O jornalismo no mapa da cidade

Em Porto Alegre, jornalista também é nome de rua

  • Por: Italo Bertão Filho (3º sem.) | Foto: Pedro Spieker (1º sem.) | 07/04/2017 | 0
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O Edíficio Hudson, sede do jornal Correio do Povo, é um dos endereços mais icônicos na história do jornalismo gaúcho.

Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo…

O Mapa, Mario Quintana

“Me deixa na esquina da Caldas Júnior com a Andradas”. Parece uma indicação banal de trajeto para quem trabalha ou estuda no Centro Histórico de Porto Alegre. Mas essa esquina não é apenas mais uma entre tantas na cidade. Ela guarda parte da memória do jornalismo no Rio Grande do Sul. De um lado da rua, está o Edifício Hudson, atual sede do jornal Correio do Povo e da Rádio Guaíba. Do outro, reina o prédio que hoje abriga o Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa e foi construído para ser a sede do jornal A Federação, que marcou a política estadual no começo do século 20. Em Porto Alegre, muitas esquinas e ruas como essa preservam não só a história do jornalismo, mas também a do Rio Grande do Sul e do Brasil. Apesar disso, ao homenagear personagens marcantes e figuras ilustres — algumas nem tão ilustres assim — a Capital seguiu a moda brasileira na hora de batizar suas ruas. Entre duques, viscondes, ditadores e presidentes, pelo menos 87 dos 9.778 logradouros da cidade fazem referências ao jornalismo, sendo 57 ruas, 11 avenidas, 9 praças, 5 travessas, 3 largos e um parque.

O Centro abriga a maior quantidade de homenagens: são 11 logradouros com referências ao jornalismo, que vão desde vias importantes da Capital como a Avenida Júlio de Castilhos até uma pequena travessa de nome curioso, chamada Mário Cinco Paus, que liga a Uruguai à Borges de Medeiros. “Muita gente especula a origem do sobrenome, mas era dele mesmo, não era apelido”, afirma o escritor e jornalista Rafael Guimaraens, autor do livro A tragédia da Rua da Praia. A obra apresenta a figura de Mário Cinco Paus, repórter que marcou a vida e a história da cidade.

No começo do século 20, Porto Alegre era uma cidade calma que ainda estava muito longe de ser uma metrópole — o último Censo, de 1900, acusara a existência de apenas 73.674 habitantes. Em setembro de 1911, o inverno parecia não querer dar espaço para a chegada da primavera. Mais uma tarde úmida transcorria, quando uma edição extra do jornal A Reforma foi às ruas. A manchete informava, em letras garrafais: “O Crime da Rua da Praia”. Os porto-alegrenses foram pegos de surpresa com uma trama digna de Hollywood: quatro bandidos russos invadiram uma casa de câmbio, mataram o gerente, roubaram dinheiro e joias e fugiram rapidamente pelas ruas do Centro. A saga folhetinesca virou filme, exibido nos cinemas da cidade, e terminou quando a Brigada Militar matou os pistoleiros nas águas do Rio Gravataí. Junto dos brigadianos, estava o intrépido Mário Cinco Paus, munido de seu bloquinho, reportando para o jornal O Diário.

Além de repórter, Mário Cinco Paus também era advogado, ou melhor, rábula: advogado não formado, mas conhecedor do Direito, que recebia autorização para atuar como provisionado. “Com a constituição positivista (de 1891), no início do século 20, ele virou advogado, por ser uma espécie de benfeitor. O Mário tinha uma vida comunitária ativa. Era uma pessoa bem conhecida na cidade”, explica Guimaraens. Outro episódio marcante envolvendo o repórter-rábula se refere a entrada do Brasil na II Guerra Mundial, em 1942. A população de Porto Alegre entrou em fúria e fez um quebra-quebra contra o comércio de imigrantes alemães e italianos — a Alemanha e Itália agora eram inimigas do Brasil. Enquanto isso, a Brigada Militar e o Exército apenas assistiam às cenas de vandalismo. “Um comerciante ia ser linchado pela população e o Mário defendeu ele, evitando o linchamento”, relembra Guimaraens.

Mário Cinco Paus circulou por várias publicações. Uma delas foi A Reforma, jornal dirigido por Francisco de Leonardo Truda, que hoje dá nome a uma pequena travessa localizada também no Centro, ligando a Avenida Mauá à Rua Siqueira Campos. Truda foi um dos fundadores do Diário de Notícias, criado em 1925. O jornal que incomodou a concorrência após ser comprado pelo magnata Assis Chateaubriand, dono dos Diários Associados, encerraria suas atividades em 1979. Anos depois, acabou homenageado com uma larga avenida de quase dois quilômetros de extensão, na Zona Sul.

Chateaubriand, que dá nome a uma avenida no bairro São Sebastião, tentou comprar várias vezes o Correio do Povo, concorrente direto do Diário, e nunca conseguiu. Certa vez, o paraibano veio a Porto Alegre para negociar a compra do jornal com Breno Caldas, filho do fundador e diretor-presidente da empresa entre os anos 1930 e 1980. Após mencionar a proposta, Chateaubriand ouviu do gaúcho que o jornal estava à venda sim: em todas as bancas do Rio Grande do Sul.

