Nos últimos cem anos, temperatura da Terra subiu 1ºC

As emissões, gasosas e sólidas, geram consequências que vão do aquecimento global a problemas de saúde

  • Por: Manuela Neves (4º semestre) | Foto: Bernardo Speck (6º semestre) | 02/01/2019 | 0

O Acordo de Paris, assinado em 2015, determinou o objetivo de manter o aquecimento global abaixo dos 2ºC até o fim do século, sendo 1,5ºC o ideal. No entanto, se as emissões de gases continuarem como estão, o aumento de 1,5ºC será atingido já em 2040. O professor titular Nelson Fontoura, da Pontifícia Universidade do Rio Grande do Sul (PUCRS), explica que em 17 mil anos a temperatura subiu 6ºC, o que mudou a fisionomia do mundo e levou muitas espécies à extinção. Na última centena de anos, o aquecimento acelerou, subindo 1ºC. “Então a questão não é só o quanto a temperatura sobe, mas a velocidade com a qual ela está subindo”, diz o professor.

Como outros tipos de poluição envolvem resíduos visíveis, é mais fácil para as pessoas perceberem como algo negativo e prejudicial – além de ter maior divulgação. No entanto, o aquecimento global decorrente da maior concentração de gás carbônico é menos perceptível, sendo que dentro da expectativa de vida de uma pessoa quase não é notado. Além disso, para a população em geral 1ºC não parece grave quando em um dia há uma amplitude térmica de até 10ºC. Fontoura fala que ao lançar “o CO2 na atmosfera ao mesmo tempo em que a gente tem uma intensificação do efeito estufa e aumento da temperatura, esse gás carbônico dissolvido na água, especialmente na água do mar, se liga à molécula dela e forma ácido carbônico”, que acidifica a água marinha.  Como consequência da acidificação, organismos marinhos têm dificuldade de formar seu endo ou exosqueleto (segundo o dicionário Michaelis, são, respectivamente, o esqueleto interno e o revestimento externo, de quitina ou calcário, presente nos invertebrados). Quando a temperatura da água atinge cerca de 26,5ºC é gerada energia suficiente para um furacão, visto que quanto mais quente a atmosfera, mais quente o mar, pois a energia é transferida para este.

No Brasil, segundo o Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG), o maior meio de emissão é a mudança do uso da terra e floresta, seguido pela agropecuária e energia – dados de 2016. E em setembro deste ano, o nível mundial de gás carbônico na atmosfera estava em 405 partes por milhão (ppm), o nível mais alto desde pelo menos os últimos 800.000 anos – informação do NOAA Climate.gov. “O CO2 é antropogênico, é relacionado com atividade humana, porque se manteve constante por muitos, muitos anos até a Revolução Industrial e depois começou a subir”, explica Sandra Einloft, decana da Escola Politécnica da PUCRS.

A decana diz que “o CO2 pode vir de várias fontes. Uma delas é da produção de energia, contendo gases exaustos (inativos). Dentre os gases exaustos tu vai ter CO2 e nitrogênio, entre outras coisas, mas principalmente CO2 e nitrogênio. O nitrogênio a gente pode usar também para outros fins ou até pôr na atmosfera, é um gás inerte. E o CO2 também pode ser usado para re-injetar em um poço e tirar mais petróleo ou usá-lo para fazer outros produtos químicos, como o etanol, como o carbonato, várias outras coisas”. Junto com Franciele Longaray Bernard, professora da Escola de Ciências da PUCRS, Sandra trabalha na pesquisa e confecção de materiais que separam o gás carbônico de outros gases. Na extração de gás natural, por exemplo, há uma taxa máxima de dióxido de carbono permitida, sendo necessária a separação, feita com membranas e outros materiais.

A planta pata de vaca é um bioindicador de poluição que, em lugares muito poluídos, pode morrer. Foto: Bernardo Speck (6º semestre)

No entanto, o aquecimento global decorrente da emissão de gases estufa não é a única preocupação. Há também a qualidade do ar, determinada pelo nível de poluição, sendo esta  composta por uma parte gasosa e outra particulada. A professora associada da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), Cláudia Rhoden, estuda os efeitos da qualidade do ar na saúde humana. Ela faz parte do Laboratório de Poluição Atmosférica onde trabalha com bioindicadores da qualidade do ar. “Os seres vivos normalmente reagem frente a alguma coisa, então tem plantas que param de crescer, que a folha cai, que têm alteração genética. E se eu tenho essa planta, por exemplo, em um lugar com índices de poluição altos eu consigo medir as alterações na planta e fazer uma comparação com os níveis de presença de gases naquela atmosfera onde ela está e tentar fazer correlações”, diz Cláudia. Em Porto Alegre, o bioindicador utilizado é a Pata de Vaca, planta ornamental, muito comum na cidade. Ainda é analisado o botão antes da planta florir para buscar o grão de pólen, pois em locais muito poluídos acontece o abortamento deste, chamado de abortamento polínico. Tal análise é feita em laboratório no microscópio, utilizando uma lâmina.

