A arte que não tem preço

A sala vazia emoldurada por paredes repletas de belas obras ilustra uma realidade.  As galerias de arte de Porto Alegre oferecem exposições com entrada franca, mas elas não recebem o número de visitas que se espera em um evento gratuito. O número médio para quatro desses espaços, por exemplo, é de três pessoas por dia, em uma semana sem feriadão. Nas ocasiões em que a sexta ou a segunda-feira alongam o fim de semana, o movimento é ainda menor. Há dias em que um curioso sequer entra para ver o que está pendurado, colado ou exposto de alguma forma excêntrica.

O artista plástico Pedro Gutierres fez duas exposições individuais com entrada franca em Hamburgo, na Alemanha, em 2010 e 2011. Pedro conta que, no exterior, as pessoas frequentam muito esse tipo de evento. “O legal é que, enquanto aqui quem vai às exposições são mais os amigos, lá eu era muito desconhecido e o pessoal foi mesmo assim. Eles têm sede de novidade”, relata. O artista considera três visitas por dia um número muito baixo, e acredita que existe uma explicação. “Acho que aqui falta comunicação e abertura da parte das galerias. Arte no Brasil é restrita e elitizada, infelizmente. Na Alemanha foi gente de tudo que é tipo ver meu trabalho. Dos senhores ricos aos skatistas, todos dividindo o mesmo espaço sem problema algum. As coisas aqui são muito segmentadas”, explica.

A produtora cultural Cristiane Cubas, responsável pela Mostra Artística Cabaré do Verbo, tem opinião bastante semelhante: “Gratuidade não significa acessibilidade”. Cristiane afirma que, para uma grande quantidade de pessoas, especialmente as de renda mais baixa, arte é algo distante. “As pessoas pensam ‘o que eu tenho a ver com a arte?’, e não se sentem convidadas a entrar nos espaços destinados a ela”, argumenta. A produtora defende a ideia de que trabalhar a rua como espaço de palco diminui essa distância, ajuda a trazer quem estiver passando pela cena para dentro de um universo cultural.

Eventos como os promovidos pelo Cine Bancários, que oferecem projeções cinematográficas sem custo, no entanto, têm frequência bastante satisfatória, na maioria das vezes. Apesar de o movimento variar muito de acordo com a mostra em cartaz, cerca de 40% da programação do cinema é exibida gratuitamente e tem mais público do que as sessões pagas. Pode-se notar que, antes das mostras promovidas pelo espaço começarem, costuma sair alguma nota a respeito nos principais veículos de comunicação da cidade. Shows como o ocorrido no último 20 de setembro, no Auditório Araújo Vianna – que recebeu, lotado, artistas gaúchos em seu palco – também costumam ter uma grande divulgação na mídia.

Marina Hecker, estudante de Ciências Sociais, acredita que divulgar faz toda a diferença. “A verdade é que eu não vou muito a galerias porque não fico sabendo das exposições. Dificilmente vou procurar nos sites de cada uma delas, me guio mais pelo que sai nos jornais”, comenta. Há casos como o da Casa de Cultura Mário Quintana, cujos livros de visitas das galerias registram números bem mais altos de passagens diárias pelas exposições. Nos dias de movimento mais fraco, encontra-se cerca de dez assinaturas no livro, pelo menos. Para Camila Braz, também estudante de Ciências Sociais, o fato se explica por espaços como a Casa de Cultura e a Usina do Gasômetro terem seu acesso facilitado pela grande circulação de pessoas. “Eu não venho à Casa para ver uma exposição específica, mas já que estou aqui, acabo dando uma olhada no que está acontecendo”, justifica. Os livros de presença permitem constatar também o grande número de visitantes vindos de outras cidades, estados e até países. De Canoas a Madri, nos registros constam as mais diversas localidades. O fato de ser, também, um ponto turístico da cidade, faz dela mais procurada e acessada. Camila conta ainda que, na maioria das vezes em que vai ao local, é com a intenção de ir a uma sessão de cinema paga ou tomar um chope em um dos cafés. Visitar as galerias é consequência.

As duas estudantes e a produtora cultural têm uma ideia em comum: quem frequenta espaços de arte em Porto Alegre pertence a um núcleo específico. Jovens universitários de classe média, principalmente os que buscam um estilo de vida alternativo, são o principal público dos locais. Cristiane acredita – tendo como exemplo o Cabaré do Verbo, sediado na Casa de Cultura há cerca de dois anos – que o local tem a vantagem de facilitar o acesso por contar com a ideia de passagem, de circulação, existente na Travessa dos Cataventos. “As pessoas vão passar por ali para ir da Andradas até a Sete de Setembro, percebem que algo está acontecendo e acabam dando uma olhada”, diz.

Divulgação e acessibilidade: duas palavras para encher uma galeria de arte.

Texto e foto: Rafaela Masoni (6º semestre)

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