O relicário de Ruth

Uma vez por semana, Ruth Régio, 85 anos, dedica um dia inteiro à limpeza de sua louçaria. Dentro de um armário envidraçado na sala de estar do apartamento onde vive em Porto Alegre estão cuidadosamente dispostos objetos de mais de cem anos. A coleção de utensílios de chá que ganhou no dia de seu casamento, no início dos anos 1950, permanece intacta. Em um lugar de destaque é possível ver uma única xícara rosa com detalhes em branco. Herança das bodas da mãe, que casou há mais de um século.

Quando Ruth passa o pano com tanto cuidado pela preciosa louça, não é apenas das xícaras e taças que ela tira o pó. É de seu próprio passado, que ela revive todos os dias. “Estar rodeada das coisas antigas me faz pensar que estou mais perto das lembranças”, explica. Pedaços de vida expostos, ao alcance da mão. Assim parece a casa de Ruth: um santuário de memórias. No hall de entrada, movéis também da época do casamento dos pais dividem o espaço com inúmeros quadros, de cartões postais que a sobrinha enviou da Espanha a uma pintura da antiga casa onde morava, na região da Cascata, em Pelotas. Natural de Pelotas, mudou-se para a Capital em meados dos anos 1960. Cercada de todos os seus antigos pertences, Ruth transformou em lar um pequeno apartamento na Cidade Baixa. A casa parece uma colorida confusão de retratos, miniaturas, cristais, flores e quadros, mas Ruth garante: tudo é minuciosamente organizado por ela. “Encontro tudo até no escuro”, brinca.

Na sala de estar, o conjunto de moveis de 60 anos abriga a louçaria e sustenta a pequena televisão. “Meu pai me deu essa mobília de presente de casamento”, conta Ruth. “Ele mandou fazer na melhor marcenaria de Pelotas. Na época não existiam móveis prontos. Hoje têm, mas são horríveis, não duram nem cinco anos”, reclama. Sobre a estante, mal se enxerga o pequeno televisor, rodeado por bibelôs e muitos porta-retratos. “Não gosto de televisão”, conta a aposentada. “Até gostava, mas hoje em dia só passa baixaria e crime.”

Na casa de Ruth, a TV é substituída pela música. A vitrola intacta – também presente de casamento – ainda toca seus tangos favoritos, gosto herdado da mãe uruguaia. “Gosto de coisas que digam alguma coisa, que tenham uma letra ou uma melodia bonita”, conta. Sobre as músicas contemporâneas, é categórica: “Tudo barulho”. Na verdade, são muitos os hábitos modernos que ela não incorporou. Celular? “Tenho sim”, afirma. “Só não sei onde está. Deixei dentro de uma bolsa qualquer e agora não encontro.”, diz, rindo.

No antiquário que é seu apartamento, os eletrodomésticos novos da cozinha destoam do resto do ambiente, mas Ruth explica, com pesar: “Levei meus eletrodomésticos antigos para a casa da praia, em Atlântida Sul, e comprei novos para a casa de Porto Alegre. A pior coisa que fiz!”. Os antigos utensílios – ainda presentes de matrimônio – funcionam perfeitamente, ela garante. A geladeira de apenas cinco anos, no entanto, “não vale um sabugo”. Ruth já está no segundo liquidificador – para ela, um absurdo. “Os jovens estão roubados”, adverte.

Ruth dorme há 60 anos na mesma cama, arruma-se na mesma penteadeira, guarda as roupas e os incontáveis chapéus no mesmo armário. Há 45 anos, faz tudo isso sozinha. Em 1966, perdeu o marido, Galba Vieiro Régio, para um câncer. O quarto do casal permanece intacto desde então.

Um espelho de mão repousa sobre a penteadeira – foi presente do aniversário de 15 anos. “São 70 anos refletidos neste espelhinho”, emociona-se a aposentada. Ao lado dele, um pequeníssimo armário envidraçado abriga bibelôs de diferentes épocas e lugares. “Gosto de guardar lembranças. Quando viajo, como não posso comprar coisas muito grandes, compro as miniaturas”, explica.

Não apenas na casa de Ruth estão acumuladas memórias. Ao redor de seu pescoço, os pingentes no colar revivem lugares e relembram pessoas. As fotos das duas netas dividem o espaço com adereços de várias cidades do mundo. Na vida desta mulher, as memórias são sólidas – feitas de madeira, de prata, guardadas em um armário ou em uma corrente perto do coração. “Depois de um tempo, acabamos não guardando mais as coisas presentes”, reflete Ruth. “Ficamos só com as coisas passadas.”

Em uma casa onde imperam as lembranças, o descarte dificilmente ganha espaço. A lógica é simples: Ruth compra pouco e guarda muito. Raramente seus pertences vão para o lixo. Em 2011 um celular comprado em 2009 pode até ser jogado fora, mas os móveis e utensílios de outro século que sustentam a vida da senhora octogenária são peças a serem mantidas. Se a cultura do descartável é lei no nosso tempo, Ruth é uma pessoa que pode se orgulhar de viver no passado.

Texto: Natália Otto. Foto: Felipe Dalla Valle

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