, o estado depende de intervenções solidárias para manter uma base escolar digna. Fabiene Silveira, de 52 anos, é atual diretora da Escola Estadual de Ensino Médio Professor Júlio Grau. Funcionários da rede de educação e da própria comunidade defendem que ela aumentou o nível de ensino da escola. E foi graças à mobilização desta comunidade que a diretora abdicou da aposentadoria para permanecer mais tempo por lá.

O prazo final da chapa diretiva eleita em 2016, que tinha Fabi como elemento central, como conhecida entre os alunos, se encerraria no final do ano. Com tempo suficiente para se aposentar, a então diretora se dirigiu à Secretaria de Educação do Estado (SEC) para sair da atividade. Porém, não houve inscrições de chapas para a campanha da nova coordenação do colégio, o que significaria que a Secretaria de Educação traria alguma docente de fora da comunidade para o cargo. De forma independente originou-se um movimento chamado “Fica Fabi”, tanto nas redes sociais quanto no ambiente de ensino.

Com licenciatura em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e bacharelado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), Fabiene ingressou no Júlio Grau em 1990. “Eu amo essa escola, eu amo essa gurizada”, relata sorridente a diretora. Com um mesa abundante de presentes, Fabi diz que frequentemente recebe gratificações dos alunos. Tais estudantes que reconhecem o trabalho insaciável daquela que, desde 2000, trabalha diariamente na sala da direção. Foi vice-diretora de 2000 a 2012, e diretora de 2013 até a finalização de seu mandato no último dia do ano. Porém, sem nova chapa, a indicação do cargo pela Secretaria de Educação deverá ser de Fabiene, seguindo assim o desejo de alunos e familiares.

 

Mobilização

A hashtag, ‘Fica Fabi’ surgiu em uma quinta-feira, dia do throwback thursday (tbt). Nesse dia, diversos alunos e ex-alunos postaram fotos com a diretora em suas redes sociais com #tbt e #FicaFabi, mobilizando a comunidade escolar. Fabiene se comoveu e, além disso, recebeu um pedido especial do filho, Tarso, que concordava com a permanência da mãe na instituição. A diretora já havia encaminhado os documentos para a aposentadoria. Entretanto, convencida pelos alunos e pelo filho de permanecer no cargo, o que em tese seria limitado pela restrição oficial do Art. 3º de apenas dois mandatos por diretoria, Fabiene foi até a sede da Secretaria Estadual de Educação e sustou a aposentadoria. A partir de então, a gestora recebe diversos presentes dos alunos, como uma camiseta, quadros e artefatos do time do coração, o Internacional. A mesa de Fabi, além do computador, e de um amontoado de papéis da burocracia escolar, é recheada de “mimos”, como chama as gratificações.

Fabi mostra presentes que recebeu dos alunos.

Agora, o próximo passo para a confirmação da permanência da gestora é a aceitação da indicação de Fabi pela SEC. Fabi afirma que  a comoção e o entusiasmo nas dependências da escola têm sido grandes.

A gestora já deixou de depender em muitas ocasiões do dinheiro público para manter a escola. Ela detalha orgulhosa que é a única escola estadual no Rio Grande do Sul que tem agenda e uniforme o que, segundo ela mostra uma “identificação singular” para o restante da sociedade. A diretora explica que se necessário, ela paga agenda para os alunos, já que nem sempre eles têm condições financeiras de adquirir o material.

“As outras escolas dizem que somos uma escola de playboy”, comenta Fabi, que discorda: “Não tem nada de playboy. É uma escola estadual como qualquer outra, só que é bem gerida. A diferença é que todo mundo sabe quem é a diretora dessa escola”. Os alunos contam para a diretora problemas de família, amorosos, situações com colegas, e a diretora também afirma, em tom de sinceridade, “é uma relação muito de mãe que tenho com eles, mas uma relação muito faca na bota, assim como sou com o meu filho”.

