Moda para todo mundo ver

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Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do IBGE, estima-se que existam 180 milhões de deficientes visuais em todo o mundo, dentre os quais 45 milhões são cegos e 135 milhões apresentam baixa visão. A maioria dos casos de cegueira ocorre nos países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento, como o Brasil. A previsões da OMS é que o número de cegos dobre até 2020. Essas pessoas têm diversas dificuldades no dia-a-dia e qualquer forma de driblar alguns dos problemas habituais é muito bem-vinda. Escolher a roupa adequada, combinar as cores e saber se está do lado correto já não são empecilhos para esse público.

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Junto com a formação em Design de Moda pela Feevale, Felipe Sosa, 23 anos, estudou as deficiências visuais e como elas interferem na vida do ser humano, do nascimento até a vida adulta. “Frequentei a Associação de Cegos do Rio Grande do Sul (Acergs), acompanhei de perto as necessidades e características dos deficientes visuais. Leituras de biografias e estudo das obras de grandes artistas que foram deficientes visuais, como Monet, Helen Keller, Jorge Luis Borges, também fizeram parte do estudo”, afirma Sosa.

Assim, a coleção “Invisível – moda além da visão” surgiu a partir da reflexão sobre a cegueira da moda em relação aos deficientes visuais. “Após um estudo teórico e analítico percebi que a moda, infelizmente, ainda é uma indústria excludente. Inserida num ambiente cultural, político e social, cumpre papeis além de o simples vestir, diferenciando pessoas por classes, raças, tamanhos, gêneros, cultura, entre outros”, explica o estilista. A maior dificuldade foi desenvolver uma coleção de moda, que normalmente é repleta de estímulos visuais, em algo acessível, inclusivo, desejável e contemporâneo. Para conseguir o bom resultado, a solução foi ergonomia, muito estudo, reflexão e inspiração.

A coleção conta com peças amplas que facilitam o movimento e uma modelagem ergonômica. A estamparia é texturizada na própria seda italiana, e cada pincelada visível é compreendida através do toque. Já as peças lisas são desenvolvidas com um tecido que tem rápida secagem e dispensa a necessidade de serem passadas, uma das dificuldades dos deficientes visuais. Os modelos em pele são reversíveis, como toda a coleção, assim a possibilidade de erro ao usar a peça do avesso é inexistente. Os bolsos, cós, botões e zíperes, foram eliminados para dar maior conforto e funcionalidade às peças. As etiquetas são em braile e contém informações com descrição do modelo, cor, tamanho e preço. Com todos esses cuidados, o resultado é um trabalho limpo de estímulos visuais, porém, repleto de estudo e boas intenções.

O objetivo é não ter discriminação na moda. Por isso as peças são desenvolvidas para todos os consumidores, porém, com um cuidado especial com os deficientes visuais. “A deficiência visual, para mim, é pura inspiração. Percebi que, de fato, o essencial é invisível aos olhos. Aprendi muito com esta causa e percebo que meu trabalho fica ainda mais especial. Pretendo seguir neste nicho, aproximando novos consumidores da minha moda”, explica Sosa, que desconhece outra iniciativa semelhante.
Felipe trabalha como produtor de figurino da RBSTV (afiliada da Rede Globo), TVCOM e Canal Rural. Continua desenvolvendo sua segunda coleção com um número maior de produtos, que inclui alfaiataria, sapatos e bolsas, e ainda uma nova linha, chamada “Braille Basics”.

Texto: Natália Mauro

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