“Não sou machista”, diz David Coimbra

Polêmico, David Coimbra fala sobre a carreira no jornalismo e defende seu posicionamento

  • Por: Eduarda Endler Lopes (4º sem.) | Foto: Juliana Baratojo (5º sem.) | 27/06/2016 | 0

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No 29º Fórum da Liberdade, David Coimbra, jornalista e colunista da Zero Hora, foi um dos convidados do painel de encerramento, chamado “Quem é John Galt?”. No evento, que aconteceu nos dias 11 e 12 de Abril no Centro de Eventos da PUCRS, Coimbra concedeu uma entrevista exclusiva ao Editorial J. Na conversa, falou sobre o fato de morar longe do Brasil, o papel na mídia, o jornalismo contemporâneo e sua crítica ao feminismo. Confira abaixo trechos da entrevista.

J – Atualmente, moras em Boston. A distância interfere na tua percepção dos fatos que ocorrem aqui no Brasil?

David Coimbra – Tem uma certa vantagem. O distanciamento faz com que, primeiro, eu tenha todas as informações por causa do desenvolvimento das comunicações, da internet. Tenho todas as informações do que acontece no Brasil, o que me dá certa sensibilidade. O distanciamento também é bom, pra mim, porque não tenho influência, por exemplo, no dia a dia, da pessoa que fica de cara feia porque tu escreveste alguma coisa de que ela não gostou. Isso me dá certa independência.

J – Ao pensar sobre o papel que cumpres na mídia, achas que tens o poder de influenciar opiniões?

Coimbra – Acho que muito pouco. Se a gente for ver na mídia, no Facebook, há um supermercado de opiniões, cada um tem a sua. As pessoas dificilmente mudam de opinião por causa de alguma coisa que elas leem. Tanto que assim, em geral, o elogio que recebo é ‘bah, gostei, é exatamente isso que penso’. As pessoas gostam quando tu escreves alguma coisa com a qual elas concordam, nunca vão dizer ‘tu mudaste a minha forma de pensar’. Muito raro de acontecer isso. Não formo opinião nem da minha mãe.

J – Trabalhaste por muito tempo somente na área de esporte e fazia isso com excelência. O que te fez sentir vontade de escrever sobre outros assuntos?

Coimbra – Sempre escrevi sobre todos os assuntos. Também trabalhei na política por muito tempo. Trabalhei em todas as editorias, praticamente. Tenho vários interesses. Tenho vontade de escrever.

J – Tuas opiniões, muitas vezes, são polêmicas. Tens ideia da amplitude da polêmica gerada por elas? Acompanhas as reações nas redes sociais?

Coimbra – Acompanho. Hoje em dia a gente está muito acessível. Então tem e-mail, Facebook, um monte de possibilidades que as pessoas têm pra dizer qual a opinião delas sobre a tua opinião. Acabo, obviamente, sabendo e tendo uma noção de como repercutiu aquilo que disse.

J – As ideias de algumas das tuas colunas são recebidas com resistência por alguns alunos de Jornalismo. Tens noção disso?

Coimbra – A gente sabe exatamente como as coisas vão se comportar, como as pessoas de determinado nicho da sociedade vão se comportar. No caso das universidades, as pessoas estão, nesse momento, são muito ligadas, por exemplo, ao PT. O PT entrou nas universidades, nas igrejas, nas ONG’s, nas organizações. A gente vê: quem defende o governo é a intelectualidade, não são os trabalhadores pobres, a não ser aqueles que se mobilizam por conta de entidades, como a CUT, o MST etc. São os intelectuais que defendem porque é uma ideia cara a eles, essa ideia de governo que defende pobre. Não defende pobre coisa nenhuma. Pelo contrário, os pobres estão sendo prejudicados. Esse governo tem pessoas que o defendem. E isso nunca aconteceu no Brasil. Em geral, o saudável para uma democracia é que o governo não tenha essa visão de defensor dos pobres. Pelo contrário, o cidadão deve ter uma distância do governo, até para fiscalizar.

J – Este tipo de reação é um sinal do tipo de jornalismo que estás praticando hoje ou um indício do tipo de jornalista que está em formação?

Coimbra – Os jornalistas são sempre iguais. Sobretudo, o jornalista é muito suscetível a esse tipo de pensamento. Esse pensamento ‘de esquerda’. Quer ver uma coisa, vou pegar um professor de faculdade. O [Celso] Schröder, presidente da Fenaj [Federação Nacional dos Jornalistas]. A Fenaj, como sindicato dos jornalistas, é aparelho do PT. Me desfiliei do sindicato dos jornalistas, porque uma vez, no lançamento do meu livro na Feira do Livro, chegou o Schröder, entre outros diretores do sindicato dos jornalistas, ‘não comprem, não assinem Zero Hora’. Vocês querem fechar a Zero Hora? Seis mil empregos. O projeto do sindicato do jornalistas da Fenaj seria fechar a Globo, colocar na rua milhares de jornalistas. Eles têm uma atuação não a favor do jornalismo, mas a favor de um partido. É um troço ridículo. Esse tipo de pensamento, que muitas vezes está permeável nas universidades, é o pensamento que acaba indo, que as pessoas ficam influenciadas por aquilo. Só que quando chegar na realidade, quando começarem a ver como as coisas acontecem, as pessoas vão mudando, se abrindo, vendo que a coisa não é bem assim. E é muito singelo, e ao mesmo tempo fácil, dizeres que é a favor dos pobres, a favor das mulheres, a favor dos negros, a favor dos homossexuais, defender sem nenhuma ponderação, sem nenhum raciocínio.

J – No texto A Morte de Juraci, foges da temática da morte da telefonista, mas a usa como pretexto para criticar o neofeminismo, que inclui justamente uma luta contra o feminicídio. Não achas que criticar toda a forma de feminismo não acaba incentivando a violência de gênero?

Coimbra – Não sou contra o feminismo. O que critico é um feminismo de intenção. Sou a favor, por exemplo, de penas mais duras pra quem comete crimes contra mulheres, que são, obviamente, fisicamente mais fracas, são mais suscetíveis à opressão e até à agressão física. Sou a favor de tudo isso aí, que são causas. Mas tu não podes transformar uma luta pela igualdade em suposições de intenção ou de pensamento. Tipo assim, isso que tu estás fazendo, tu pensas isso, tu tens intenção de ser machista. O presidenta da Dilma, por exemplo, não tem cabimento. Nunca ninguém fala presidenta em lugar nenhum. Presidente é neutro. O presidente. A presidente. É claro que isso é uma besteira, mas é uma besteira irritante. Disse isso pra ela. É errado. Não é que seja errado gramaticalmente, mas é errado usares um termo que ninguém usa. Uma forçação de barra pra dizer que, quando tu chamas uma mulher de presidente, tu estás sendo machista. Não sou machista. É o presidente, a presidente.

Texto publicado originalmente na edição nº 22 do Editorial J Impresso. Confira a edição completa no Issuu.