“O antídoto para fake news é jornalismo de qualidade”, diz Marcelo Rech

Experiente nas redações, o presidente da Associação Nacional dos Jornais (ANJ) reflete sobre o fazer jornalístico e o futuro da reportagem

  • Por: Italo Bertão Filho (3° semestre) | Foto: Igor Janczura Dreher (3° semestre) | 11/04/2017 | 0
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Marcelo Rech participou do último painel do Fórum da Liberdade


Marcelo Rech é, por essência, um repórter. Hoje dedicado a funções executivas — é presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ) e vice-presidente editorial do Grupo RBS — escreve menos, mas ainda marca presença em Zero Hora com artigos de opinião. Rech começou na carreira em 1979, na Rádio Gaúcha. Já foi de tudo nas redações: copydesk, pauteiro, repórter especial, editor-chefe, chefe de redação e diretor de jornais do conglomerado dos Sirotsky. Participante do painel Os Limites da Democracia do 30º Fórum da Liberdade, Rech concedeu uma entrevista exclusiva ao Editorial J.

Editorial J — Qual é o futuro do jornal impresso?

Marcelo Rech — Quem vai dizer é o usuário. A televisão tem futuro? A revista tem futuro? O mobile tem futuro? O usuário é quem vai dizer. É importante dizer que nós, jornalistas, não estamos no ramo da impressão de jornal, e sim, no ramo da produção e difusão de conteúdo. Nossa obrigação é produzir conteúdos da forma conveniente para o usuário. Se ele quiser ler, ele vai ter escrito. Se quiser em vídeo, ele terá em vídeo. Nossa obrigação não é nos preocuparmos muito com plataforma. Isso é secundário. A preocupação deve ser em relação à qualidade e atratividade que nós estamos gerando na plataforma que for. Esse é o nosso papel daqui pra frente.

J — O futuro então é a reportagem, não a plataforma?

Rech — A plataforma é meio. Estamos vivendo numa era em que dá para dividir entre os médicos profissionais e os charlatões. Os jornalistas profissionais serão os médicos. Haverá um monte de gente, amadoristicamente e de boa ou má fé, que vai dar a receita do chazinho, a receita pra curar tosse, o resfriado. Numa situação mais séria, quando o sujeito realmente precisa de uma informação mais qualificada, ele vai procurar o veículo ou o jornalista profissional, uma grife, seja num blog, seja num site, seja num veículo grande. Dependendo da necessidade, ele vai buscar cada vez mais um especialista. Você vai ter jornalistas, assim como os médicos, com mais e menos reputação. Alguns veículos serão centros de referência, outros serão questionáveis. As pessoas não vão deixar de trocar receita de chazinho pra curar a tosse. Isso vai acontecer sempre. Mas na hora da necessidade, (elas) vão procurar um médico. Nós somos o médico da informação.

J — A imprensa está preparada para isso?

Rech — Poucos profissionais e veículos estão preparados para o nível de exigência que esse cenário novo estabelece. De uma forma geral, ainda estamos fazendo jornalismo como nós fazíamos há 40 anos, ou até pior em algumas situações, achando que dar uma notícia é suficiente. O futuro está em nós irmos além das aparências e fazer mais investigação e reportagem, procurar as conexões e oferecer uma análise apurada de expert, de entendido e oferecer isso em cinco minutos, não mais em cinco dias ou cinco anos.

J — Dessa forma, o jornalista não deixa de ser um generalista?

Rech — Ele até pode ser um generalista, se a especialidade dele é ser generalista. Basta analisar o caso dos lançamento dos mísseis pelos Estados Unidos na Síria. Na terceira informação que dizia a mesma coisa, não tinha mais valor. Vários veículos de comunicação americanos em questão de minutos, eu diria de 10, 15 minutos, já tinham um expert, um analista, gráficos. Gente analisando o que significava essa mudança não só do ponto de vista militar, mas do ponto de vista político. Haverá jornalistas que serão generalistas e haverá aqueles que procurarão especialistas para oferecer a sua opinião em relação a uma informação que todos já têm.

J — Sobretudo em redes sociais, encontra-se uma crítica à cobertura dos grandes veículos durante o processo de impeachment, acusando-os de “mídia golpista”. Como interpretar este tipo de crítica aos jornais?

Rech — Nas redes se encontra de tudo, inclusive muitos que acham a mídia esquerdista. A mídia não é um tecido único. Há veículos que defenderam o impeachment e outros que o condenaram. De uma forma geral, porém, entendo que os veículos defenderam o segmentos dos ritos e preceitos constitucionais.

J — Como o jornalista pode lidar com as fake news?

