53º Conune: festa e militância

Na teoria, o Congresso da União Nacional dos Estudantes (Conune), realizado entre os dias 29 de maio a 2 de junho, em Goiânia, é o evento no qual foi decidido o grupo político que estará à frente da maior entidade de representação estudantil do país. Na prática, porém, essa definição é por si só insuficiente, não dando a verdadeira dimensão das dificuldades, ciladas e festas que compõem essa excêntrica viagem.

A saída das delegações de Porto Alegre rumo ao Conune estava marcada para o final da tarde de quarta-feira, no Largo da Epatur. A longa viagem, que se estenderia durante todo o feriado de Corpus Christi, já havia sido planejada com relativa antecedência pela maioria dos que ali estavam. A maioria, mas não todos: “Um amigo meu não pôde ir e me chamou na última hora, hoje à tarde, daí eu resolvi vir, mas tem que valer a pena, pois perderei três trabalhos na faculdade”, contou um estudante de história da UFRGS.

“Vaquinha da cerveja” já era feita ainda em Porto Alegre

Em meio à confusão de colocar as malas no ônibus e definir o lugar que seria ocupado, uma “vaquinha da cerveja” já era feita. Cada um que tivesse condições deveria contribuir com simbólicos R$ 10. Assim, seria possível pagar pouco e, dando prioridade à vodka e não à cerveja, se embebedar seria quase inevitável.

Com pouco mais de uma hora de atraso, os ônibus partem. Antes mesmo de ultrapassar os limites de Porto Alegre, a festa sobre rodas tinha início. Cerveja, vodka e vinhos baratos criavam uma oportunidade de socialização entre pessoas que pouco ou nada se conheciam. No ambiente politizado, o assunto da vez era a necessidade de apoio militar em processos revolucionários. No DVD, um show de Dudu Nobre disseminava a alegria do pagode.

Com muitos fumantes a bordo, o banheiro do veículo acabou se tornando um fumódromo, de onde os jovens saíam mais sorridentes e tranqüilos. À medida que a festa prosseguia, um aviso se fez necessário “Quem vomitar no ônibus vai ser deixado na BR à noite”. Logo, todos estariam dormindo e nada disso seria necessário.

Ainda na BR-101, uma das tantas estradas percorridas nas intermináveis 36 horas que separam as capitais de Rio Grande do Sul e de Goiás, os estudantes acordaram cedo, por volta das 6h30, na quinta-feira do feriado. Em clima de tranqüilidade, liam livros como “As Veias Abertas da América Latina”, de Eduardo Galeano, e “O homem que inventou a ditadura no Brasil”, de Décio Freitas, e discutiam a viabilidade de uma utopia marxista, a pós-modernidade e até mesmo a mais-valia na Ambev.

Ao passar por São Paulo, terra de estradas largas e seguras com pedágios bastante caros, o comentário da vez era: “O Serra privatizou tudo!”. No fundo do ônibus, professores considerados “reaças” eram bastante criticados. Em certo ponto de uma das tantas discussões, um estudante volta-se para o outro e questiona. “Como assim, tu discorda de Marx?”, indignou-se.

Banho quente no alojamento era luxo, diziam os militantes mais velhos

Nesse clima, mais uma festa ocorre à noite e, na manhã de sexta-feira, finalmente chega-se à Goiânia. No distante alojamento do coletivo Juntos!, situado na cidade de Aparecida de Goiânia, é necessário ser rápido para garantir um bom lugar no ginásio. Delegações do Pará, Rio Grande do Norte, Minas Gerais, entre outros Estados brasileiros, já ocupavam o local, repleto de barracas e algumas pessoas deitadas até mesmo nas arquibancadas.

53 conune, goiânia, juntos foto: Caio Venâncio
Pela manhã, primeira plenária foi realizada na frente do ginásio que serviu de alojamento para o coletivo Juntos! do Rio Grande do Sul

O banheiro tinha chuveiros com água quente: “um luxo”, segundo os militantes mais antigos, mas tinha cheiro de urina. Ao som de megafones, os “companheiros” de outras regiões eram acordados, o que era chamado de “alvorada”, e avisados: “saiam preparados para a Revolução! Vamos ficar o dia inteiro na rua”. Antes de partir, a primeira de muitas plenárias seria realizada e abordaria a programação de sexta-feira.

No final da manhã, o coletivo chega à Praça Universitária, onde parte das atividades do Conune era realizada. Novas plenárias são feitas e, à tarde, todos partem para um protesto contra o aumento das passagens de ônibus em Goiânia. Reunindo as diversas correntes político-ideológicas presentes no Conune, muitas vezes era mais importante mostrar a força de seu grupo do que lutar contra o valor da tarifa. Assim, um grupo cantava “olê Lula” e aqueles que se diziam a “esquerda de verdade” vaiavam.

De volta à Praça Universitária, um debate sobre a Comissão da Verdade reunia parte dos jovens, mas não havia espaço para todos. Desta forma, o jeito era recorrer aos vendedores de churros e cachorros quentes, à música da Legião Urbana tocada por jovens munidos de violão, comprar uma icônica camiseta do Che Guevara ou participar de outra marcha (das Vadias e da Maconha eram as opções do momento), enquanto os tíquetes para o jantar no refeitório armado pela UNE não chegavam.

