Marcas feitas por mulheres estão ganhando espaço no ramo do empreendedorismo

As mulheres passam suas habilidades para o empreendedorismo e fazem disso um negócio

  • Por: Fernanda Nudelman (2º semestre) | Foto: Nícolas Chidem (6º semestre) | 06/12/2018 | 0

Antigamente, os únicos deveres da mulher eram cuidar da casa, dos filhos, fazer compras e manter as aparências da família para a sociedade. A partir da I Guerra Mundial, os papéis começaram a ser divididos e oportunidades foram abertas para as mulheres. Esse movimento tomou uma proporção maior no fim da II Guerra, momento em que muitos homens morreram e os sobreviventes, muitas vezes mutilados, não se viram mais capazes de prover o sustento para a família. Dessa forma, deu-se o início do mundo atual, com mulheres que têm dois ou até três turnos e participam efetivamente do mercado de trabalho, cuidam dos filhos e mantêm a casa em ordem. Hoje, o número total de mulheres no ramo do empreendimento chega a 23,9 milhões.

Em relatório feito pela Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE), no ano de 2017, a taxa de mulheres que tinham um empreendimento em estágio inicial era de 20,7% enquanto a de homens era de 19,9%. Já nos estabelecimentos fixos, os homens levam uma vantagem de 2,2 pontos percentuais, ficando com 18,6%.

Além disso, outros obstáculos atrapalham o caminho da mulher que busca independência e igualdade; salários desiguais e o constante sentimento de incapacidade, por exemplo, rondam essa jornada. Porém, não é preciso olhar somente para esses fatores.

De mulheres, para mulheres

Duas alunas do curso de Engenharia de Materiais da UFRGS estavam insatisfeitas com o futuro profissional que as esperavam quando a Herself surgiu, a primeira marca com produção brasileira de calcinhas absorventes reutilizáveis.  Ao mesmo tempo que o produto era desenvolvido, outra marca se lançava no mercado. Raissa Assmann Kist, uma das sócias-fundadoras, afirma que, para conseguir entrar no mercado, foi preciso fazer um financiamento coletivo. “A Pantys (marca lançada anteriormente) é uma importadora, já entraram com o produto finalizado e com o e-commerce. A gente entrou no mesmo momento, mas com o financiamento coletivo”, ressalta ela.

A marca de calcinhas menstruais já possui dois pontos de vendas, tem redes sociais sempre ativas e uma ótima interação com o público. Raissa, conta que elas sentiram a necessidade de criar um produto que mirasse todas as mulheres. “O mercado dos absorventes é da década de 30, não tem inovação. Ninguém perguntava para elas (as mulheres) e elas também não falavam, é um tabu pouco explorado, então não se tinha clareza de que era importante ter inovação”, declara ela.

Em 2016, a dupla participou de um edital sobre negócios socioambientais com um produto de embalagens reutilizáveis. Embora o projeto tenha sido barrado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), elas afirmam que ter participado foi de suma importância para o desenvolvimento da Herself, que surgiria no ano seguinte. “Pesquisando e conversando com outras mulheres a gente entendeu que (o uso de absorventes descartáveis) era um problema de muitas delas, muitas sofriam com isso. Elas se sentiam incomodadas, atrapalhava na rotina, mas, como não havia outras opções, acabavam se acostumando”, afirma Raissa.

Segundo ela, o início da jornada para entrar no mundo dos negócios foi difícil. Enquanto buscavam potenciais parceiros, sentiam que sua ideia era menosprezada, que por serem mulher e estudantes não recebiam o retorno que pensavam ter. Além disso, ouviam muitos homens questionando se realmente era um problema que precisa de atenção. Porém, ela conta que, diferente do cenário empresarial, quem participa de questões sócio-ambientais já está acostumado com a presença de mulheres, e nesses espaços elas se sentiam mais respeitadas.

Empreendedorismo

Embora o pensamento de senso comum associe empreendedorismo com autonomia empresarial, esse ramo de negócio está conectado apenas com mudança e inovação. “É um conceito relacionado com intraempreendedorismo; a pessoa pode estar atuando dentro de uma organização, sendo funcionária com CLT e, ao mesmo tempo, ter um espírito empreendedor dentro daquela empresa”, afirma a Profa. Dra. Ionara Rech, coordenadora do curso de administração da PUCRS.

