Literatura de bolhas

No Brasil, leitores tendem a ler dentro de bolha literária, sendo livros nacionais os mais lidos e editados

  • Por: Manuela Neves (5º semestre) | Foto: Jorge Franganillo/Flickr; Manuela Neves (5º semestre) | 18/07/2019 | 0

Bolha social é o conceito criado na pós-modernidade para designar grupos sociais unidos por um interesse em comum. Assim, dentro de tais grupos forma-se uma homogeneidade de pensamento em relação a um ou mais assuntos. Para tratar de hábitos de leitura dentro de determinadas comunidades, é possível adaptar a definição para bolha literária. Em vez de haver homogeneidade de pensamento, há homogeneidade na escolha de livros. Isso faz com que os mesmos padrões de obras literárias sejam sempre os mais lidos. 

Nos sites das livrarias Saraiva e Cultura, os livros da sessão de “mais vendidos” são predominantemente do Brasil, dos Estados Unidos e da Inglaterra. Dentre os temas, são mais comprados livros de autoajuda, ficção, religião e didáticos. De uma semana para outra, por mais que alguns títulos da categoria dos sites mudem, todos seguem os mesmos gêneros literários. A bolha literária se apresenta então quanto aos gêneros mais lidos e às nacionalidades das obras.

O escritor e doutor em Linguística e Letras pela PUCRS Luiz Antonio de Assis Brasil acredita que a grande maioria dos leitores lê aquilo à venda nas “livrarias de aeroporto”, locais onde prepondera “lamentável mediocridade”. Assis Brasil ressalta que tais leituras não alteram o modo da pessoa sentir e perceber a vida, nem propõe questionamentos ou mudança de conceitos. Da mesma forma, a literatura de massa tem um consumo expressivo, mesmo que seja pobre do ponto de vista literário e inócua.

Por outro lado, há o público acadêmico voltado para a escrita, este seletivo e exigente ao escolher o que irá ler. Assis Brasil explica que essa comunidade não segue aquilo lido por todos no momento, sendo influenciados pelas indicações dos professores, mas que já chegam na universidade com uma carga literária boa e seletiva. Entre tal perfil de leitores e o público mais amplo, encontra-se um pequeno grupo que dita suas leituras a partir de resenhas publicadas em jornais e em revistas. Dessa maneira, leem os chamados bons livros – livros literários, nas palavras do doutor em Letras, que inquietam, questionam e têm conteúdo a acrescentar.

De acordo com a pesquisa “Retratos do Brasil”, de 2016, para os 104,7 milhões de leitores do Brasil o principal que leva à leitura é por gosto (25% dos entrevistados). Vinculado a isso, o principal fator para escolher um livro é seu assunto (30%), explicando em parte a padronização nos livros mais lidos. Tal levantamento apoiado pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) considera como leitor todos que leram pelo menos um livro, em partes ou inteiro, nos três meses anteriores à pesquisa. Ainda, é apontado que os últimos livros lidos dos consultados seguem regras parecidas com as indicações de mais lidos das livrarias – best-sellers, para fins de vestibular, religião e auto-ajuda. Assis Brasil aplica aos livros comumente lidos a definição de referenciais, tais como os romances. Condizente com o estudo, o que importa é o conteúdo, não o romance por si só. 

Assim, estão muito presentes temas da atualidade como racismo, feminismo e outros “assuntos do momento”, nas palavras de Luiz Antonio de Assis Brasil. Ele esclarece que leitores, exceto determinados grupos, não leem pelo prazer estético, mas para conhecer melhor algum aspecto da sociedade, configurando uma literatura instrumental. “Eu quero saber como se dá, por exemplo, o jornalismo praticado nos Estados Unidos, como são as festas dadas pelos americanos, como vive a alta sociedade americana. E tem livros que dão essas respostas”, exemplifica. 

