Do volante à cabine

Numa dupla luta por sobrevivência e direitos, mulheres expandem presença no mercado de trabalho para profissões antes restritas a profissionais do sexo masculino

  • Por: Mariana Puchalski e Natália Pegoraro | Foto: Eduardo Rodrigues | 01/07/2019 | 0

Desde muito cedo, Sinara Pereira, 51 anos, pedia a chave do carro do pai. Aos 14, tirou a licença provisória para dirigir, e aos 21, a fixa. E não saiu mais do volante. O primeiro trabalho ao volante veio por conta da necessidade. Aos 18 anos, ficou viúva e com uma filha para sustentar. “Fui em busca do que precisava. Procurei emprego em três transportadoras. Até que na última, consegui. Então, comecei a dirigir. Um dia também me ofereceram uma carreta, porque não tinha transporte naquele dia. No final das contas, fiquei entre carreta e caminhão durante 23 anos.”

Em uma das viagens como caminhoneira e carreteira, Sinara veio do Paraná para o Rio Grande do Sul. Como estava nos últimos dias da segunda gestação e não podia mais dirigir, resolveu parar de trabalhar. Foi em Porto Alegre que a motorista encontrou a segunda profissão, de taxista.

Sinara Pereira, 51 anos, trabalha como motorista há 23. Foto: Eduardo Rodrigues – 29.05.2019

Nessa etapa de vida, iniciada há 23 anos, enfrentou preconceito por ser a única motorista entre 15 mil homens no turno em que trabalhava, à noite. “Tive dois patrões. Um deles me disse: ‘Lugar de mulher é pilotando fogão, não carro’. Respondi que mulher fraca pilota fogão, sim. Agora, mulher de energia pilota carro, de preferência táxi”. Ficou neste ofício durante 19 anos. Teve que deixar o táxi por conta do casamento. O marido trabalhava de dia, e Sinara, à noite.

A motorista conta que o preconceito ainda existe, ainda que mais encoberto. Quando foi procurar trabalho como manobrista, os responsáveis pela garagem responderam que iriam ficar com seu currículo, mas não poderiam contratá-la. O motivo era o fato de ser mulher. “Está a mesma coisa para pior. Dizem que é maravilhoso, bonito, mulher dirigindo. Mulher ocupando vaga do sexo masculino. Mas, na moral, eles não estão nem aí para a mulherada.”

Foi levando a vida como motorista particular até ouvir falar dos aplicativos de transporte em 2017. Cadastrou-se e começou a gostar da ocupação. Foi vítima de assalto e assédio de passageiros. O que a mantém na profissão é o amor pelo que faz e passageiros que viraram amigos. “A minha compensação é que eu conheço e converso com as pessoas. Eu brinco, me divirto. Se ganho pouco, trabalho mais e vou atrás. Mas trabalho satisfeita.”

Julia Pérola, 19 anos, saiu de Gramado para cursar Ciências Aeronáuticas na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), em Porto Alegre. A escolha da profissão de piloto de avião não foi rápida. Prestou vestibular para outros cursos até chegar à opção atual. “Foi em um domingo, quando fui ver minha prima voar em um aeroclube de Canela, que eu disse: ‘É isso que eu quero fazer’”. Na segunda-feira, iniciou as aulas teóricas no aeroclube para fazer o curso de piloto. Agora, no terceiro semestre da faculdade, possui o desafio de logo entrar no competitivo e, principalmente, masculino mundo da aviação brasileira.

Júlia Pérola, estudante de Ciências Aeronáuticas da PUCRS. Foto: Eduardo Rodrigues

As mulheres são minoria na classe de pilotos. Enquanto os homens possuem 13.952 licenças para voar (97%), elas têm 428 (3%). Na categoria de piloto de linha aérea, considerada o topo da carreira, as mulheres são menos de 1% – apenas 49 do total de 5.211 licenças. Para Júlia, o baixo número deve-se à falta de influência. “A gente não se vê. Não tem exemplo. Não consegue se colocar no lugar. Tu vais pegar um avião, é só homem pilotando.” Ela comenta que, no curso, há poucas professoras. E nenhuma é piloto.

