Jovens enfrentam diferentes realidades durante permanência e na saída de abrigos na capital gaúcha

Casas de acolhimento deixam profundas marcas em crianças e adolescentes e nem sempre os preparam para a vida fora da instituição após os 18 anos de idade

  • Por: Carolina Dill (1º semestre), Lara Moeller (1º semestre) e Isabella Britto Schmitt (3º semestre) | Foto: Carolina Dill (1 semestre) e Lara Moeller (1 semestre) | 24/07/2019 | 0

As casas de acolhimento para crianças e adolescentes destituídos da guarda familiar tornam-se o destino para aqueles jovens que passaram por situações de risco, violação e vulnerabilidade. Dentro dos abrigos, a realidade vivenciada pode variar de acordo com a situação do local e com as condições psicológicas do jovem abrigado. Em muitos casos, a permanência nesses locais perdura até os 18 anos de idade, como estabelece a lei. 

As histórias de Vitória Guimarães, estudante de 19 anos, e Débora Franco, 29, retratam duas realidades opostas vivenciadas em diferentes abrigos de Porto Alegre. Ambas permaneceram no acolhimento até atingirem a maioridade, o que gerou para elas um período de transição e adaptação marcado por diferentes sentimentos e dúvidas sobre a nova realidade que teriam que enfrentar.  

Vitória visita com frequência a casa de acolhimento da ONG Pão dos Pobres de Porto Alegre, onde permaneceu seis anos da sua vida. Com a morte de sua mãe e a família jurada de morte, aos 12 anos, ela precisou tomar uma decisão. Em conjunto com sua tia, decidiu se unir aos quatro irmãos para se abrigarem na ONG, onde ela sabia que todos teriam oportunidades, segurança, alimentação e atendimentos.

“Durante esses anos, eu nunca quis sair do Pão. Não é fácil estar dentro de um abrigo, no meio de outras crianças que passaram por tantas coisas. Muitas pessoas ficam tristes por não ter família, eu passei por esses momentos, mas todas as oportunidades que me deram aqui eu peguei, não deixei nada escapar”, destaca. 

A menina completou o ensino fundamental no Colégio La Salle Pão dos Pobres e todo o ensino médio na rede pública. No último ano do ensino médio, sua rotina começava às 8h da manhã e terminava às 23h da noite, quando retornava ao Pão dos Pobres, após passar o dia na escola, estagiando e estudando para o vestibular. Ela relembra das noites de estudo no quarto compartilhado com outras crianças. 

A própria instituição a auxiliou para conseguir um estágio. Aos 15 anos, ela iniciou suas atividades no Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), partiu para o Departamento Autônomo de Estradas de Rodagem (DAER) e depois foi trabalhar em um hotel. Atualmente, atua na Faculdade do Ministério Público (FMP).

Além de apoio aos estágios, a ONG Pão dos Pobres contribui para sua educação financeira. João Rocha, coordenador socioeducativo da mesma, comenta que a instituição sempre valorizou esse tipo de trabalho, em que 30% de todo o salário ganho em estágios realizados pelos abrigados, é destinado para uma poupança em que tem acesso ao sair do abrigo.  

 Durante os seis anos de acolhimento, ela criou um laço muito forte com os funcionários, uma vez que sempre gostou de estar rodeada de pessoas mais velhas. O carinho também se formou com as  crianças, em que ela afirma: “Venho direto no Pão. Tenho muito contato com as crianças para que elas sigam o mesmo rumo que eu. Aqui dentro, nunca tive nenhum exemplo a seguir, mas minha mãe sempre me ensinou a ser independente.” 

Vitória em uma das dependências da ONG Pão dos Pobres, onde viveu seis anos. Foto: Lara Moeller

 Seguindo o ensinamento da mãe, Vitória se mostra convicta de seus objetivos e  com o rumo que quer dar para sua vida. Escolheu cursar a faculdade de Direito para, futuramente, conquistar o posto de juíza e poder defender o país e a população negra. Conseguiu uma vaga para estudar na FMP, mesmo local em que trabalha, pela sua nota no ENEM e com o apoio de Cinara Braga, promotora do Ministério Público. 

  Vitória mora com sua “mãe adotiva”, a qual já conhecia durante sua infância, mas devido à burocracia e demora na tramitação de documentos para conquista da guarda familiar, ambas preferiram aguardar a jovem atingir os 18 anos. 

