Vozes da negritude: de atriz para sambista, Glau Barros ganha os palcos

Natural de Porto Alegre e moradora de Gravataí, cantora de 48 anos é considerada uma das principais sambistas do Estado

  • Por: Clarissa Freiberger (2 semestre) | Foto: Luís Ferreira/divulgação | 31/07/2019 | 0

O interesse por música veio da família, através de um tio que cantava Lupicínio Rodrigues e Nelson Gonçalves, e participava de serestas. Glau Barros também foi influenciada pela avó paterna que cantava no coral da igreja e a ensinava canções quando tinha três anos de idade. Desde criança, sempre foi muito ligada ao carnaval e ao samba. Nos anos 1990, começou a cantar profissionalmente na banda de pop rock de um amigo, depois de um tempo, passou a cantar MPB. Em 18 de junho, Glau Barros lançou seu primeiro cd no Theatro São Pedro, o Brasil Quilombo, álbum independente que celebra as mulheres no samba. 

A carreira artística começou com o teatro, que a deixou mais solta e com mais recursos para cantar. Entre 2000 e 2008, só trabalhou com o teatro e seus trabalhos acabavam sendo musicais. Em 2009, Glau voltou a cantar com o espetáculo Estandarte do Samba e se firmou como sambista. Também tem um espetáculo chamado Alô,alô Elis Regina e um dedicado a músicas de Clara Nunes, desde então, ela vem mesclando os ritmos, mas com atenção especial ao samba. Buscava uma identidade e queria ser reconhecida como cantora de samba, pela história da família e também por ser uma mulher negra.

Há 28 anos é cantora profissional. Nos anos 80, aos 16 anos, Glau fez curso de modelo e manequim, vários desfiles e também trabalhava na organização destes.  Pegou gosto pela moda e quando entrou para o teatro começou a exercer a função de figurinista. A partir desse trabalho tem uma preocupação de desenhar e montar os figurinos para os shows, os músicos sempre se apresentam de acordo com o que ela projeta.

Além de cantora, Glau Barros é atriz e figurinista. Foto: Luís Ferreira

A sambista conta que às vezes a empresa que a contrata fala que é  para ir bem bonita e bem vestida, o que ela considera um comentário atrelado à questão racial. “As pessoas querem falar como você tem que se portar em um espaço que não é o seu espaço. Essas coisas te fortalecem. Dificultam, são ruins, mas fortalecem. Te faz transformar isso em algo que te deixe mais forte, mais focada”. Por ser cantora negra, as portas se fecham e é preciso ”antes provar muito que é boa para estar em alguns espaços, a cor está na vitrine”.

Glau cita a ativista negra Luiza Bairros (ministra da Igualdade Racial no governo Dilma Rousseff) que falava que, por muito tempo, ”a etnia era considerada infante, infantil. Como se os negros precisassem de alguém que falasse por eles por não conseguirem expressar seus sentimentos e suas situações. As pessoas se sentem autorizadas a achar que podem dizer o que tem que fazer”.

Com a pessoa negra acontece muito de outros quererem falar por elas. A artista observa que ”como o estudo foi negado, quem estudasse a história iria falar por eles, e hoje em dia não é mais assim, o negro consegue estudar, entrar numa faculdade e falar das suas questões com propriedade total“. Os resquícios de pessoas que acham que podem dizer como o negro tem que se vestir, onde pode e o que deve cantar vem disso, das pessoas pensarem que o negro precisa de um porta- voz, argumenta Glau.

Quando vai a lugares como uma cafeteria no bairro Bom Fim, a cantora nota olhares surpresos porque é uma frequentadora como moradora e não como alguém que apenas trabalha no bairro. “Isso incomoda bastante”, reconhece. “Me incomoda o fato de não ver os meus pares nos lugares onde eu vou, onde eu frequento, e o estranhamento que causa eu estar transitando nesses espaços. Não causa estranhamento se eu estou lá a trabalho, mas se eu estou lá consumindo é extremamente desconfortável”.

Nas experiências positivas, Glau cita o lançamento do cd no Theatro São Pedro, as pessoas podem ver a qualidade do seu trabalho e o profissionalismo. A parte que mais a deixa feliz é saber que é espelho para muitas pessoas, não só como artista.

O Estandarte do Samba, espetáculo criado em 2009, foi montado para ser apresentado em teatros e esteve no Túlio Piva, Teatro de Arena, teatro da Amrigs, Renascença, Sala Álvaro Moreira, CCMQ, e SESC.

 A partir disso escolheu o Theatro São Pedro para lançar o cd de estreia, um lugar que não tem história de ser frequentado pela população negra, por artistas negros e pelo samba. É importante não só pelo trabalho, mas pelas pessoas que está representando. Ela tinha muito claro que gostaria de fazer o lançamento no teatro. A escolha foi devido às antigas apresentações como atriz, no grupo teatral Caixa Preta, formado por pessoas negras, que estreou no São Pedro justamente para levar a representatividade negra a outros espaços. A escolha também foi para mostrar que o samba não é só apresentado em bares e comunidades da periferia, mas tem espaço no teatro.

Desde 2016, definiu o cd de samba e começou a delinear o repertório atual. O cd é um projeto antigo, surgiu com a ideia de se firmar como cantora de samba e, não, de tudo. Para ter também uma identidade e estar ligada às raízes e à família.  Nesse repertório, as cantoras de samba são bastante lembradas e não só os compositores.

Quanto ao samba no Rio Grande do Sul, Glau comenta que ainda há um grupo fechado, o mundo é muito masculino. Em outros Estados, como São Paulo e Rio de Janeiro se vê despontando várias cantoras e compositoras sambistas. “Só pelo fato de ser mulher é difícil ser da música porque a maioria dos músicos são homens, eles estão acostumados a ditar as regras porque a nossa sociedade é muito machista”, comenta. ”Tem muita roda de pagode, bares de samba, pagode e samba-rock que não chamam mulheres para estar lá, acabam sempre os mesmos nos mesmos lugares”. No estado, o espaço ainda é pequeno, existem várias cantoras boas com pouco reconhecimento.     

Com o tempo, ela acredita que vai mudar, agora, ”as mulheres tem que criar os seus espaços, festas, locais e oportunidades para mostrar o trabalho. Não costumam ser chamadas para fazer um grandes eventos”. 

 

O Editorial J lança uma reportagem especial com uma série de depoimentos de cantoras gaúchas. Elas usam a música para falar da luta diária de ser mulher, artista e negra numa sociedade extremamente preconceituosa e mostram que o Rio Grande do Sul possui uma infinidade de artistas negros lutando pelo seu espaço.  O conjunto de matérias é publicado em comemoração ao Dia da Mulher Negra, 25 de julho.

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