Uma rede de 6.724 km

Longe do país natal, venezuelanos enxergam no Brasil oportunidades diferentes

  • Por: Letícia Santos (4º semestre) | Foto: Nícolas Chidem (6º semestre) | 26/11/2018 | 0

“Quando se chega sozinho, sem conhecer ninguém, é muito mais difícil”, relata Rinoa Acosta, venezuelana que reside em solo gaúcho. Há um ano, Rinoa atua diretamente no acolhimento de outros venezuelanos que, assim como ela, atravessaram o Brasil até chegar em Porto Alegre.

Apesar de anos distante de seu país de origem e do conhecimento adquirido de vocabulário português, a sonoridade de sua fala evidencia que a moça não é daqui. Com uma rotina corrida, Rinoa encontrou tempo no meio da tarde de uma sexta-feira para conversarmos sobre sua mudança de país e sobre o Projeto Araguaney, do qual participa para orientar os “hermanos venezuelanos”, como ela chama.

Venezuelana de Caracas, Rinoa atravessou a fronteira em 2014, ao lado do marido, Marco Perez, que vinha para Porto Alegre para aceitar a proposta de emprego no programa Mais Médicos. Naquela época, o cenário era outro. Tanto na Venezuela quanto na fronteira com o Brasil, as tensões ainda estavam no início do que iriam se tornar.

O trajeto de Rinoa até aqui começou na capital do governo de Nicolás Maduro, seguindo 636 km até o maior estado da Venezuela, Bolívar, onde um ônibus foi tomado. A viagem no coletivo durou 14 horas pela estrada até Boa Vista, em Roraima. A venezuelana descreve a noite que passou na cidade nortense como uma das mais cansativas, porém, era preciso continuar a viagem no dia seguinte. Ainda havia 5.161 km separando-a da capital gaúcha. O que seria uma distância de oito horas e meia de avião, contou com conexões aéreas que prolongaram o final do percurso. Mesmo reconhecendo que a trajetória já era exaustiva naquela época, a moça percebe, no contato com os que chegam agora, que não houve melhoras desde 2014.

No ano em que o casal deixou o país natal, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) calculava a presença de menos de mil venezuelanos em território brasileiro. Desde então, os números mudaram. Segundo o controle da Organização das Nações Unidas, o relatório de julho de 2018 da Organização Internacional de Migração (OIM) mostra que houve aumento de 1.000% de pedidos de asilo e residência só no Brasil, totalizando até agora 50 mil venezuelanos fixados em território brasileiro.

Com os anos, o perfil de venezuelanos que chegam ao Brasil tem mudando de características. A partir do trabalho na Associação do Voluntariado e da Solidariedade (Avesol), que lida com diversos imigrantes desde 2016, Patrícia  Siqueira relata que percebe uma mudança no nível de ensino de quem chega. Como Rinoa e o marido, até o ano retrasado, a maioria possuía diploma ou vinha para o Brasil com ofertas de trabalho ou estudos.

Atualmente, a crise que intensifica a precariedade do padrão de vida na Venezuela é de longe o mais decisivo fator a motivar pessoas a saírem de lá. De acordo com o principal instituto de pesquisas de opinião do país, o Consultores 21, 63% dos emigrantes acabam indo às fronteiras por causa da situação econômica da nação venezuelana.

 

Do governo às prateleiras

“A gente fica preocupada com a família que ainda está lá na Venezuela”, conta Rinoa ao responder sobre seus maiores receios. Tendo saído do país há quatro anos, a moça assistiu de perto ao início da crise nacional que gerou a crise migratória que é observada atualmente.

A conjuntura atual da Venezuela tem raízes econômicas e políticas. O país que passou 14 anos sob o governo de Hugo Chavez firmou sua economia na exportação de petróleo, importando os demais produtos para sua população. Com a queda do preço do barril de petróleo, a Venezuela viu seu PIB declinar, tendo agravante nos últimos quatro anos. Ao mesmo tempo, a política do país se tornou mais instável após a morte de Chavez, em 2013, quando Nicolás Maduro assumiu o poder, desagradando uma parcela da população. A crise se acirrou a partir de 2015, quando o PIB diminuiu 37% e a inflação chegou a 2.7000% ao ano.

