Vozes da negritude: 50 Tons de Pretas dá voz à música brasileira

No Vale dos Sinos, banda de mulheres negras busca seu lugar no cenário musical

  • Por: Clarissa Freiberger (1º semestre) | Foto: Carolina Dill (1º semestre) e Rogério Soares/divulgação | 22/07/2019 | 0

Uma banda formada por mulheres negras que cantam suas raízes nascida no berço da colonização alemã no Brasil, na região do Vale dos Sinos. Não é ficção, é a banda 50 Tons de Pretas que tem à frente as cantoras e musicistas Dejeane Arruée e Graziela Pires, que veio para quebrar paradigmas, preconceitos e representar as mulheres negras na música. Elas se apresentam de maneira alegre e contagiante, com muito MPB e samba fazem todos dançar.

A parceria começou há dez anos quando se conheceram dando aula de música na rede do município de Campo Bom e sempre fizeram trabalhos juntas com os alunos.

Há dois anos, Graziela estava organizando uma apresentação para comemorar o dia da mulher, chamou a Dejeane para ajudar e reuniram ao todo cinco mulheres negras. Quando viram que cada uma tinha um tom de pele surgiu a 50 Tons de Pretas. O grupo foi criado pela sua representatividade, não existe isso de quanto menos melanina é menos negra, todas são nas suas tonalidades. Pelo fato da banda ser liderada por mulheres que cantam samba, elas contam que enfrentam muito machismo. “Na verdade, a nossa imagem é a resistência. Fazer samba, cantar samba sendo mulher é muito difícil porque é um meio extremamente machista”.

A banda 50 Tons de Pretas, além de tocar samba e MPB, possui trabalhos autorais, trabalhos esses que são admirados e cantados por outras mulheres que logo se identificam com as letras. Elas cantam o que muitas sentem e gostariam de expressar e suas músicas acabam virando hinos, como por exemplo, os versos “…não pode ficar no escuro você é sua própria luz…” e “…solte esse cabelo black e vai aonde quiser, respeite a minha herança sou guerreira sou mulher…” Elas contam que o preconceito em relação ao fato de serem compositoras é ainda maior. “Uma coisa é mulher ser intérprete, outra coisa é ser intérprete e querer compor e produzir um disco, são coisas que a gente vem desafiando”.

Dejeane de 39 anos de idade, é natural de Porto Alegre e moradora de Canoas. Ela canta, toca trombone e percussão. É regente de bandas marciais, lida com grande variedade de instrumentos de percussão e sopro. Fez o primeiro show com o trombone, nos bares noturnos de Porto Alegre, aos 15 anos. Como era muito jovem, o pai ou um dos irmãos sempre a acompanhavam. Eles sempre a apoiaram mesmo não sendo uma família de instrumentistas. Já participou de diversas bandas e se apresentou com muitos artistas, como Chimarruts, Alemão Ronaldo, Tonho Crocco e Tati Portela por exemplo. Iniciou seus aprendizados na música na banda marcial da escola quando criança, depois se formou no conservatório de música da OSPA e fez faculdade de música na EST em Novo Hamburgo.

 Graziela, 32 anos, natural de Novo Hamburgo, ensina técnica vocal e é regente de corais e bandas. Sempre fez trabalho solo de violão e voz na região do Vale dos Sinos, nunca tinha sido de banda antes. Ela começou a estudar canto aos 15, quando percebeu que perdia a voz após cantar o que mais gostava, Whitney Houston e Mariah Carey.  Após sete anos de estudo começou a dar aulas e resolveu fazer faculdade de música na EST em Novo Hamburgo, se formou em musicoterapia. A banda que as acompanha é formada por músicos conhecidos por Dejeane após anos de estrada na música.

Show da banda 50 Tons de Pretas no Barco Cisne Branco, em 14 de abril. Foto: Carolina Dill

Dejeane conta que na música as misturas fazem total diferença e entre suas principais referências está Elza Soares, Leci Brandão, Tim Maia e Sérgio Reis. Graziela conta que foi aumentando suas referências de acordo com a demanda dos shows, ela cita música brasileira, samba, Alcione, Fundo de Quintal, Raça Negra, Marisa Monte e Beth Carvalho.