Rech — O antídoto para fake news é jornalismo de qualidade. Não há dúvida que as redes sociais, em particular o Facebook, distorceram a noção de informações críveis. O algoritmo privilegia informação que tende a ser mais compartilhada. Informação compartilhada é informação que gera informação porque gera dados sobre o usuário que o algoritmo busca. Essa noção de qualidade e credibilidade foi completamente distorcida. Tudo que está sendo feito até agora pelos gigantes digitais está muito mais no campo das relações públicas do que encontrar uma solução global que valha tanto para os Estados Unidos quanto para a África do Sul. Eles precisarão mexer no algoritmo privilegiando veículos de jornalistas tradicionais ou pessoas que tenham credibilidade. Vão ter que botar menos curandeiro e mais médico. O médico vive do acerto, não do diagnóstico errado. Ele até comete erros de diagnóstico, comete falhas, comete erros de análise, mas como os jornalistas, buscam o acerto. Diferente do picareta que está ali para enganar as pessoas. Eles vão ter que abrir mão de receita ou de informação. Se continuar assim, quem vai perder são os gigantes digitais, que vão ficar irrelevantes e perder receita por causa da má reputação. Mais de 200 anunciantes retiraram anúncios do YouTube semana passada porque os anúncios estavam caindo em sites xenófobos, homofóbicos, em defesa do terrorismo. No fundo, vai ter que passar por uma autorregulação, estabelecendo um modelo complementar com o jornalismo profissional.

J — Isso não faz os veículos serem reféns dos gigantes digitais?

Rech — Acho que isso começou a mudar. Nós estávamos e ainda estamos, de uma forma geral, completamente reféns dos gigantes digitais, sobretudo no campo da distribuição. Antigamente tinha a antena, a rotativa e as rotas de distribuição da revista, do jornal. Hoje, quem detém a distribuição de forma majoritária são as redes sociais. Poucos publishers tomaram a decisão de ficar fora do Facebook. É uma decisão muito difícil. A maioria está (no Facebook), ainda que de maneira controlada. Creio que começou a cair a ficha do Facebook e do Google. Eles vão ter que trabalhar com jornalistas profissionais, de alguma forma, para se manter, para sobreviver. O fato deles estarem dispostos a pagar agências de fact-checking já é um sinal. Eles nunca fizeram isso. Sempre se valeram do trabalho escravo de bilhões de pessoas para produzir conteúdos e dados sobre elas mesmas para venderem conteúdo para outras pessoas. São indústrias de manipulação, que usam milhões e milhões de dólares para difundir a desinformação. São países inteiros, a China, a Rússia, gerando uma torrente de informação falsa para obter ganhos políticos e econômicos.

J — Por causa disso, Zero Hora tem apostado mais em reportagem?

Rech — Historicamente, o jornal investiu muito em reportagem. Entendo que, mesmo numa época de crise econômica, este é um espaço que não só está assegurado como se procura qualificá-lo cada vez mais. Os jornais da Caldas Júnior tinham muita coluna, muita colaboração, muito artigo e alguma reportagem. Zero Hora teve uma decisão estratégica de contratar grandes repórteres e de dar espaço para eles, que palmilharam o Rio Grande do Sul atrás de histórias. Eu fui correspondente de guerra. Não é só estar na linha de frente. Na maioria das vezes, a grande reportagem está a 500 metros da gente. Não precisa atravessar o mundo necessariamente. Toda pessoa potencialmente gera uma reportagem, dependendo da habilidade, da sensação e do texto do repórter. Não adianta o sujeito se sujar na rua e sair um texto medíocre na redação. Prefiro um repórter médio com grande capacidade de traduzir emoções do que um repórter que mergulha no esgoto e volta com um texto meia-boca.

J — Há futuro para a reportagem?

Rech — Não há futuro sem reportagem. Se o futuro é jornalismo de qualidade como contraponto à desinformação, a reportagem está no topo da pirâmide. A reportagem é o que traz mais dignidade para o jornalismo. Mais que o jornalismo de análise, de opinião. O que gera um conteúdo único é a reportagem. É o chão de fábrica. A pessoa mais importante numa redação é o repórter. É a pessoa essencial não só para buscar as informações na rua, o que é uma bobagem. O repórter é quem vai enxergar o mundo e traduzi-lo para o leitor, ouvinte, telespectador e internauta de uma forma profissional e independente, mais precisa possível, que não troque milhão por bilhão, que não erre sobrenome das pessoas. Tudo isso gera credibilidade. Embora a figura do repórter seja classificada, infelizmente, como uma profissão em decadência, eu acho o contrário. Nós vamos precisar cada vez mais de médicos que convivam e conversam com o paciente. Esse é o repórter.