Nuvem de palavras de Bolsonaro

Discurso de Bolsonaro sinaliza economia livre, mas pouco se refere às liberdades individuais

Primeiro pronunciamento do presidente eleito não é considerado conciliador

  • Por: Luísa Dornelles (2ºsemestre) | 31/10/2018 | 0

O primeiro discurso do presidente eleito Jair Bolsonaro, feito no domingo, após o encerramento da apuração eleitoral, foi marcado pela defesa da liberdade econômica, mas não das liberdades individuais, avalia o cientista político Marcus Rocha, que faz doutorado em políticas públicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). A ideia da verdade dita pelo presidente, no seu pronunciamento, é no sentido do governo, como órgão oficial. Tradicionalmente, explica Rocha, esse tipo de postura não é associada a regimes democráticos e, sim, a totalitários, os quais ditam que quem diz a verdade não é a imprensa livre, a ciência ou as universidades, sendo contra a ideia de múltiplas verdades possíveis. Assim, a fala de Bolsonaro se apresenta bastante contrária à ideia de liberalismo político.

Nuvem de palavras de Bolsonaro
Nuvem de palavras de Bolsonaro

A forma como ele organizou o primeiro pronunciamento (pela internet, através do Facebook), representa uma maneira de passar por cima da mídia tradicional, confirmando a ideia de que ele não precisa dos canais de comunicação tradicionais e pode se comunicar direto com a população, como explica o cientista. Marcus Rocha comenta que havia a expectativa de que, após campanha marcada por uma retórica muito dura e de enfrentamento, o presidente eleito suavizasse um pouco seu discurso, o que não ocorreu.

Quanto à fala de Fernando Haddad, candidato do Partido dos Trabalhadores (PT) que foi derrotado, Rocha considera como uma tentativa de dar suporte emocional à militância, que ficou bastante afetada nos últimos tempos, em função da retórica muito dura do opositor e dos casos de agressão e ameaças ligados ao nome do futuro presidente. Haddad fez um discurso menos tradicional do que outros já feitos, não se referindo tanto à derrota, mas buscando a união, de amparo aos apoiadores. Para o cientista político, agora, o desafio da esquerda é fazer muitas das pessoas que foram às ruas em favor de Haddad e que não são, necessariamente, militantes do PT, se manterem mobilizadas e integradas no processo político. O objetivo é organizar um polo de esquerda sobre liderança do PT, para que o processo político siga e as pessoas não tenham medo diante de uma conjuntura psicologicamente difícil, para os militantes.

Nuvem de palavras de Haddad
Nuvem de palavras de Haddad

Segundo Rocha, com base no discurso do futuro presidente, pode-se esperar que seu governo seja de mobilização e enfrentamento constantes com a sociedade. O especialista aposta que haverá polêmicas muito menos em torno de propostas econômicas, projetos de governo ou em torno de possíveis reformas, focando mais em questões morais e comportamentais sobre, por exemplo, o que um professor pode fazer na escola, casamento gay e exposições artísticas. Para ele, o governo usará esses temas para ocupar a agenda e manter sua base mobilizada por mais tempo, colocando as pessoas nas ruas para defendê-lo.

Seguindo o que se pode esperar de ambos os discursos de encerramento das eleições, o cientista acredita que o PT possui a intenção de liderar a oposição pelos próximos quatro anos. Mas, como o PT sofre resistência da sociedade atualmente, muitos partidos não o querem liderando esse polo em função de erros cometidos durante a campanha, além da preocupação com o estigma que o partido atraiu para si nos últimos anos. Ainda, provavelmente os partidos PCdoB, PDT e PSB farão sua resistência sem se juntar ao PT. Sendo assim, o especialista aposta que haverá muitas dificuldades para o partido de Lula unificar a esquerda no próximo período.

Deixe um comentário