Jornalistas recordam 48 anos do Golpe Militar

No último sábado, dia 31 de março, o Golpe Militar brasileiro completou 48 anos. Foram os 21 anos de maior controle das informações divulgadas na mídia. Carlos Henrique Esquivel Bastos e Edison Moiano, ambos jornalistas gaúchos, falaram ao Editorial J sobre as experiências vividas no período em que a imprensa era alvo de forte censura e manipulação militar.

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Carlos Bastos: sentiu que algo iria acontecer

Em 1964, Bastos trabalhava na “TV Gaúcha” e no jornal “Última Hora”, como chefe de redação. Ele relembra que mais ou menos 6 meses antes da aplicação do golpe já era possível notar como os deputados, os quais ele conhecia, “seguravam” boa parte das informações que antes eram facilmente divulgadas. “Eu sabia que tinha alguma coisa em andamento, mas não vou dar uma de ‘sabe tudo’ que eu previ o golpe. Eu não previ, estou dizendo que eu senti alguma coisa estranha”, comenta.

Quando questionado sobre a manipulação das notícias, conta que havia uma autocensura. Ou seja, os militares orientavam o que deveria ou não ser publicado e era obrigação do dono do jornal, através de seus editores, aplicar tais regras.  Apesar disso, ajudou a esconder amigos e viu jornalistas retirados à força das redações, levados presos ou mortos.
Diferente do colega, Moiano era um jovem de 17 anos na Rádio Santiago, no interior do estado. Imediatamente após a aplicação do estado ditatorial, os militares levaram diversas pessoas presas e obrigaram a rádio, na qual ele trabalhava, a publicar boletins de hora em hora exaltando a “revolução” e alertando a população para os “perigos do comunismo” no país.

Moiano redigia as notícias para o programa Jornal Falado, que ia ao ar diariamente ao meio-dia. Ele conta que por volta das dez da manhã, quando começava a escrever, chegava à redação um censor, capitão do exército, para observar seu trabalho. “Ele era veterinário, não tinha muito jeito pra coisa. Ali ele ficou sentado durante seis meses, até que um dia cansou, viu que não tinha nada. Então me avisou ‘a partir de amanhã não venho mais, mas se tu fizeres besteira te levo preso’. Eu não fiz, claro”.

Moiano: utilizava manobras para driblar as proibições

Anos depois, já na Rádio Guaíba, Moiano e outros jornalistas utilizavam manobras para driblar as proibições da ditadura. As manifestações estudantis nas ruas de Porto Alegre não podiam ser divulgadas e para que a população tomasse conhecimento, relatava-se a existência de grandes engarrafamentos na capital. Entretanto, a “brincadeira” acabou quando Josué Guimarães divulgou em sua coluna na Folha de São Paulo o artifício que estava sendo utilizado.

“Esse ambiente tenebroso eu não gostaria de reviver”, afirma. “Não existe coisa pior. A gente vê até comunicador achando que a solução é na força. Não existe nada melhor que o estado de direito”, Moiano conclui emocionado.

Texto: Daniela Flor e Kimberly Winheski

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