No cotidiano de quem vive onde moravam Rinoa e Marco, a crise gerou escassez de recursos básicos, como alimentos e remédios. De acordo com a Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização do Estados Americanos (OEA), cerca de 80% da população já era afetada pelo desabastecimento de comida, em 2015. Desde então, a busca de melhores condições em diferentes nações aumentou, gerando o que alguns especialistas já chamam de “diáspora venezuelana”.

 

Brasil como “escolha”

“Toda migração tem um quê de forçada e um quê de escolha”, explica o professor João Carlos Jarochinski, coordenador do curso de Relações Internacionais na Universidade Federal de Roraima (UFRR). A fronteira brasileira, segundo o último relatório da OIM, é opção de saída para 2% dos venezuelanos em processo de busca por um novo local..

A crise migratória da Venezuela atinge diretamente países da América do Sul, que são destinos de 56% dos venezuelanos em êxodo. Entre os territórios mais procurados, a Colômbia lidera o ranking, recebendo, até abril deste ano, 870 mil imigrantes que fugiram do país governado por Nicolás Maduro. Os outros dois países que fazem fronteira com a Venezuela são o Brasil e a Guiana, que, ao contrário do primeiro, não possuem a mesma língua oficial do país em crise.

O professor Jarochinski afirma que a fronteira brasileira é escolhida na maioria das vezes como “opção de trânsito”, como aponta a OIM, mostrando que 52% dos venezuelanos que entram no Brasil tem outros destinos. Países que não fazem fronteira com a Venezuela tem sido mais procurados, a exemplo do Peru, que já recebeu 354 mil imigrantes, e da Argentina, que abriga 95 mil venezuelanos. O coordenador de Relações Internacionais da UFRR comenta também que os aeroportos de Guarulhos e de Foz do Iguaçu registram muitas saídas de venezuelanos.

Mesmo assim, ainda há a parcela dos outros 48% que entram no país e acabam ficando. “O Brasil se torna uma alternativa atraente em comparação a outros países da América do Sul ao facilitar a entrada, já que é um dos poucos que não tem exigido visto”, explica Jarochinski, deixando claro que o processo é muito mais influenciado pela situação político-econômica da Venezuela do que pelos atributos do território brasileiro.

Entre o que tem sido um diferencial na infraestrutura para receber venezuelanos no Brasil está o trabalho em conjunto do governo federal brasileiro e da agência da ONU para refugiados, o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), que tem conseguido manter esses imigrantes em abrigos pelo país. Entretanto, esta aliança começou a dar resultados efetivos apenas após eventos de tensão na fronteira entre os dois países.

 

Respostas à xenofobia

“Nenhuma cidade do país está preparada para receber 40 mil imigrantes”, destaca Patrícia ao avaliar a região fronteiriça que foi palco de violência.

A onda de migração venezuelana em solo brasileiro afeta diretamente o estado de Roraima, porta de entrada, que possui 11 de seus 15 municípios com refugiados em situação de rua. A cidade que faz divisa com o estado de Bolívar, no território governado por Maduro, é Pacaraima, cenário dos ataques xenófobos de 18 de agosto. Cerca de 1,2 mil cruzaram a fronteira de volta para a Venezuela após moradores atacarem acampamentos de venezuelanos, incendiando barracas e pertences dos imigrantes.

O professor Jarochinski, que atua na universidade federal do estado afetado, destaca que os casos xenófobos influenciaram o fluxo de migração na fronteira apenas por um curto período, sendo notável uma diminuição de entradas e aumento de saídas de venezuelano. Ainda assim, o especialista explica que, por se tratar de migração forçada, “o receio pela xenofobia influencia menos do que o contexto da Venezuela”.

Com o evento xenófobo no norte do país, o governo federal decidiu intensificar o processo de interiorização dos venezuelanos, transportando cerca de 400 imigrantes por semana para outros oito estados e o Distrito Federal. Só no Rio Grande do Sul, 731 imigrantes já vieram nos voos da Força Aérea Brasileira. Esses recém chegados foram divididos entre os abrigos localizados nas cidades de Canoas, Esteio, Cachoeirinha, Chapada e da capital gaúcha.