Toda sua trajetória de permanência e transição de saída ao atingir a maioridade foram marcadas pela sua autonomia na tomada de decisões. Ela reconhece que aproveitou todas as oportunidades que teve e que recebeu todo o suporte oferecido para que quando completasse a maioridade, pudesse sair com maior tranquilidade. No entanto, segundo ela, muitas crianças não estão preparadas para a saída. “É muito difícil tu ir para outra realidade. Muitos não têm família para quando sairem. Eu tinha uma parte da minha família fora.” 

 

Vazio emocional

 

Contudo, a vivência de Débora Franco, de 29 anos, em um abrigo foi bem diferente da experiência de Vitória. Aos quatro anos de idade, Débora foi encaminhada para uma das casas de acolhimento da Fundação de Proteção Especial (FPE), coordenada pela Prefeitura de Porto Alegre. Após a escola acionar o Conselho Tutelar que seus irmãos não estavam frequentando a escola, uma decisão judicial retirou a guarda familiar de sua mãe. 

Segundo Débora, ir para a casa de acolhimento foi a melhor opção para ela e os irmãos pelos serviços oferecidos. No abrigo em que estava, localizado na Rua Baltazar de Oliveira Garcia, ela recebia alimento, acesso à escola, atendimento de saúde e auxílio de prevenção à gravidez.

No entanto, nenhum desses aspectos eram capazes de suprir o vazio emocional que sentia. A quebra do vínculo familiar deixaram marcas permanentes em sua vida. Ela alega que, muitas vezes, foi privada de visitar seus familiares, e que essa privação foi capaz de desenvolver em sua mãe um quadro de esquizofrenia. “Eu e meus irmãos temos avós, tios e primos. Mas a gente nunca teve convivência. Não temos afeto por eles”.  

 

O vínculo que acabou sendo construído foi com os próprios funcionários. Entretanto, nem todos os laços foram saudáveis. “Tinha uma época que a gente era agredido no abrigo pelas pessoas que trabalhavam lá, pelas monitoras. Elas nos colocavam de castigo e não era qualquer tipo, era severo mesmo. Teve uma época que pediam pra gente escolher a forma de apanhar. Eu não apanhava muito porque era das menores, mas ouvia e assistia meus irmãos mais velhos. As gurias eram espancadas e ninguém podia dizer nada. Tinha monitores tarados e assédio sexual. Eu morria de medo deles. Um dia conseguimos contar para uma diretora tudo que faziam na gente, e todo mundo envolvido foi expulso de lá. Mas até isso acontecer foram muitos anos”, revela.

 Em relação aos outros abrigados, Débora comenta que ela, juntamente com seus colegas continuam a se ajudar, mesmo após a saída e depois de tantos anos. Com frequência, marcam reuniões e churrascos para conversarem sobre suas vidas e os rumos que cada um tomou.   

Grupos voluntários iam visitá-los, e foram através das atividades oferecidas por eles que ela passou a ter uma breve noção sobre como cuidar do seu dinheiro. Brechós com o uso de dinheiro de mentira contribuíram nesse processo. 

Débora começou a trabalhar aos 16 anos. Sua primeira experiência foi como atendente de loja na Tim Celulares, logo após conseguiu um estágio como auxiliar de secretária no Ministério Público, onde, ela ressalta que foi um dos locais em que as pessoas mais tentaram ajudá-la, incentivando com os estudos e objetivos na vida. 

 Próximo de completar os 18 anos, ela se via perdida, já que pelo abrigo não era oferecido nenhum tipo de orientação ou suporte. “Do nada ia ter que aprender a pagar conta de água e luz. Como eu ia fazer? Tive que aprender tudo na marra.”

 Sua saída foi repentina, ao completar os 18 anos precisou ir embora. Em meio a dúvidas, ela viu no casamento a busca de uma maior estabilidade e a chance de construir a família que nunca teve. “A maioria das meninas faz isso. Já que tu não tem família para te amparar, tu vai construir uma”, relata Débora. 

Atualmente, ela trabalha como atendente de loja em um shopping da Zona Sul de Porto Alegre e tem dois filhos, uma menina de quatro anos e um menino de sete. Na presença deles, Débora se emociona ao dizer o que quer ensiná-los: “Quero ensinar aos meus filhos como podemos amar, como a família é importante nas nossas vidas”. Ela conquistou o sonho de comprar sua casa própria e seu atual objetivo é começar uma faculdade. Débora sempre prezou pela sua independência e afirma que, na condição de abrigada, a única pessoa com quem se pode contar é consigo mesmo.   

 

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