Vozes da negritude: Loma,uma pioneira na cultura gaúcha

Na quarta reportagem da série, a cantora Loma Pereira lembra o início da carreira que resultou na homenagem especial no Prêmio Açorianos de música deste ano

  • Por: Clarissa Freiberger (2 semestre) | Foto: Tomas Edson Silveira/divulgação | 06/08/2019 | 0

Loma Berenice Gomes Pereira, cantora gaúcha de larga trajetória profissional, há mais de 40 anos, foi a homenageada especial desse ano, 2019 no Prêmio Açorianos de música. O prêmio se deu pelo conjunto da obra que teve início nos anos 1970, quando a professora de música começou interpretar Música Popular Brasileira (MPB),  passando em seguida para música nativista, afro-gaúcha e latino-americana.

Hoje, aos 65 anos de idade, Loma conquistou seu espaço no Rio Grande do Sul, por grandes participações em projetos culturais com foco na musicalidade de raízes regionais. Além de cantora, Loma é compositora, apresentadora de eventos, locutora, ativista e produtora de projetos na música.

A artista descobriu seu dom para a música aos 12 anos, no coral da escola Jesus de Nazaré de Porto Alegre, atualmente extinta. A professora de música da escola a ajudou a despertar sua paixão por cantar. O coral participava toda a semana de programas de tv, quando o maestro Pablo Komlós decidiu convidou o grupo a participar da ópera Aída que era apresentada anualmente na cidade pela Orquestra Sinfônica de Porto Alegre.  

Loma conta que “a ópera era apresentada sempre no inverno no auditório Araújo Viana, mesmo com o frio ficava lotado. As mulheres usavam casacos de pele e os homens sobretudos e chapéus”. Ela diz que todo o encantamento com a música veio nessa idade e nos bastidores da ópera: “Ali eu conheci o resultado de um trabalho feito com amor”.

Decidiu, então, que seria cantora. Só que não tinha posses, nem muita orientação. A mãe que era solteira trabalhava muito e passava o dia fora de casa. “Para os negros era muito difícil ter estrutura psicológica para enfrentar uma universidade”, recorda.

Aos 18 anos de idade fez um comercial e sua voz foi muito elogiada. Com isso, entrou para o cast de cantores de jingle do estúdio de gravação. Logo depois, conheceu Ivaldo Roque e Jerônimo Jardim que a convidaram para fazer parte do grupo Pentagrama, no qual foi vocalista, iniciando sua carreira musical. O grupo é considerado um dos mais inovadores na música gaúcha dos anos 1970. Nessa época, Loma iniciou os estudos de teoria e solfejo no Conservatório de música Palestrina.

Ela ressalta que na época que entrou para o Pentagrama, o Movimento Tradicionalista Gaúcho estava em alta, criado por Barbosa Lessa e Paixão Cortes. Nos anos 1980, em carreira solo, Loma se mudou para o Rio de Janeiro para aperfeiçoar seus conhecimentos musicais. Lá, ela conheceu e gravou com artistas nacionais como Gilberto Gil e Elza Soares.

A cantora gosta muito de estudar a história do Rio Grande do Sul e da música em geral. A partir desse conhecimento, tem se dedicado ao desenvolvimento do maçambique, cultura nascida do sincretismo entre religiões de matriz africana e o catolicismo trazido pelos colonizadores portugueses, que se manifesta em rituais cheios de música e dança no Litoral Norte.

Para Loma, é importante “estarmos abertos à cultura, tudo que é manifestação cultural e artística é bonito, cada um tem um jeito, um gênero. Mas é bonito, a gente não pode ir assistir algo com preconceito”. Lembra ainda, que quando começou se sentia muito sozinha, foi uma precursora na música regional no meio de muitos homens. Conquistou um espaço que fomentou coragem nas outras cantoras negras. Considera que hoje há um empoderamento maior porque há instrução e as mulheres conseguem administrar as próprias carreiras e possuem suas mídias sociais.

O Editorial J lança uma reportagem especial com uma série de depoimentos de cantoras gaúchas. Elas usam a música para falar da luta diária de ser mulher, artista e negra numa sociedade extremamente preconceituosa e mostram que o Rio Grande do Sul possui uma infinidade de artistas negros lutando pelo seu espaço.  O conjunto de matérias é publicado em comemoração ao Dia da Mulher Negra, 25 de julho.

 

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