Fugindo da bolha literária, Fernanda Grabauska se esforça para expandir seu círculo de leituras, englobando literatura feminista, negra, brasileira, poesia e até acadêmica. Porém, enfatiza que nunca conseguirá ler tudo, sempre haverá alguma coisa sendo deixada para trás. “Ah, eu não estou lendo brasileiros, não estou lendo o clássico inglês vitoriano, eu não estou lendo não sei o que”. A jornalista completa que se olhar para tudo, não verá nada muito bem. 

Desde a infância, Fernanda foi muito fascinada pelo objeto livro. Com os pais jornalistas, havia muitos títulos em casa e recebia alguns mais da mãe. No entanto, não havia um incentivo explícito para leitura. Mais ou menos aos seis anos, lembra de partir de si a iniciativa de leitura. “Quando aprendi a ler, fui à casa de uma amiguinha e pedi para mãe dela: ‘tia, eu posso pegar o Sítio do Pica-Pau Amarelo emprestado?’. Ela disse: ‘claro, qual [livro] tu queres?’.  Respondi: ‘eu quero todos’”. Entretanto, até pelas leituras obrigatórias de escola, acredita ter formado seu gosto pessoal somente na faculdade. Estudante da PUCRS na época, lembra de alugar na biblioteca o Complexo de Portnoy, de Philip Roth, e adorar.

Após terminar um livro, Fernanda escreve a avaliação deste no fichário de leituras que mantém atualizado. Foto: Manuela Neves

De acordo com os números do ISBN (Internacional Standard Book Number) de 2017 em relação ao ano anterior, há uma queda de 18,87% nos exemplares traduzidos, ou seja, de demais países. Já os exemplares de autores nacionais tiveram um aumento de 3,65% nesses números – uma das justificativas para o maior conhecimento e contato do público em geral com obras nacionais. Em porcentagem do sistema, os exemplares nacionais fecham pouco menos de 80% em 2017, ultrapassando a quantia de 2016. Apesar da menor tradução de exemplares estrangeiros no país, editoras como a Dublinense buscam diversificar seu catálogo. Editor da Dublinense, Rodrigo Rosp, explica que a editora faz o contato com o autor e o agente deste por iniciativa própria ou indicação. 

Rosp crê que o sistema literário porto-alegrense favorece a descoberta de novos títulos, com uma média de 10 títulos por ano vindos só de cursos da PUCRS. Alguns destes são publicados após a indicação e aval dos professores. Similar ao processo para publicação de livros nacionais, agências literárias fora do país indicam títulos estrangeiros que combinem com a proposta da Dublinense. “Muitos textos estrangeiros nunca foram publicados aqui [no Brasil] e permanecem inéditos”, explica Rosp. Hoje, a editora gaúcha tem uma coleção dedicada exclusivamente a livros portugueses, havendo a presença de um curador para selecionar os livros. Depois, é feito o contato com a editora de origem para tratar dos direitos autorais e por ano são publicados de três a cinco obras portuguesas. Além disso, depois de várias experimentações, a editora agora dedica-se à literatura, humanidades e psicanálise. 

Na TAG Livros, clube literário do qual Fernanda Grabauska é curadora, a saída da bolha literária é feita através de dois nichos – TAG curadoria e TAG inéditos. O primeiro trabalha com livros sem publicação prévia no Brasil ou sem reedição há muito tempo. Após o contato com o agente do escritor para acertar os direitos autorais, é selecionada uma editora brasileira para os trâmites de tradução e revisão, supervisionadas pela TAG. Neste grupo, tenta-se manter a grade bem balanceada entre autores brasileiros e estrangeiros. Mesmo que quem indique se esforce, ainda há recorte histórico e predominância de certas línguas. Entretanto, existe cuidado para não focar somente no que é cânone ocidental.