Na faculdade, os preconceitos começam a surgir. Na turma de Júlia, são 60 homens e somente cinco mulheres. “Pesquisei em um trabalho sobre feminismo que, de cinco universitárias, três sofrem assédio sexual na faculdade. Então, na nossa turma, mais da metade deve sofrer.” A futura piloto comenta que viu colegas sofrendo preconceito no aeroclube. Ela, diretamente, ainda não. “Mas é bem forte isso. Escutar vários comentários extremamente machistas nesse meio, como ‘Me avisa quando tu vais voar que não saio de casa’.” Contudo, ela imaginava o que viria pela frente por ter frequentado as aulas no aeroclube, ambiente predominantemente masculino, durante dois anos. A baixa participação feminina na aviação comercial é também alvo de comentários maldosos de passageiros.

Julia diz que a comunicação é a melhor ferramenta para enfrentar esse tipo de situação. O sonho da futura piloto é que os números de homem e mulher se igualem na aviação. Ela vê interesse crescente de mulheres pela área no aeroclube. “Conheço no mínimo umas oito que estão lá. Não necessariamente vão fazer a faculdade e seguir carreira. Mas podem ser pilotos privados, pelo menos.”

Thayná Minuzzo, 22 anos, interessou-se pela Engenharia logo no colégio. No Ensino Médio, entrou num grupo de robótica que a fez perceber o caminho a seguir. Quando entrou na Faculdade de Engenharia da Computação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), teve algumas dificuldades. No primeiro semestre, um professor chamou-a para ir à frente da sala. Diante da turma, fez uma pergunta que demandava tempo de cálculo. Antes que pudesse concluir a operação, o professor constrangeu-a dizendo que não sabia. Mais tarde, Tayna descobriu que era uma prática comum do docente com as poucas meninas da sala para envergonhá-las. O professor não está mais na faculdade – por aposentadoria, não em razão do assédio moral.

Luma Beserra, 21 anos, aluna de Ciência da Computação da UFRGS, também sente essas diferenças entre homens e mulheres. Como aluna, sente que muitas vezes mostrar capacidade e conhecimento é questão de honra. “Trabalho em uma empresa de tecnologia, e quando você pensa nas mulheres, a maioria é analista e gerente e não na parte de programar e ser desenvolvedora. Sempre tive vontade de representar.”

Sobre representatividade, Isis Burmeister, 21 anos, colega de Luma, conta que a faculdade tem professoras extremamente competentes, com prêmios e voz ativa. A diretora, inclusive, é mulher. Mesmo assim, às vezes são colocadas de lado, muitas vezes até pelos alunos. Isso faz com que iniciativas sejam necessárias.

Visando a buscar essa igualdade, alunas dos cursos de Ciência da Computação e de Engenharia da UFRGS criaram um grupo de extensão chamado Program.ada. O nome do grupo é uma homenagem a Ada Augusta King, primeira programadora da história. O projeto busca encorajar mulheres a ingressar na tecnologia. Promove oficinas, workshops, palestras e outros eventos, além de oferecer suporte a alunas na universidade.

Segundo pesquisa feita pelas alunas em 2016, mulheres representavam apenas 10% do instituto. Dados assim mostram a importância do incentivo dentro das escolas. O Portas Abertas, evento destinado a abrir a universidade ao público, ocorreu este ano no dia 18 de maio. Luma conta que, nos anos anteriores, compareciam apenas quatro ou cinco meninas. Este ano, estava meio a meio.

A luta ainda é grande buscando a igualdade. As mulheres estão, porém, conquistando espaço e derrubando padrões. Motorista, piloto, engenheira, programadora, atleta, mecânica. Sexo não define espaço e profissão.

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