Para as Pretas, como costumam ser chamadas, a banda e a música representam a concretização de todos os sonhos enquanto artistas. É a realização pessoal e profissional de desenvolver um trabalho que tem a identidade delas, na voz delas, sendo músicas autorais que falam o que elas acreditam, acaba sendo mais que um desafio, é aprendizado e crescimento. Além da intenção da banda enquanto representatividade é uma bandeira que sempre foi levantada para seus alunos. Graziela ressalta “é uma oportunidade de falar sobre coisas que precisam ser ditas e espaços que talvez a gente não teria acesso se não fosse pela nossa arte”.

O movimento da representatividade e da força da mulher negra vem evoluindo com a internet, mas ao mesmo tempo, que todo mundo fala e todo mundo faz e abraça a causa, há os militantes fakes que só falam para aparecer e acabam atrapalhando a evolução. Na visão das Pretas, o movimento está abrindo portas para as mulheres na música e na mídia, mas essa visibilidade ainda é pouca se for pensar no todo. “Não é uma luta de mulheres negras para mulheres negras, é uma luta de todo mundo que tem consciência da importância da representatividade”, salienta Graziela.

Os desafios do dia a dia são muitos, mas o principal é não perder o foco, não desistir de ficar batendo nas portas, porque não é na primeira batida que aceitam. Elas contam que não foram se apresentar na Serra ainda, mas vão ficar tentando até a hora que alguém chamar, tem que ter garra, persistência e foco.

Quando foram se apresentar pela primeira vez como banda de mulheres negras, a reação do público foi querer cada vez mais, só haviam ensaiado três músicas e acabaram improvisando, o trabalho foi impulsionado pelo público. A imagem delas é importante para outras mulheres.

O primeiro videoclipe foi feito a partir de chamadas em redes sociais, teve mais de vinte mil visualizações e cinco mil compartilhamentos. “A galera foi lá e compareceu, era uma banda que ninguém conhecia e foram lá gravar o clipe, era uma demanda que precisava ser suprida”, conta Dejeane.

As pessoas não vão assistir aos shows por acaso, no ano passado se apresentaram em doze cidades do interior do Estado com teatro cheio sempre.

 E é uma banda de mulheres, com show autoral e sem música na rádio, as pessoas vão porque se identificam. Algumas até se emocionam pela história contada, pela representatividade e pelo resgate. 

Com os trabalhos autorais veio o projeto do cd que sairá ainda nesse ano. O projeto de lançar um cd surgiu a partir da ideia de fazerem músicas autorais, escrevendo sentimentos e verdades. Elas começaram a apresentar as músicas em shows e o público passou a cantar junto e pedir mais, surgiu então a idealização de registrar esses trabalhos. Segundo Dejeane, “escolhemos fazer o cd porque disco físico é um sonho para qualquer artista e também porque alguns lugares ainda pedem o disco”. 

Há também o projeto Musas do Samba, pelo Funcultura de Novo Hamburgo, voltado à comunidade escolar. É um poket show focado para alunas. Esse projeto visa mostrar a historia da música pela perspectiva das mulheres, também levar a questão social, histórica e o conhecimento. O plano futuro é levar o projeto para outras escolas e outros municípios.

Ao citarem as experiências positivas na carreira musical, Dejeane conta que sempre teve sorte e oportunidade de tocar com seus ídolos que são seus amigos. Sempre tirou só as coisas boas, se sente realizada e diz que a Graziela é seu amuleto da sorte. Enquanto isso Graziela diz que tudo o que passou foi necessário para o amadurecimento e as melhores coisas são os encontros, as pessoas que cruzaram o caminho, elas só ganharam presentes na caminhada.

O Editorial J lança uma reportagem especial com uma série de depoimentos de cantoras gaúchas. Elas usam a música para falar da luta diária de ser mulher, artista e negra numa sociedade extremamente preconceituosa e mostram que o Rio Grande do Sul possui uma infinidade de artistas negros lutando pelo seu espaço.  O conjunto de matérias é publicado em comemoração ao Dia da Mulher Negra, 25 de julho.

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