No mercado, existem outros produtos que buscam diminuir ou acabar com os descartáveis menstruais, como o coletor menstrual, mas nem todos têm garantia de adaptação. Raissa e Nicole, a outra sócia-fundadora, tiveram retornos de clientes que diziam ter alergias aos absorventes e que, após experimentar a calcinha, seus problemas foram resolvidos. A coordenadora do curso de administração afirma que é o mercado quem define se o produto é inovador. “A inovação não é simplesmente a ideia ou a criatividade, mas sim esses dois fatores colocados em prática e tendo sucesso”, acrescenta Ionara.

A ideia básica do produto era, segundo a sócia-fundadora Raissa, pensar em uma versão nacional do produto que já existe em outros países. “Pensamos numa modelagem com matéria prima, mão de obra e tecnologia totalmente nacional. Pensamos também que ela deveria ser a mais fininha possível, lembrando as que as brasileiras utilizam e com a proposta de fazer um produto que, além de tudo, fizesse a diferença”, explica ela. Para conseguir a tecnologia que é usada nas calcinhas, ela falou que as duas precisaram buscar parceiros e empresas que auxiliassem nos testes. “Era uma tecnologia que já era utilizada em outras coisas, mas ela nunca tinha sido aplicada para essa função; então era um desafio, mas não era impossível”, comenta.

Impacto Ambiental

A questão do meio ambiente, foi essencial para que esse projeto funcionasse. “Uma mulher menstrua por aproximadamente 40 anos; se ela utiliza absorventes descartáveis todo mês durante esses anos anos, chega a quase 10.000 unidades de absorventes jogadas no lixo por mulher. Como as mulheres são ½ da população brasileira, na verdade são milhões de absorventes que demoram centenas de anos para serem decompostos”, relata Raíssa. Uma calcinha menstrual dura em torno de dois anos, portanto, além de ser econômico, é mais benéfico ao meio ambiente.

A coordenadora do curso de Administração acredita que a sociedade ainda não tem um consumo consciente: basta olhar as ações do cotidiano, argumenta. Segundo Ionara, a consciência das pessoas costuma não ultrapassar o limite da zona de conforto. “Acho que é um assunto que está em voga, precisa informar mais sobre a questão de consumo sustentável, meio ambiente e sustentabilidade”, projeta.

As sócias visam estimular o diálogo acerca de assuntos como meio ambiente e até mesmo autoconhecimento. “Buscamos desconstruir alguns preconceitos,  ideias limitantes e padrões que são, teoricamente, sociais para que possamos ajudar mais mulheres a se sentirem livres para se conhecerem e, consequentemente, se verem empoderadas para viver com mais liberdade na rotina”, coloca Raissa.

Além desse compromisso ambiental, as campanhas da Herself também cooperam para que as clientes da marca e outras mulheres possam desenvolver um sentimento de amor próprio e autoaceitação. Geralmente, o universo da moda apresenta modelos com um padrão de estética muito rigoroso e considerado inalcançável por mulheres fora dessa realidade. A partir de tais padrões, a marca assumiu, também, um dever social. “Cabe principalmente à Herself valorizar o singular. Então não há nada mais coerente do que a gente entender que a mulher precisa se sentir bem da maneira como ela é, sem compará-la com outras e, assim, quebrando o sentimento de padronização que a mídia estimula”, acrescenta Raissa.

Nessa linha de empreendimentos ligados ao consumo consciente, à sustentabilidade e ao bem estar das mulheres, existem outras alternativas tão ecológicas, econômicas e práticas quanto as calcinhas menstruais. Produtos como coletor menstrual e absorvente ecológico, com diversas marcas como a Herself, Pantys e Korui. Essas iniciativas mostram que, apesar do preconceito, as mulheres estão conquistando um espaço significativo no ramo do empreendedorismo; e, consequentemente, fazem um serviço a outras mulheres.

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