Já a TAG Inéditos recebe das editoras as propostas de tradução, esta realizada por Fernanda. Além disso, seu foco é best-sellers, gênero que dificulta fuga da literatura predominante por ser voltado principalmente para a língua inglesa. “Mesmo que o consumidor da TAG procure essa coisa mais diferentona, best-seller é best-seller”, diz Fernanda. Ainda que sejam publicados livros do gênero de demais países, a curadora enfatiza que o fator diversidade não é tão crucial para a leitura quanto o ritmo da história. Em relação ao consumo de livros estrangeiros, grandes prêmios da literatura como o Nobel Literário não mostram indícios de influenciar com relevância os títulos mais lidos no contexto brasileiro. Embora, na última década, o prêmio tenha sido concedido a países cuja literatura não é usual no Brasil, a bolha literária não dá evidências de ser quebrada por esse fato. Em 2015, ano em que o Nobel Literário foi vencido por uma escritora da Bielorrússia, os autores mais conhecidos pelos público brasileiro eram quase majoritariamente nacionais ou de língua portuguesa.

Assis Brasil explica que “os prêmios têm certa importância na medida que são orientadores do público”. No entanto, para prêmios em geral o apelo maior é relativo aos leitores que procuram uma literatura literária e questionadora. A exceção, para o escritor, são grandes premiações como o Pulitzer e o Nobel Literário, as quais atraem a atenção de um público mais amplo. Porém a penetração das obras premiadas não se dá em uma grande parcela leitora, gerando decepção em muitos que acostumam-se à “literatura de aeroporto”. Dessa forma, Assis Brasil defende a existência de uma bolha literária à parte, preenchida pelo público acadêmico e pessoas com gosto literário exigente. Dentro desta se enquadra Fernanda, por exemplo.

 Depois de formada, ela direcionou a carreira para área de jornalismo cultural. No entanto, como uma sutileza de trabalhar com a literatura de forma profissional, Fernanda diz conseguir transitar bem entre o cânone e o best-seller. Apesar disso, é um recorte dentro de todas as possibilidades de leitura. Por trabalhar como curadora de best-seller da TAG Livros, aprendeu a gostar do gênero e hoje é uma parte divertida de sua personalidade como leitora. Alguns dos temas presentes em tal literatura são Segunda Guerra Mundial, espionagem e romances “água com açúcar”. Fora das leituras do trabalho, Fernanda simpatiza com obras que proponham diferentes linguagens e formatos. “Quanto mais maluco melhor”.

Sentada no sofá da sala repleta de livros espalhados também pelo quarto e pelo escritório, Fernanda Grabauska brinca que “[a leitura] cumulativamente faz mais mal do que bem”. “Há vieses e exemplos para tantas situações que quando algo acontece, nunca se sabe por onde olhar”, completa. Dentre os títulos mais emocionantes, Fernanda cita A Insustentável Leveza do Ser, leitura seguida de 10 minutos de choro e pensamentos sobre as relações humanas. Assim, a literatura é vista por ela como instrumento de empatia e de aprendizagem para lidar melhor com diversas condições humanas. 

Nos estudos feitos, entretanto, a realidade do país diverge do exemplo de Fernanda e a bolha literária geral predomina. Para Assis Brasil, a chamada literatura de massa é mais consumida por “pessoas que não tiveram acesso, infelizmente, a uma educação questionadora ou nem tiveram uma educação formal. Assim, estes são menos exigentes em todas as outras áreas, não só na literatura”. 

Rodrigo Rosp, também editor da Não editora, afirma que “fazer literatura experimental não precisa ser sinônimo de não vender”. A editora dedicada à publicação de autores novos no mercado literário tem o objetivo de levar ao público literatura fora do convencional, subversiva e voltada para escritores gaúchos. Assim como a Dublinense, o público da Não acaba sendo os próprios escritores e pessoas do círculo literário. Fora disto, o mercado para livros fora do padrão é difícil e pequeno e o público precisa ser testado.

A psicóloga Fernanda Rosa acredita que a inclinação para certos gêneros literários está ligada às vivências individuais. Consequentemente, pessoas com vivências difíceis podem se sentir impelidas a ler autoajuda. No entanto, a seção de destaques nas livrarias chamam a atenção justamente para os mais vendidos e populares, exercendo influência sobre as escolhas. “Mais as coisas são vistas, mais as pessoas se interessam”, opina Fernanda. Dessa forma, a bolha literária mais ampla, abrangendo a literatura de massas, é mais chamativa e de fácil acesso.

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