Setembro Verde conscientiza famílias para efetivar a doação de órgãos

Hoje apenas a metade das famílias autoriza a doação mesmo com o desejo manifesto pelo doador

  • Por: Felipe Conte (2 semestre) e João Vitor Klein (1 semestre) | Foto: Tainá Costa (2 semestre) | 05/09/2019 | 0

Até oito vidas podem ser salvas com a doação de órgãos de uma pessoa, o que evidencia a importância dos familiares conhecerem o desejo de quem morre de ser doador pós-morte. Com o objetivo de conscientizar a população sobre a doação de órgãos foi criada a campanha “Setembro Verde”, que se estende durante este mês e é celebrada oficialmente no dia 27.

O Brasil é o segundo maior transplantador do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, conforme o Ministério da Saúde. Contudo, mais de 33 mil brasileiros aguardam, sem sucesso, por um órgão, desde o primeiro semestre de 2018, pelos dados da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO). O número elevado de pessoas em espera se deve ao alto índice de rejeição das famílias, as quais são responsáveis pela não efetivação da doação em 44% dos casos, em pesquisa divulgada pela ABTO. 

Atualmente, a Lei nº. 10.211, de 2001 em vigor no Brasil atesta que a doação só é permitida em caso de consentimento informado do desejo de doar, necessitando da autorização de um familiar por escrito. O senador Major Olimpio (PSL/SP) propôs, em 2019, a ementa PL 3.176/2019, que torna a doação de consentimento presumido, ou seja, considera-se o maior de 16 anos como doador até que o mesmo se manifeste contrário. O projeto, que aguarda relator na Comissão de Constituição em Justiça (CCJ), prevê que a escolha do cidadão seja registrada no documento de identidade (RG). O senador Lasier Martins (Pode/RS) já havia apresentado uma proposta semelhante, a qual autoriza a família a intervir somente quando o falecido não se manifestou expressamente em vida. A PLS 453/2017 foi aprovada no Senado e aguarda ser distribuída nas comissões da Câmara dos Deputados.

Jorge Neumann, médico imunologista e especialista em transplantes, da Santa Casa de Porto Alegre, se mostra contrário aos projetos de lei, pois acha que viria para atrapalhar mais do que ajudar. Ele conta que o Brasil já teve uma experiência com uma legislação semelhante à essa e resultou em desastre. “Houve uma manifestação espontânea das pessoas dizendo que não eram doadoras por puro medo de que se tivessem um acidente e fossem parar na UTI, elas seriam automaticamente declaradas doadoras, seria um óbito apressado para realizar a remoção dos órgãos”, relata. A norma durou pouco tempo, devido à mobilização para interrompê-la e voltar ao padrão anterior, que era consentimento familiar. Ele considera o assunto muito delicado, dado que se a sociedade tiver qualquer desconfiança em relação ao sistema, ela se retrai. “Essa é uma situação muito delicada, é a única atividade em medicina que não adianta ter um médico, um paciente e um hospital para resolver. É necessário um outro parceiro nisso que é a sociedade” Ele ainda destaca os quase 50% de recusa familiar para o ato e imagina que o número só aumentaria com a aprovação das leis. “Então, a princípio, sou contra porque acho que vai provocar, novamente, um refluxo de doação.

No Rio Grande do Sul, segundo a Central de Transplantes do Estado, 238 pessoas doaram órgãos no ano passado, beneficiando 882 pacientes. No entanto, 14.466 ainda ficaram na lista de espera. Devido à facilidade da doação em vida e possibilidade de viver com somente um, o órgão mais fornecido foi o rim, com 486 operações, também foi o mais procurado, com 11.642 pacientes ainda no aguardo. No outro extremo, o coração teve uma demanda de 209 casos, mas apenas 26 foram agraciados com o transplante, por conta da complexidade da cirurgia. 

O Hospital Dom Vicente Scherer, do Complexo Hospitalar Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, é referência internacional em transplantes. Mais da metade dos procedimentos que acontecem no Rio Grande do Sul é realizado pelo hospital, via SUS, de acordo com dados fornecidos pela assessoria de comunicação. Mesmo assim, a unidade poderia efetuar o dobro das 627 operações que realizou em 2018, em função da estrutura que dispõe. Para os responsáveis por este serviço, motivos como a tradição religiosa e mitos como a mutilação do corpo dificultam uma compreensão mais clara e legítima sobre a doação, por isso, campanhas como o “Setembro Verde” são essenciais para desmistificar o tema e aumentar o número de doadores. No primeiro semestre de 2019, aproximadamente, 230 transplantes de órgãos já foram realizados na Santa Casa.

João Carlos Elustondo, 65 anos, esperou cerca de três meses por um transplante de coração no Hospital de Clínicas, devido à insuficiência cardíaca. Ele, que recebeu o coração novo no início deste ano, considera um absurdo a lei de doação atualmente cumprida no Brasil, pois exige a autorização da família, mesmo que o desejo do falecido esteja expresso em documentos. O transplantado é favorável aos projetos que flexibilizam o processo, pois acredita que tudo que for feito para agilizar, é bem vindo. Entende que é fundamental aumentar o número de doadores, sendo necessário uma vivência concreta da situação. “Para convencer os doadores, levaria eles para um hospital e os colocaria-os em contato com quem está à espera de transplante, muitos, já dependendo de aparelhos para sobreviverem”. 

Os bastidores de uma sala de transplante de coração fascinaram João e teriam surpreendido quem o acompanhasse, garante o paciente. “Uma produção tipo filmes do Spielberg. São inúmeros profissionais envolvidos, verdadeiros heróis anônimos que nos trazem a felicidade de vermos novamente este mundão”. Ele acredita que não deve haver o contato entre família do doador e paciente, pois quando se trata do emocional, são vários os detalhes que envolvem as pessoas. “Na minha opinião, existe uma linha tênue nesta situação, que no meu entender, não devemos ultrapassar. Meu conselho, reze bastante para agradecer a benção recebida”, recomenda.  

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