“De fato, os porcos comiam primeiro”, diz Jorge Furtado

Vídeorreportagem aborda vida de moradores após filme. Assista.

Entrevista exclusiva com Jorge Furtado ao Editorial J em novembro de 2011.

Editorial J: Como você certamente sabe, alguns moradores da ilha não gostam do Ilha das Flores, pois alegam nunca ter dividido comida com porcos. Você disse, em entrevista à Zero Hora, na ocasião dos 15 anos do curta-metragem, que o filme foi feito em cima do relato do professor Nilton Fischer, da UFRGS, sobre a doação de comida na Ilha dos Marinheiros. O roteiro foi feito antes de você ir à ilha, pessoalmente?

Jorge Furtado: Sua primeira pergunta tem três perguntas, repondo por partes.

Qual ilha? Sei que alguns moradores da Ilha das Flores (onde há algumas casas muito boas) não gostam da fama que o filme lhes deu, de morar num lixão. Sei também (pelas muitas reportagens já feitas, como a sua, da Zero Hora e outras), que alguns moradores da Ilha dos Marinheiros não gostam do filme. Voltei lá algumas vezes, depois da filmagem, conversei com o pessoal do galpão de reciclagem quando da construção da quadra de esportes. Nunca afirmei – nem o filme – que todos os moradores (de qualquer ilha) dividiam comida com os porcos. (De fato, os porcos comiam primeiro.)

Quase todo mundo já entendeu que Ilha das Flores, o filme, não é um documentário. Aliás, não afirmei que fosse. No site da Casa de Cinema de Porto Alegre o filme está entre os de ficção. Embora o filme afirme que não seja, e também que Deus não existe.

Duvido que tenha dito que “o filme foi feito em cima do relato” do professor Nilton Fischer, mas sim, foi ele quem me descreveu a situação e, a partir desta conversa, comecei a trabalhar no projeto do filme. Ele também me mostrou um vídeo, de estudantes que tentaram registrar uma situação que acontecia na Ilha dos Marinheiros. Foram recebidos a pedradas, o que é compreensível, ninguém gosta de aparecer numa situação tão degradante.

Não. O roteiro foi feito durante pelo menos quatro meses de trabalho, período em que visitei algumas vezes a Ilha dos Marinheiros, a Ilha das Flores e vários aterros sanitários em Porto Alegre.

EJ: Muitas pessoas que assistem ao filme pensam que as cenas das pessoas no cercado dos porcos são reais. Colabora para isso a legenda inicial do filme, que diz tratar-se de uma história real. Era sua intenção causar essa percepção no espectador? Como funciona o pacto documental em Ilha das Flores?

JF: Sua pergunta tem, outra vez, três perguntas. Respondo por partes.

Não sei o que muitas pessoas pensam ao ver o filme. Não há nenhuma legenda dizendo que se trata de “uma história real”. O filme tem três legendas iniciais: “Este não é um filme de ficção”, “Existe um lugar chamado Ilha das Flores” e “Deus não existe”. O filme tem também várias informações nos créditos finais.

Muitas pessoas que assistem à novela das oito pensam que os personagens são reais, ofendem os atores nas ruas. Eu já vi acontecer, acredite. As “cenas das pessoas no cercado dos porcos” são reais, tanto que foram filmadas. E são encenadas, também, como a própria linguagem do filme deixa evidente.

Imagino que, para muitas pessoas, o filme deixe bastante claro sua dose de ficcionalidade, ao colocar, por exemplo, pessoas num estúdio, olhando para a câmera e executando gestos claramente ensaiados. Para quem ficou com alguma dúvida, elas terminam, espero, nos créditos finais.

A terceira parte da sua pergunta, sobre o pacto documental de um filme, é muito ampla. Escrevi sobre isso aqui.

EJ: Como funcionou o trabalho com os figurantes da ilha?

JF: A produção do filme colocou cartazes no bar e na escola da Ilha dos Marinheiros, convocando uma reunião, que aconteceu na escola. Nesta reunião, eu expliquei a todos que desejassem participar da filmagem sobre o que era o filme. Uma pessoa me perguntou se poderia ficar com os vegetais que apanhasse durante a filmagem, eu respondi que sim.

EJ: O líder dos recicladores, Gineo Santos, disse que tentou processá-lo, mas não quis entrar em detalhes. Como foi resolvida essa situação?

JF: Líder dos recicladores? De onde? Qual associação? Não sei a quem você se refere (acho que me lembraria de alguém chamado Gineo), e não sei o que significa “tentou processá-lo”. Não sei a qual situação você se refere e o que haveria para ser resolvido.

EJ: Como última pergunta, o que você pensa sobre a reação negativa dos moradores?

JF: Que moradores? De qual Ilha? Ao fazer o filme, tomei o cuidado de proteger ao máximo as pessoas reais que, numa situação de extrema miséria, se alimentavam de sobras. Mas não fiz o filme pensando nos moradores reais de algum lugar real, e sim nos espectadores dos filmes, de qualquer lugar.

Muitas reportagens foram feitas sobre o filme, muitos jornalistas voltaram à Ilha dos Marinheiros, em busca de algo. Decidi só voltar lá quando tivesse algo a oferecer a eles, o que fiz, em 2004, para fazer o filme Fraternidade.

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