O intrigante som das cigarras

Nada discreto, o canto das cigarras chama a atenção, bem como a presença na vegetação destes insetos que passam maior parte da vida no subsolo

  • Por: Manuela Neves (4º semestre) | Foto: Nícolas Chidem (6º semestre) | 01/12/2018 | 0

Você reparou ultimamente em um som alto e agudo, provavelmente de algum inseto pendurado em galho de árvore? Na última semana de novembro, alunos, professores e funcionários da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) ouviram intrigados esse canto no campus da universidade. As causadoras do som estridente são, pelo menos, duas espécies de cigarras: Quesada gigas (Olivier, 1790) e Guyalna viridifemur (Walker, 1850). Cada uma emite um som diferente, pois cada espécie utiliza uma frequência sonora própria a fim de atrair parceiros para o acasalamento.

De novembro a março, geralmente, é a época de acasalamento destas espécies por conta do aumento de temperatura explica a pesquisadora Tatiana Ruschel, mestre em Zoologia pela PUCRS e doutoranda em Biologia Animal pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). O som que se ouve é sempre emitido pelos machos, que o usam para atrair as fêmeas.

Logo depois que eclodem os ovos, normalmente nos ramos ou gretas da casca das árvores, a ninfa ou larva da cigarra migra para o solo e se enterra, sendo seu primeiro par de pernas do tipo fossorial, adaptadas para escavação. Assim, sua fase jovem é passada subterraneamente, em um tempo de nove meses a 17 anos – como é o caso de algumas cigarras estadunidenses.

Após cinco mudas de exúvia (a carapaça muitas vezes encontrada nas árvores), sendo a quinta já fora da terra, a cigarra entra na fase adulta. Nesse período que pode variar de três dias a oito semanas dependendo da espécie, o inseto macho encontra uma parceira para copular e depois as fêmeas depositam seus ovos dentro de galhos nas árvores. As espécies encontradas no Brasil normalmente passam um ano enterradas na terra quando jovens, porém em locais como nos Estados Unidos, que ficam até 17 anos enterradas, há surtos de cigarras após esse número específico de anos.

O som que se ouve é produzido apenas pelos machos, especifica Tatiana Ruschel. “Eles possuem uma membrana em ambos os lados do primeiro segmento do abdômen, chamadas de tímbalo, que são conectados aos músculos. Os músculos realizam movimentos de contração e relaxamento sucessivos deformando essa membrana em uma frequência que pode variar de 120 a 600 repetições por segundo. A ressonância é feita graças aos sacos de ar presentes no abdômen”. Outras estruturas, os sacos aéreos e os opérculos, auxiliam os tímbalos na ampliação do som.

Os horários do canto se alternam de acordo com espécie. E a dificuldade em localizá-las visualmente, apesar do barulho, se deve ao fato de que, na fase adulta, as cigarras costumam ficar no topo das árvores. Tatiana acredita que o grande número de cigarras deve-se somente ao período normal de acasalamento delas, sem interferência de predadores. Ela diz que tais insetos não possuem predadores específicos, podendo ser aves, pequenos mamíferos ou até outros insetos

Tanto na fase de ninfa quanto já adultas, as cigarras alimentam-se de seiva, “visto que suas peças bucais são modificadas em um aparelho picador-sugador”, detalha Gervásio Carvalho, professor da PUCRS e doutor em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Dessa forma, as mandíbulas e maxilares das cigarras tem o formato de estiletes, além de dois canais que permitem circulação de saliva e seiva, e são chamadas de insetos fitófagos devido a sua dieta. Além disso, esses insetos não prejudicam os humanos diretamente, porém são pragas em plantações de café, com ocorrência principalmente em São Paulo e Minas Gerais.

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