Vozes da Negritude: Andréa Cavalheiro, a música a escolheu

Na segunda matéria da série de reportagens Vozes da negritude, apresentamos a cantora Andréa Cavalheiro ex integrante da banda Hard Working

  • Por: Clarissa Freiberger (2 Semestre) | Foto: Carolina Dill (1 Semestre) | 23/07/2019 | 0

Na família de Andréa Cavalheiro havia uma tia, que foi a primeira a se graduar, cursou Letras e posteriormente tornou-se professora. Solteira, todo o conhecimento que ela tinha acesso, repassava às sobrinhas.  Assim, as matriculou numa escola de música que era ligada à Universidade Federal do Rio Grande do Sul, o Projeto Prelúdio. Com apenas nove anos de idade, Andréa começou a aprender violão clássico. 

Cantar não fazia parte da sua vida até que se tornou obrigatório estudar canto coral na escola. Aos poucos, sua voz foi aparecendo mais que de outras crianças por seu timbre ser mais forte, e após dois meses passou a integrar o Coral Prelúdio. O grupo representava a escola e fazia apresentações importantes para a UFRGS, aos poucos foi gostando tanto que não parou mais e até largou as aulas de violão.  Dos 11 aos 19 anos cantou em corais, integrou o Projeto Prelúdio e o coral da UFRGS, entre outros.

Andréa tinha o sonho de ser atleta, jogava voleibol e handbol, mas a música sempre falou mais alto.  Mesmo trabalhando como secretária  ou atendente de telemarketing,  nunca deixou de cantar. Quando estava terminando o curso de técnica em enfermagem, entrou para a banda The Hard Working Band, onde começou a cantar profissionalmente e, devido à demanda de shows, quase não se formou. A The Hard Working Band era uma banda gaúcha de soul music composta por doze estudantes universitários de Comunicação Social. Possuía um público fiel que lotava seus shows. Lançou três cds e realizou mais de 600 apresentações. Nessa banda Andréa fazia parte do grupo de quatro vocalistas e permaneceu trabalhando com eles por mais de 20 anos.  Hoje, aos 44 anos de idade, há 23 canta profissionalmente. E, além de cantar, ministra aulas de canto e está sempre trabalhando em projetos novos. Desde 2017,  participa de espetáculos do Natal Luz de Gramado.

Foram muitos os episódios de preconceito  na época da banda. Em um deles, após uma apresentação em Gramado, juntamente com outros dois vocalistas da banda, também negros, entrou numa loja e a funcionária começou a gritar que eles estavam roubando e iria chamar a polícia. “Milhões de vezes já sofri preconceito. Quando chego aos lugares costumam dizer:”Sobe pelo elevador de serviço”. Ou não me dão alguma coisa, se peço dificultam.” Ela conta que infelizmente o negro está acostumado com isso, quando vai ao supermercado, costuma mexer na bolsa logo que entra, tira o celular, a carteira, o fone de ouvido, depois fecha tudo e segue às compras. “Senão, depois pode ter certeza que vai ter um segurança atrás de mim”. Tem coisas que as pessoas brancas não pensam, como por exemplo, entrar nos lugares usando chinelo de dedo e bem à vontade e ninguém ficar olhando de cima a baixo. “Eu não posso andar de chinelo”.

Em 2014, quando estava morando no Rio de Janeiro, surgiu o convite para participar de um musical. Após mudar-se para São Paulo, entrou para o elenco do musical Cartola – O mundo é um moinho! Geralmente nos musicais existe padrões para corpo, os bailarinos são parecidos e da mesma altura e como o musical Cartola é uma história totalmente brasileira, que se passa no morro da Mangueira, há uma grande diversidade de personagens e Andréa era um exemplo para as mulheres. “Era maravilhoso de ver negras e gordas sentadas na plateia, com um sorriso de orelha a outra se vendo representadas”. Era algo como: “Nossa! Ela é gorda! E dança ainda e faz coreografia”.  Foram dois meses de ensaio com oito horas diárias, e ela nunca havia dançado uma coreografia: “O teatro é algo libertador, é avassalador eu diria”.

Para Andréa, a música lhe deu uma carreira, um estilo de vida e uma forma de autoafirmação. “Se não fosse a música, eu seria mais uma, a música me tornou uma pessoa conhecida, eu não estava buscando ser uma pessoa conhecida, isso de ser famosa é a consequência do trabalho. A música me trouxe isso de as pessoas me conhecerem, de ter essa representatividade, agora mais que nunca”. Também fala que ser cantora e levantar uma bandeira ajuda na  sua autoestima: “Para cantar tu pode ser gordo, pode ser magro, pode ser baixo, pode ser alto. Se tu estiveres fazendo o teu trabalho e isso tocar as pessoas de alguma maneira, pode ter a cor que quiser, o tamanho que quiser, é música, está tocando as pessoas”. A cantora costumava alisar seu cabelo, até que em 2018 resolveu assumir seus cachos. “Tudo mudou dentro de mim e senti que isso seria bom para mim como afirmação e empoderamento da minha negritude”.

Atualmente, se apresenta em seus shows com a banda Condomínio. Ela é a única mulher no grupo. No repertório, escolhe o que acha legal cantar, o que vai funcionar com a banda e o que ela gostaria de ouvir ou dançar. Não só o que as pessoas gostam e esperam ouvir. Ela canta música brasileira, samba, forró e carimbó. Dentro de cada estilo busca sempre o melhor, assim como nos seus projetos futuros, que segundo ela são muitos. 

O Editorial J lança uma reportagem especial com uma série de depoimentos de cantoras gaúchas. Elas usam a música para falar da luta diária de ser mulher, artista e negra numa sociedade extremamente preconceituosa e mostram que o Rio Grande do Sul possui uma infinidade de artistas negros lutando pelo seu espaço.  O conjunto de matérias é publicado em comemoração ao Dia da Mulher Negra, 25 de julho.

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