 

SEM ESTAÇÕES DE MONITORAMENTO DO AR

Em Porto Alegre, não há mais estações de monitoramento do ar em funcionamento, dessa forma não se tem índices específicos de como está a poluição atmosférica na cidade. Isso porque a Secretaria Municipal do Meio Ambiente (SMAM) passou por problemas financeiros no fim de 2017 e não conseguiu mais mantê-las. Desde então, a Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) tem uma noção da qualidade do ar da capital gaúcha a partir do monitoramento de cidades próximas. A fundação faz esse controle nos municípios de Guaíba, Esteio, Canoas, Gravataí, Triunfo e Charqueadas e também controla emissões fixas de empresas. Márcio D’Ávila, chefe da divisão de monitoramento da Fepam, diz que não conseguem monitorar fontes móveis, como carros e ônibus, havendo somente estudos de inventário sobre.

Quanto às emissões das empresas, D’Ávila esclarece que geralmente se faz controle das chaminés de emissão para a atmosfera, tendo dados online e amostragens mensais, bianuais ou anuais, dependendo do tipo de poluente da empresa. Depois os resultados são comparados com os valores da licença concedida à empresa. “O que rege essas emissões, esse controle, é a lei federal, a lei do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama)”, diz Márcio D’Ávila. Dessa forma, somente para alguns casos específicos que a lei utilizada é estadual (Conselho Estadual do Meio Ambiente – Concema ou Fepam), como no caso da queima de algum resíduo em fornos de clínquer, do cimento, que têm legislação específica no Concema. Fora isso, a Fepam estabelece parâmetros para emissões de fontes fixas em uma diretriz sua, com base na legislação federal. No site da fundação é possível que qualquer um entre e veja os boletins diários das estações de monitoramento, com dados sobre a qualidade atmosférica e poluentes monitorados, além das emissões fixas das empresas.

A poluição automotora é principal poluidora do ar em Porto Alegre, conforme a professora da UFCSPA: “Nós medimos o ozônio, medimos o NO2 e vimos que quanto mais gente, quanto mais carros, maior é a quantidade desses gases e maior é a quantidade de aborto polínico”. O dióxido de nitrogênio (NO2) é liberado na queima da gasolina, enquanto o ozônio é formado a partir da reação do NO2 com a luz do sol, sendo um componente altamente oxidativo responsável por alterações respirações. Entretanto, o que mais afeta a saúde humana é o material particulado, algo como uma poeira, que é dividido em partículas ultrafinas (0,01 µg), finas (2,5 µg) e grosseiras (10 µg). As finas e ultrafinas são as que passam pelos cílios da narina e podem ir para o pulmão, iniciando uma série de reações. Dentre elas, pode haver doenças pulmonares e no restante do organismo, já que o material particulado também pode levar consigo bactérias, vírus e metais altamente tóxicos. No dia 21 de novembro, o Conama revogou as resolução de 1990, substituindo-as. Dentre elas, agora ficou estabelecido que materiais particulados grosseiros em suspensão no ar não deve passar de 120 µg/m³ em 24h. Caso cheguem a  250 µg/m³, entra-se em estado de atenção e em 420 µg/m³, estado de alerta. Já os materiais particulados finos não devem passar de 60 µg/m³ no mesmo período de tempo.

 

CÂNCER DE PULMÃO

Em 2013, a Organização Mundial da Saúde (OMS) colocou a poluição atmosférica como indutor de câncer de pulmão, semelhante ao cigarro. Ainda segundo a organização, 92% da população mundial vive com a qualidade do ar comprometida, sendo que 4,2 milhões de indivíduos morrem anualmente por conta da poluição externa e outros 3,8 milhões por conta da poluição interna, causada, por exemplo, pelo uso de fogões à lenha e lareiras. Cláudia Rhoden explica que outras complicações de saúde causadas pela poluição da atmosfera são arritmia, morte súbita, infarto agudo do miocárdio, asma agravada, alterações neurológicas, comportamentais, de fertilidade, obesidade, diabetes e crianças geradas em ambiente poluído têm no futuro déficit cognitivo e dificuldade de aprendizado.

A professora ainda explica que o modal de transporte público no Brasil é o ônibus, altamente poluente. Isso por conta de problemas na qualidade dos motores, quantidade da queima de diesel, que polui muito mais que a gasolina, e má qualidade dos asfaltos, que soltam partículas. Além disso, os carros quando utilizados normalmente têm somente até duas pessoas. “No horário de pico, início da manhã e final da tarde, existe um aumento de 20 a 30% na emissão dos poluentes”, sustenta Cláudia Rhoden. Por conseguinte, correr em parques ou ar livre em geral não é recomendado nessas faixas de horário, visto que respira-se todos os poluentes do ar.

Na capital gaúcha, quem fica em paradas de ônibus tem 2,3% mais chances de sofrer morte súbita do que aqueles que não ficam em paradas, sendo o mesmo risco válido também para quem está dentro do ônibus. No último ano, o nível de material particulado na cidade era quatro vezes mais alto que o recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). E Cláudia comenta que “eu sei que o ar faz mal, a população talvez não saiba o quão mal isso pode te fazer”.

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