Com os tíquetes, outra batalha se iniciava. As filas do refeitório costumavam ser imensas, os locais não eram limpos, pratos descartáveis já utilizados e restos de comida se amontoavam sobre as mesas, e, ainda por cima, algumas pessoas ficaram de fora do primeiro jantar, o que gerou revolta, obviamente, e ficou marcado como “A Guerra da Comida”.

Paraenses contagiaram todo o alojamento com o seu carimbó

Depois do embate, era hora de voltar ao longínquo alojamento. Porém, mais uma vez, novas dificuldades se intrometeram no caminho dos estudantes. Agora, era o ônibus que demorava por motivos incertos.

Ao chegar, festa novamente. Os paraenses do ginásio ensinam o carimbó, um ritmo típico da região, a todos e a diversão se estende pela madrugada até as 5h da manhã de sábado. Duas horas depois, já era preciso levantar ao som da já mencionada “alvorada” e dos infinitos avisos de “vamos lá, companheiros”.

No sábado, as votações de resoluções da UNE teriam início no ginásio Goiânia Arena, vizinho do estádio Serra Dourada. De fato, essa é a parte mais valorizada politicamente no Conune. Logo pela manhã, as arquibancadas do local seriam tomadas pelos diferentes coletivos do congresso. A atmosfera era digna de um clássico de futebol: bandeiras, gritos, sinalizadores, batucada e coreografias conjuntas, de gosto questionável, que somente a psicologia de massas poderia explicar.

53 conune, goiânia, movimento estudantil foto: Caio Venâncio
Atmosfera das plenárias era semelhante a de um estádio de futebol em dia de clássico

Quando os dirigentes da UNE iniciam suas falas, pouco se ouve, pois a cantoria não parava, um problema que persistiria durante quase todo evento. Até mesmo virar de costas e cantar o clichê contemporâneo “não me representa” era válido na tentativa de mostrar divergência em relação ao atual comando da entidade.

Assim que as chapas começam a discursar para disputar votos alguns minutos depois, inicia-se um repertório de clichês da literatura marxista: “burguesia imperialista”, “classe trabalhadora”, “companheiros de lutas”, “conhecimento que não pode servir para o latifúndio”… Por um momento, a Revolução Russa parecia estar prestes a acontecer. Os oradores davam sinais de não saber falar ao microfone, mas apenas gritar e tinham o limite de 10 minutos para que suas falas não se prolongassem ao infinito.

Sem grandes surpresas, majoritária da UNE consegue aprovar suas propostas facilmente

As pautas propostas não estavam restritas ao universo estudantil. “Belo Monte vai cair”, “Viva a Revolução Bolivariana” e “Fora Bashar al-Assad” são alguns exemplos de cartazes e cânticos do tipo. Ao fim do dia, como já era esperado, a majoritária da UNE conseguiu aprovar com relativa tranqüilidade suas propostas.

Antes do decisivo dia de domingo e sua votação da diretoria da UNE pelos próximos dois anos, o carimbo embalaria mais uma festa intensa no alojamento do coletivo Juntos, com beijaço, bastante cerveja e cantos de “Revoluchão, chão, chão”. Ainda mais cedo, às 6h30, a juventude com energia de pilha Duracell deveria desarmar todo o acampamento e partir para a Goiânia Arena, de onde todos retornariam para suas bases ao final do dia.

Ao ocupar novamente as arquibancadas, o dia quente e abafado impõe a necessidade de socializar água entre os militantes, mas, mesmo assim, alguns sucumbiram diante do calor. No domingo, os cerca de 8.500 estudantes que participavam do Conune deveriam acompanhar os discursos das diferentes chapas, agora concorrendo à direção da UNE, a mais importante disputa do encontro.

Vídeo oficial da UNE mostra imagens da plenária final:

Os discursos eram mais maniqueístas que na política partidária: a chapa que falava sempre se colocava como o bem e às demais correntes restava ser o mal. Nesse sentido, a única exceção foram os excêntricos representantes do desconhecido Movimento pela Sapiência, que disseram: “As idéias são muito parecidas, a disputa aqui é, antes de mais nada, pelo poder”, antes de fechar o discurso falando que estava “tudo na paz”. Mas eles não inspiravam confiança e, sem novidades, os delegados reelegeram o mesmo grupo que já comandava a UNE.

Depois disso, aos poucos, os milhares de estudantes das mais diversas partes do país começam a percorrer o caminho de volta até suas cidades. Em alguns casos, isso poderia levar mais de 70 horas, como ocorreu com os militantes de Santarém, no Pará. Independente do resultado, a maioria dos que estavam no ginásio pareciam contentes. Antes de tomar a estrada para Porto Alegre novamente faltava algo para encarar algumas dezenas de horas de espera: mais cerveja.

Texto: Caio Venâncio (3º semestre)
Caio Venâncio foi à Goiânia na condição de observador da Chapa 2 – Vai Virar a Maré – Oposição.

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