Os desafios dos esportes eletrônicos no Rio Grande do Sul

O crescimento do cenário de e-sport no Brasil e a centralização no eixo Rio-São Paulo

  • Por: Fernando Costa (2º semestre) | Foto: Divulgação/Riot Games | 19/11/2018 | 0

O mercado de e-sport está em crescimento por todo mundo. Os jogos eletrônicos reúnem cada vez mais adeptos, fãs e players. Em 2015, o mercado movimentou US$ 325 milhões. A expectativa é de que, em 2019, esse número chegue a US$ 1,1 bilhão. O Brasil segue bem nesse ramo. Atualmente, é a terceira maior potência quando o assunto é esportes eletrônicos, ficando atrás apenas da China e dos Estados Unidos. Segundo estudos da Newzoo, consultoria especializada em games, o número de brasileiros que se autodeclaram entusiastas, e que acompanham torneios online mais de uma vez por mês, está próximo dos 8 milhões.

O estudo também aponta que há, em média, 75,7 milhões de jogadores no Brasil, espalhados em plataformas como mobile, PC e consoles, sendo que 83% investiram dinheiro real em itens in-game e DLCs, conteúdos baixáveis com atualizações e modos diferentes de jogos, nos últimos 6 meses. Enquanto isso, 59% da população online assiste a vídeos relacionados a games.

Mesmo com todo esse envolvimento dos brasileiros com o e-sport, algumas coisas deixam a desejar. Sendo o Brasil um país continental, de grande área geográfica, quando o assunto é o competitivo, algumas facilidades são oferecidas às equipes do eixo Rio-São Paulo. O fundador da Redemption e-Sports, Pedro Sanchotene, defende que os esportes eletrônicos são totalmente democráticos, não tendo muitas diferenças para quem vive no Rio Grande do Sul ou em qualquer outro lugar. “O que dificulta é uma questão técnica que é o ping, o tempo de resposta do servidor, que em sua grande maioria são baseados em São Paulo. O cara que joga lá tem um ping 10, quem joga aqui fica entre 30 e 50 e quem joga no nordeste chega a 80”, explica Pedro. Esse tipo de problema só afeta quando se pensa em um jogo de alto nível, não interferindo tanto na vida dos jogadores casuais. “Para o cara virar pro player ele só tem que ser bom mesmo, indiferente de onde mora”, completa. Já para o campeão do Brasileirão de FIFA 17, Miguel “SpiderKong” Bilhar, jogar no Rio Grande do Sul é uma desvantagem: “Tudo é diferente. A internet, estrutura, agências que ajudam os pro players, eventos. Está tudo em São Paulo”, constatou.

A Redemption, equipe criada em Porto Alegre e que foi campeã do último Circuito Desafiante de League of Legends, precisou se mudar para São Paulo por ter se classificado para o CBLOL – Campeonato Brasileiro de League of Legends. Para o fundador do time, isso se deu por um único motivo: praticidade. “O CBLOL é um campeonato presencial, o time precisa estar em São Paulo. São jogos todas as semanas, pensando em investimento, é mais fácil o time morar lá do que viajar semanalmente. Mas isso muda de time para time, de jogo para jogo. Para o nosso funcionou, porque o núcleo deles está lá. Aqui, eles se sentiam até deslocados”. Para SpiderKong, a viagem para São Paulo está nos planos, mas ainda não aconteceu: “Já pensei em me mudar, mas acabou que ainda não foi extremamente necessário, então estou segurando as pontas por aqui”.

Se para os times viajar traz facilidades, para os jogadores não é diferente. Um pro player pode surgir em qualquer lugar do país, tanto no sul, como no nordeste ou no interior de São Paulo. E, no começo, isso não vai diferenciar ele de outros jogadores. Acontece que, para Pedro, em algum momento, o jogador vai ter que ir para o estado paulista. “É bem tranquilo, basta o cara jogar bem que um time vai achar ele. É mais fácil do que passar numa peneira de futebol, pra tu ter uma ideia, já que no site tem o ranking dos melhores jogadores do servidor. Mas, no fim, ir para São Paulo vai ser uma necessidade”.

Mesmo morando fora do centro do país, Miguel se sentiu reconhecido ao ser campeão brasileiro de FIFA: “Foi um dia espetacular. Uma experiência e sentimentos únicos de ser reconhecido no cenário”. Para ele, o Rio Grande do Sul tem muito a oferecer para o cenário de e-sports do Brasil “também temos outros gaúchos no FIFA, o Henrique ‘Zezinho23xX’ Lempke foi inclusive vice-campeão Mundial. Em relação ao RS receber eventos, especificamente de FIFA, acho que não temos público. Mas o CBLOL, por exemplo, esgotou o Araújo Vianna em minutos”.

Não tá fácil para os entusiastas no Rio Grande do Sul

Leonardo Masera, 22 anos, é estudante de Publicidade e Propaganda e gamer assumido. Jogador casual no console PlayStation 4, sente falta de eventos que alcancem também os entusiastas que não moram no sudeste brasileiro. “Eu gosto de jogar Rainbow Six Siege, por exemplo. Se eu quiser ir para uma final da Pro League, que é um dos campeonatos mais importantes do cenário e acontece duas vezes no ano, eu tenho que viajar até São Paulo ou Rio de Janeiro. Para quem estuda e trabalha é fora de questão”.

Já Bruno Souza, 30 anos, acredita que isso é um pouco culpa das estruturas oferecidas dentro do Estado. “Se algum campeonato acontecer aqui teria que ser em Porto Alegre e a gente sabe que não temos lugares bons e grandes o suficientes para tal. O jogo seria em uma Arena (do Grêmio) ou Beira Rio e daí o custo seria mais alto. Ou em algum lugar menor, como o Araújo Vianna, e os ingressos terminariam muito rápido”. O produtor de áudio acredita que o mercado está crescendo, mas que é preciso uma contrapartida também dos locais para receber eventos deste porte. “Tá tudo aí, acontecendo. Mas é preciso estar ligado ao mercado e entender que o esporte está crescendo e movimentando muito dinheiro e pessoas. Quem sair na frente, vai se sair melhor”.

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