 

Crise do Estado: engajamento junto ao estado

“É uma escola Estadual. Sabemos que o governo manda pouca verba e com bastante atraso”, realça a diretora, que explica o funcionamento de campanhas que ela desenvolve para a manutenção da comunidade escolar. No início do ano, houve um esforço conjunto para a arrecadação de papel higiênico para a instituição, por exemplo. “Eu tinha duas merendeiras, e em menos de um mês as duas saíram e eu fiquei sem merendeira”, exclamou Fabi, que, sem a reposição das profissionais da cozinha pelo governo, estava na porta do refeitório entregando bolachas aos alunos. “Aqui no Júlio Grau eu faço de tudo. Eu passo pouco tempo na minha sala. Sirvo merenda, se tiver que limpar, eu limpo. Faço o que tiver que fazer. Coisas que não faço na minha casa eu faço nessa escola”, relata com orgulho.

Com a situação crítica sem profissional de cozinha na escola, Fabi decidiu passar nas salas e pedir aos alunos para que mandassem e-mail para o gabinete da SEC. “Eles encheram de e-mails, uma mobilização. Nós conseguimos outra merendeira em um mês”. A diretora comenta que a ausência de auxílio por parte do governo não é recente, “Não é deste mandato, é de muito tempo. Mas a gente não pode ficar dependente do governo. Eu acho, e vejo como diretora e gestora, que temos que correr atrás”. Fabi diz que já levou advertência do governo, quando o motor da bomba d’água da escola havia estourado gerando necessidade de  manutenção para a instituição não ficar sem água. “Eu tive que pegar o ‘permanente’, uma verba que o governo manda para a manutenção da escola com compra de mesas e cadeiras. Eles trancaram todas as minhas contas, fiquei quatro meses sem receber. Tive que levar diversas vezes a justificativa assinada pelo conselho escolar de que eu tinha que arrumar o motor, não podia deixar a escola sem água”. A diretora conta que o conselho escolar, formado por pais, professores, alunos e funcionários e um CPM (Círculo de Pais e Mestres), é forte: “ano que vem já decidimos, vamos colocar splits em todas as salas de aula. Vamos atrás de ajuda das famílias, de empresários, vamos a luta. Vai ser com verba nossa, não vou pegar o dinheiro da autonomia financeira porque não tem como eu botar 11 splits com o dinheiro que tem que manter a sustentação da escola”.

A diretora também reclama de uma posição do governo de solicitar a aprovação do aluno mesmo que este reprove em uma disciplina. “Eu acho que o professor tem a palavra final. Se ele diz que o aluno não tem condições, o aluno tem que ser reprovado. O professor tem que ser respeitado. Um aluno não é reprovado do nada e sim por tudo o que ele não fez ou não conseguiu aprender durante o ano letivo”, defende. No entanto, ela também comenta que a escola tem repensado essa postura, uma vez que diversos alunos reprovados são aprovados nos vestibulares. “Eu tenho gente que foi reprovada e passou na UFRGS. Notamos com isso que o aluno reprovou em uma matéria, mas que talvez faculdade que ele faça, essa disciplina não vai ser tão importante”, contrapõe.

 

Sobre o futuro

Com um possível mandato de mais três anos, caso a SEC aceite Fabi para o cargo, mesmo após dois mandatos, já há planejamentos para anos seguintes. “Além de botar ar-condicionado em todas as salas, queremos arrumar as quadras, colocar muros ao redor de toda a escola e manter o nível que temos aqui. Nossa gurizada é sempre aprovada no ENEM e nos vestibulares. O vestibular que eles querem eles conseguem entrar”. Ela, com franqueza, conjuntamente assinala mais um desejo: “Tenho que ter a mesma disposição sempre, é um desejo que tenho. Eu sei que sou eu, que faço a diferença aqui. Eu acho que o turno da manhã, tarde e noite tem que me ver da mesma forma, tenho que ficar da mesma maneira”, ressalta, explicando que a motivação tem que ser igual para todos os alunos, nos três turnos.

A diretora afirma que têm pais de alunos que dão para a escola 600 reais no final do ano, porque sabem que esse dinheiro é investido. “Não podemos depender somente do dinheiro público, precisamos de pessoas na escola, que façam”. A escola faz uma gincana anual, denominada de ‘Olimgrau’, que tem por finalidade, além de entreter os alunos, arrecadar capital para manutenção da escola, uma verba própria, para não depender do Estado.