A assistente social Patrícia Siqueira, comenta que apesar de não trabalhar no grupo que recebe os venezuelanos trazidos pelo ACNUR, a rede de contato entre assistentes sociais compartilha muita informação sobre essa atuação. “Os venezuelanos têm um baque psicológico ao sair das barracas em que viviam há seis meses em Roraima e irem para abrigos com comida, quarto, cozinha e até ar-condicionado (como no caso de Canoas)”, relata ela.

Trabalhando ativamente na parceria da Avesol com o Projeto Araguaney, Patrícia conta que a sociedade no geral tem recebido os venezuelanos bem, “em parte por como a mídia tem mostrado eles, de forma positiva”. Os resultados têm sido vistos nos recebimentos de doações que, no caso da Avesol, vêm da Rede Maristas e de voluntários.

A partir do trabalho desenvolvido no Serviço de Assessoria em Direitos Humanos para Imigrantes e Refugiados (SADHIR), Mateus Tomazi e Thales Miola destacam que o preconceito que os imigrantes venezuelanos sofrem são mais ligados a senso comum, “é algo mais social e menos racial, diferente do que ocorre com haitianos e senegaleses”. Mateus explica que o mais frequente é brasileiros acharem que os imigrantes vieram “para roubar empregos”.

Ao chegarem aqui, os desafios que os venezuelanos enfrentam passam por esses fatores sociais, mas também entram no campo da burocracia. Mateus e Thales relatam que a legalização dos documentos é a ferramenta mais procurada pelos venezuelanos. O serviço que o SADHIR e a Avesol mais prestam aos venezuelanos é o de validação do diploma, já que, segundo Mateus, se trata de um “processo custoso e demorado, pela burocracia”, o que acaba exigindo paciência e dinheiro dos imigrantes.

Foi a partir do intuito de colaborar com a disseminação de informações e mantimentos para venezuelanos, que Rinoa e mais seis venezuelanos, chegados a Porto Alegre de forma independente, criaram o Projeto Araguaney. O nome vem da árvore símbolo do país, que em solo brasileiro é conhecida como ipê amarelo. “Decidimos nos reunir, já que não podíamos ajudar quem estava em Boa Vista, poderíamos orientar os hermanos venezuelanos daqui”, explica Rinoa.

Rede venezuelana em solo brasileiro

A rede de acolhimento que tem se fortalecido através dos abrigos mantidos pelas prefeituras e pelo ACNUR e, principalmente, de ações como as feitas pelo Projeto Araguaney também é um dos fatores que tem diferenciado o Brasil, segundo o professor João Carlos. No SADHIR, Mateus e Thales percebem que os venezuelanos têm conseguido estabelecer uma comunidade já em solo gaúcho. “Esse acolhimento parte principalmente dos venezuelanos que já estavam aqui”, explica Patrícia.

Assim como as características sonoras da língua materna marcam a fala de Rinoa, nem tudo foi deixado no país de origem. Através do Projeto Araguaney, as tradições são mantidas e comidas típicas são compartilhadas, em reuniões organizadas para manter próximos aqueles que saíram do seu país.

Outro programa que oportuniza essa união entre os imigrantes é a Copa dos Refugiados. Idealizado pela ONG África do Coração, realizado em conjunto com a PONTO, Agência de Inovação Social, e com o apoio do ACNUR, o evento ocorreu em Porto Alegre nos dias 3 e 4 de junho. Venezuelanos, como Yraidi Mendoza (foto), se reuniram para torcer pelo time que representava a Venezuela no campeonato de futebol contra outras sete seleções de imigrantes e refugiados.

A Avesol contabiliza que só o Projeto Araguaney já tenha 300 venezuelanos envolvidos, entre famílias inteiras e adultos sozinhos. É pelas parcerias do projeto com empresas de recursos humanos e pela comunicação entre si que os venezuelanos têm conseguido empregos e indicações sobre o novo país em que vivem.

Com ações comunitárias como as do grupo de Rinoa, Porto Alegre se torna cenário de quem procura por situações melhores do que a vivida no país natal e encontra acolhimento tão longe de casa. A  6.724 km de Caracas, a capital gaúcha tem sido local para estabelecer uma rede que mantém viva as memórias boas e as relações que antes eram sinônimo de lar para aqueles que tiveram que migrar.

Deixe um comentário