Aparentemente invencível, a Companhia Jornalística Caldas Júnior também foi o berço de inúmeras inovações na imprensa gaúcha. “Todas as inovações tecnológicas de um século e meio passaram por ela. Também como alvo de contestação histórica e como ninho de grandes nomes do jornalismo e da literatura do nosso estado”, afirma o jornalista e escritor Walter Galvani, que trabalhou em diferentes veículos da Caldas Júnior desde os anos 1950. Galvani escreveu o livro Um século de poder, lançado em 1995, quando o Correio do Povo completou 100 anos de existência. Na obra, Galvani relembra a trajetória do jornal e da Caldas Júnior. Muitas vezes, a história da empresa se entrelaçou com os fatos ocorridos no século 20. Seu poder era tão grande que fez o prefeito Antônio Brochado da Rocha mudar o nome da rua Paissandú para Caldas Júnior em 1944, após o jornal comprar uma nova sede na esquina da então Paissandú com a Andradas — o Edifício Hudson, onde está instalado até hoje.

Novos personagens no jogo de poder emulam velhos hábitos. Na batalha entre os conglomerados de mídia gaúchos, isso não foi diferente. Após a bancarrota da Caldas Júnior em meados dos anos 1980 — fazendo com que o Correio do Povo deixasse de circular entre 1984 e 1986 — quem se estabeleceu como líder na comunicação regional foi a RBS (Rede Brasil Sul). Repetindo a atitude de Brochado, o prefeito Alceu Collares resolveu agradar o grupo da família Sirotsky em 1987. Foi assim que, por pouco, a Avenida Ipiranga, endereço-sede do jornal Zero Hora e da Rádio Gaúcha, não seguiu o mesmo caminho da antiga Paissandú: passaria a se chamar Avenida Maurício Sirotsky Sobrinho, radialista, empresário e fundador da RBS, que falecera no ano anterior. A proposta foi encaminhada por Collares à Câmara de Vereadores, mas acabou rechaçada pelos transtornos que causaria. “Várias pessoas residentes na Avenida Ipiranga imaginam que a mudança de nome poderá trazer sérios transtornos, o que não está, de todo, afastado”, afirmou, à época, o vereador Jorge Goularte. Goularte propôs, então, um prêmio de consolação: a mudança de nome do Parque da Harmonia, recém inaugurado, para Parque Maurício Sirotsky Sobrinho.

Apesar de Mauricio ser uma figura conhecida do povo desde os tempos em que era animador de auditório na Rádio Gaúcha, poucos porto-alegrenses chamam o Parque da Harmonia pelo nome oficial. “(A questão) está relacionada com os embates sobre a memória do passado político local”, afirma o historiador Charles Monteiro, pós-doutor em história social pela Universidade de Sorbonne. Hoje, os vereadores detém o poder de batizar uma rua, mas nem sempre isso foi assim. “Entre o fim do século 18 e a metade do século 19, o nome das ruas era dado pelo costume (da população). A Câmara reconhecia o nome dado a rua pelo uso popular”, explica Monteiro. Atualmente, uma das principais atividades da Câmara de Vereadores é justamente nomear ruas: só em 2016, 40 dos 299 projetos de lei apresentados se referem ao assunto. “(O processo) se tornou uma forma de homenagear pessoas e angariar votos na Câmara Municipal”, entende o historiador.

Dar nome às ruas ainda sem nome da Capital é uma das principais tarefas do vereador João Carlos Nedel (PP), reeleito para o sexto mandato seguido nas eleições do ano passado. Nedel já nomeou 565 logradouros, o que representa quase 6% do total de logradouros da cidade. “Há 20 anos, quando ingressei aqui (na Câmara) tomei conhecimento de quase 3 mil logradouros sem denominação. Ter endereço é ter dignidade”, afirma Nedel. Em 2015, um projeto de lei do vereador Marcelo Sgarbossa (PT) propôs uma volta às origens: os vereadores não teriam mais o poder de dar nomes às ruas, ficando nas mãos do prefeito e dos moradores. “No passado talvez até justificasse que um vereador fosse até a comunidade fazer o trabalho de despachante. Hoje ele não é mais esse representante da opinião, que tem as informações que a população não tem”, explica Sgarbossa. Dois anos após ser proposto, o projeto do petista ainda está em tramitação.

Escolhidos ou não pelo parlamento municipal, há homenageados que se destacaram não pela sua atividade jornalística e sim pela sua atuação política. É o caso de Júlio de Castilhos, uma das figuras mais icônicas da política gaúcha e brasileira. Castilhos dá nome à uma das mais importantes avenidas do Centro e à uma praça no entroncamento das avenidas 24 de Outubro e Independência. A repetição nas homenagens é proibida pela Lei Orgânica do município. Mas a situação se verifica em outro logradouro: Archymedes Fortini, decano do jornalismo gaúcho, virou nome de rua e largo localizados no Centro.

Independente do debate político sobre o poder de nomear as ruas, é fato que os endereços do jornalismo fazem parte da memória coletiva. Um exemplo é o número 219 da Rua Caldas Júnior. Um endereço único para a história do jornalismo no Rio Grande do Sul. A “Casa de Caldas”, como era conhecida a redação do Correio do Povo, foi palco para os grandes acontecimentos do Estado e do Brasil durante todo o século 20. O histórico Edifício Hudson, sede da Companhia Jornalística Caldas Júnior, foi local de trabalho para inúmeras vidas que passaram por ali. Muitas dessas vidas, militantes da imprensa durante décadas, acabaram imortalizadas nas ruas de Porto Alegre. É o jornalismo cravado no mapa da cidade. O resto é história, de preferência, escrita em letra de imprensa.