 

A Religião nas escolas públicas

O Brasil é considerado um Estado Laico em virtude de dispositivos constitucionais que amparam e asseguram a liberdade religiosa. Contudo, diversas escolas públicas apresentam objetos e símbolos religiosos em suas dependências. Ao ser questionada sobre a relação da escola com a questão religiosa, a gestora cita dois exemplos: as mortes recente de um professor e de uma ex-aluna. “Em vários momentos os alunos pediam, e a escola se reunia para rezar, em um círculo. Uma coisa dos alunos. Quem não queria, não ia”, explica a ação dos alunos.

Fabi afirma que em algumas salas já houve crucifixos, o que ela justifica com a idade da escola, 61 anos, criada em uma época em que a religião era muito forte, segundo ela. A instituição de ensino também conta com aulas de Ensino Religioso, cuja oferta varia currículo básico escolar, sendo inserida e retirada constantemente. Entretanto, a gestora comentou que, por uma decisão do colégio, é uma disciplina obrigatória em virtude de sua importância. A administradora conclui: “Nossa aula de ensino religioso é muito tranquila, porque não se trabalha religião, e sim, valores”.

O entendimento da diversidade das religiões também se aplica a situações com os alunos.. Fabiene coloca que tem um aluno que é fiel a uma religião que não permite estudar sexta-feira a noite, e que há uma flexibilização da escola com casos como esse. Por outro lado, a SEC não abona essas faltas. Na escola, no entanto, em conversas com o aluno, a diretora optou, juntamente com sua equipe escolar, de abonar as faltas, sem que o estudante fosse prejudicado. Os professores, cientes da situação do aluno, o enviam matérias para entregar em outras datas. Fabi também conta a circunstância em que alguns alunos não participaram de um projeto da disciplina de Inglês, chamado de ‘Horror Week’, porque, para alguns pais, teria relação com o diabo. A diretora salienta, “Se eles não quiseram fazer, naquele momento não teria nenhum problema, não eram obrigados, se podia pedir outros trabalhos substituírem esses reclamados”.

 

Segunda ou primeira casa?

“O perfume que eu tenho em casa eu tenho aqui na escola pra poder renovar. Tem isso aqui pro óculos, eu tenho escova de dente aqui”, conta Fabi apontando para sua bolsa, com um sorriso no rosto. A diretora diz que em muitos dias, só vai pra casa para dormir, em função da quantidade de trabalho. “Eu controlo meu filho por telefone, durante o dia só o vejo quando vêm aqui na escola”. Explica também que não quis que o filho estudasse em sua escola em virtude de achar que alunos reclamariam de possíveis privilégios. “Eu amo esse lugar, essa comunidade. São todos meus”, brinca. Ela conta que chega às 6h30 da manhã e frequentemente fica até 22h45. Conta que uma de suas metas com a aposentadoria seria ingressar em uma academia, já que não consegue tempo para uma atividade rotineira de sua vida pessoal.

E não só para a diretora o ambiente escolar serve como casa, Juliana de Deus, de 20 anos, ex-aluna do colégio, conta que a escola a ajudou muito em sua vida pessoal, e que mesmo após a saída da instituição volta para visitar o ambiente e a diretora. “A Fabi se tornou uma segunda mãe para mim, me ajudou a enfrentar diversos desafios na minha vida. A Fabi sempre me impulsionou para frente”, explica Juliana. Carolina Machmann da Costa, de 18 anos, formada em 2017, explica que acha importante o trabalho de Fabi em um contexto de má administração pública, e diz que reconhece a pouca falta de professores e a qualidade da merenda da Escola Júlio Grau, quando comparada a outras instituições do estado: “Sempre achei a diretora Fabi muito ética, disciplinadora e correta, sempre tentando oferecer o melhor”, afirma. Fabi quer os alunos se sintam confortáveis, apoiados e incentivados a estudarem. O projeto é que a escola seja o conforto de todos, um local de ensino mas também de companheirismo. Aprendizado, mas solidariedade. Fabi está confiante para mais três anos a frente de um ambiente que transformou.

A diretora conversa com os alunos pelo colégio

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