Vozes da negritude: as muitas faces de Negra Jaque

Na quinta reportagem da série, a cantora de hip hop representa as artistas brasileiras que precisam multiplicar suas habilidades para serem reconhecidas

  • Por: Clarissa Freiberger (2° semestre) | Foto: Carolina Dill (2° semestre) | 09/08/2019 | 0

Jacqueline Trindade Pereira, a Negra Jaque iniciou o trabalho com o hip hop no ano de 2007. Além de cantora, é mãe, ativista social, educadora popular e professora.

Criadora de uma marca que desenvolve produtos e atividades com estética negra e do hip hop, camisetas, bolsas, turbantes, e bótons. Ela compõe todas suas músicas e enfatiza, nas letras, a força das mulheres para conquistar seu espaço.

Moradora do Morro da Cruz, periferia de Porto Alegre, Negra Jaque é ativista do movimento feminista. Costuma levar a bandeira da mulher negra a todas as comunidades por onde passa. A cantora também é produtora da feira de hip hop de Porto Alegre. Quando começou a cantar, desejava que houvesse outra cantora no hip hop para se espelhar, hoje ela é espelho para outras mulheres.

  São treze anos atuando junto à cultura hip hop escrevendo e produzindo no universo das rimas e da poesia. “As escritas, essa narrativa sobre as minhas memórias vieram antes de aprender a impostar essa oralidade. O hip hop é um movimento extremamente complexo, ele veio na minha formação como professora”, relata a artista. 

Antes, na infância, surgiu o rap ouvindo os tios. Ela escutava escondida porque “não era música de menina”, mas gostava pois era isso que vivenciava. Nas comunidades da zona leste, havia batidas da polícia e ela ouvia as músicas de Naldinho, dos Nacionais, que não eram para uma criança de seis anos. 

O hip hop ela conheceu aos 13 anos de idade quando começou a estudar as formas de organização da juventude. Aos 17, numa formação de educação popular, escreveu o primeiro rap e nunca mais parou. Nunca cantou quando criança, tudo aconteceu com o hip hop. “Essa função, o posicionamento de poder, de ter coragem de dizer sim, eu existo, veio com 17, 18 anos”, conta. Negra Jaque comenta que quando se é criança nas comunidades do Brasil, se é totalmente invisível, ao crescer e virar mulher continua invisível. Uma criança negra se colocar na frente do microfone ou fazer vídeos em 1995 não era tão comum, na visão da sociedade ela seria também invisível.

Há pouco tempo, Jaque desistiu do trabalho de professora para se dedicar somente ao hip hop. Ela é pedagoga e durante seis anos foi educadora em escolas na comunidade. Sempre fez um grande trabalho e gestou a escola de educação infantil São Guilherme, no Partenon. “Ser artista dentro desse território é dormir todo dia pensando em desistir e acordar com uma energia de vida que te ensina a sair correndo”, desabafa sobre as dificuldades dos artistas na periferia. 

Negra Jaque, rapper porto alegrense. Foto: Carolina Dill 01.07.2019

Na visão da cantora, as pessoas negras ficam o tempo todo procurando as raízes, as identidades e escrevendo histórias. “Assim como não tem referências, são a própria referência do que está sendo criado porque precisa se colocar nos registros da música, da arte e da cultura do Estado”.  A representação da mulher negra no Brasil é muito caricata, logo falam que é baiana ou carioca, mesmo sendo gaúcha de família gaúcha. “Os veículos de comunicação e a mídia ainda usam essa caricatura onde só podem ser baianas ou de escola de samba de carnaval”.

“Eu sou uma mulher criada num espaço de educação, eu acredito nas pessoas, eu acredito que o mundo vai mudar, preciso pensar assim para me manter viva”.

Ela conta que no dia a dia em questão ao preconceito, tudo é mais complicado, para andar na rua é preciso planejar rotas para lugares específicos e tem a função do assédio, da violência, “às vezes o ônibus e o lotação não param e o carro de aplicativo não chega nos lugares, atrapalha os compromissos marcados”.  “Cria um problema de locomoção no direito de ir e vir. Em função do local que mora e das características físicas.

“É a dificuldade de existir numa cidade que ignora que elas vivem aqui. São tantas dificuldades, como se veste, a questão do assédio, da violência, das mídias e o quanto sua imagem é importante para outras mulheres e meninas que estão acompanhando seu trabalho”.

Para ela, há muitas experiências positivas na carreira, como por exemplo as vivências de outras pessoas que frequentam seus shows e oficinas.

Recentemente em Uruguaiana, em um evento de hip hop, reuniu muitas meninas e as ensinou a cuidar do cabelo e  a fazer tranças.

A artista nos conta que no Estado o movimento do hip hop é bem forte. Há muitas atividades e eventos de rua mensais. Um deles, a Feira de hip hop de Porto Alegre, no qual ela atua como produtora, acontece uma vez por mês na Esquina Democrática. Nele acontecem as batalhas de ritmos, slans e oficinas de dança. Todo segundo sábado do mês o evento acontece, “é o ponto de encontro desses artistas independes”.

“Já estamos no sexto ano de atividades, é uma vitrine para os artistas do movimento”.

Mas ultimamente os eventos diminuíram por causa da falta de incentivo do governo, o que é uma pena pois ele leva arte, cultura, política, educação à juventude. “É um movimento que influencia os jovens do mundo todo”.

Atualmente, a cantora está construindo um espaço cultural no Morro da Cruz com o objetivo de levar mais cultura para os jovens.

O Editorial J lança uma reportagem especial com uma série de depoimentos de cantoras gaúchas. Elas usam a música para falar da luta diária de ser mulher, artista e negra numa sociedade extremamente preconceituosa e mostram que o Rio Grande do Sul possui uma infinidade de artistas negros lutando pelo seu espaço.  O conjunto de matérias é publicado em comemoração ao Dia da Mulher Negra, 25 de julho.

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