A calçada é a nova passarela?

O crescente número de blogs dedicados à moda em suas diferentes manifestações transformou-se uma espécie de mola propulsora da popularização das fotos de street style. O que se viu foi uma evidente mudança: o foco passou das passarelas para as ruas e os fotógrafos miraram suas lentes na direção de aspirantes a ícones de estilo. Em busca de produções dos mais variados gostos, esses blogueiros passaram a disputar espaço com a mídia tradicional.

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Nos últimos anos, o interesse pelo estilo alheio cresceu de tal maneira que hoje é quase impraticável a existência de um veículo sem uma seção dedicada exclusivamente ao fenômeno do street style . O principal portal de moda do mundo, o style.com, conta com fotos de Tommy Ton, enquanto o fotógrafo pioneiro no estilo, Bill Cunningham, tem seu espaço garantido no The New York Times. Isso sem falar nas principais revistas de moda do mundo, quase todas com sua versão própria do tal estilo das ruas. A princípio, a ideia pode parecer despretensiosa. Mas aos olhos de alguns, tornou-se uma verdadeira fonte de sustento.

Em 2005, Scott Schumann lançou seu blog – “The Sartorialist”, que continua, até hoje, ocupando o primeiro lugar no ranking dos blogs de moda mais influentes do mundo segundo o site de tendências e lifestyle Signature 9. O que mudou foi a quantidade de “concorrentes” que Mr. Satorialist ganhou nos últimos anos. Agora, grandes blogueiros podem ser vistos como verdadeiros editores de moda, tamanha importância desse tipo de plataforma.

É o caso de Yvan Rodic, o dono do Face Hunter, 21º blog de moda mais influente do mundo de acordo com a mesma lista Ao contrário da maioria dos grandes blogueiros de Street Style, Ivan Rodic não usa uma câmera grande, mas Canon G10 que cabe no bolso. Em Workshop realizado no dia 27/05, em Porto Alegre, ele contou que escolhe suas personagens baseado no próprio feeling. “Procuro algo cool, honesto, gente que não tenta muito parecer algo, apenas é”. E, por conta de suas escolhas, o blogueiro conta que já foi criticado por escolher sempre figuras esguias. Mas, para ele, é apenas uma coincidência e não um de seus critérios. “As tendências só servem para girar o mercado, direcionar as pessoas e vender”.

Rodic entende que hoje nós vivemos na era “become who you are” (do inglês, transforme-se em quem você é). Ou seja, o mais interessante é criar uma identidade própria. Para encontrar seus personagens, ele costuma ir aos lugares onde há uma concentração de gente cool se divertindo. Apesar disso, afirma que é difícil perceber uma cidade com um estilo próprio, pois com a internet, as referências e inspirações se ampliam. No fim, a divisão territorial acaba perdendo um pouco de sua identidade e essência.

A Coordenadora da Especialização em Design de Moda da Unisinos, Paula Visoná, explica que o streetstyle não determina comportamentos. “Antes, permite a identificação de certos costumes de uma comunidade, que pode ser um bairro, uma cidade, um país, ou, um coletivo específico (uma tribo urbana, por exemplo)”. É importante entender que o estilo de uma comunidade é apenas um dos aspectos que relaciona esses costumes. Paula ressalta que outras questões como eventos, locais frequentados, objetos utilizados, etc, também comunicam muito.

Para a jornalista de moda radicada em Paris, Ana Clara Garmendia, o street style  é a maneira como podemos analisar realmente os modismos e suas aplicações. “Com ele, podemos entender como a comunidade quer viver a roupa e como uns se influenciam pelos outros. Apenas através dessa observação é que conseguimos um panorama claro dos hábitos que estão mais em uso em uma determinada época”. Ela explica que uma moda que poderia ter passado nas coleções, não raro, é mantida em uso pela necessidade e vontade das pessoas de estarem vestidas daquela maneira – e isso pode ser verificado nas fotos.

Além dos blogs de street style propriamente ditos, existem aqueles blogueiros que fotografam seu próprio look – Le Blog de Betty, Scrapbook Style e The Blonde Salad são bons exemplos. Para o dono do Face Hunter, o futuro de ambos precisa ser questionado. “Cada vez mais esses blogueiros reconhecidos são pagos para falar de marcas, para vestir marcas, para fotografar marcas, sendo que a essência deles começou a partir de um desejo de mostrar o seu estilo, seu diferencial e sua identidade”. Ou seja, nem sempre um look que aparece no blog é o reflexo de uma escolha legítima, para Rodic, cada vez mais a produção e a comercialização é maior e a espontaneidade e originalidade menor.

A diferença entre street style e personal style está na intenção, segundo Paula. “Quando se fotografa pessoas aleatoriamente, se está buscando algo que se destaque do todo, ou seja, algo que aponte para uma relação maior, coletiva. Quando uma pessoa fotografa a si mesma, ela tem a intenção de mostrar sua interpretação particular para questões distintas, que vão desde sua necessidade de comunicar algo em nível pessoal, até sua necessidade de se relacionar com pressupostos socioculturais latentes, como sua inserção em um determinado grupo, por exemplo”. Para Paula, ambos podem ser considerados urban style, quando a maioria dos indivíduos que são retratados – por si mesmos ou por outros – estão inseridos no contexto urbano.

Para Ana Clara, “street” é designação exclusiva para quem fotografa pessoas em geral. “O blogs que apenas se autofotografam, na maioria das vezes, são feitos por pessoas com alto poder aquisitivo que usam esse meio de comunicação para mostrar suas aquisições”. Ela não nega seu valor e tampouco que possuam, moda de bom gosto, mas entende que não podem ser considerados como precursores de modismos. “Estão na metade do circuito, não apontam a moda em seu estado bruto”, arremata.

Mas antes de pensar em criar um blog é bacana criar um conceito. “Ele será local? Nacional ou internacional? Você pretende retratar gente da indústria da moda, modelos, pessoas fora do meio? Fashionistas ou pessoas com estilo próprio? Tudo isso deve ser levado em conta”, explica Yvan Rodic. No entanto, pense bem antes de se aventurar com uma câmera na mão se a ideia não for apenas desenvolver um hobby. “Se você quer ficar rico, não comece um blog. Poucos são os que conseguem!”, alerta. Afinal, em meio a uma infinidade de urls dedicadas ao segmento, não é difícil perceber que são raros os que realmente despontam. Mas, é claro, isso não é impossível. Para captar as melhores imagens, explica Ana Clara, é preciso conhecer os movimentos corporais dos fotografados. “É algo meio instintivo. Também é bom ter uma técnica apurada para fazer da imagem algo autoral. Você pode ter a mesma pessoa fotografada por dez fotógrafos e obter resultados absolutamente diferentes. O que conta é o olhar e a técnica”.

A forma mais comum de capitalizar um blog acontecem por meio da venda de espaço publicitário. Além disso, Rodic lembra que também é possível vender fotos para revistas, caso haja interesse. Mas, quando um blogueiro consegue fama, os caminhos se abrem. No caso do Face Hunter, não são poucos os convites para semanas de moda mundo afora, mas ao que parece, uma bela fonte de receita têm sido as parcerias. O blogueiro já se lançou em projetos com a marca italiana Giorgio Armani no “The Frame by Ivan Rodic”, além de já ter firmado parceria com a clássica Lacoste, e também com a Esprit, entre outras. No fim do ano passado, a loja inglesa Six London convidou blogueiros para desenvolver peças. Além de Rodic, Susie Lau, do Style Bubble;  Leandra Medine, do Man Repeller;  Alix Bancourt, do Cherry Blossom;  Steve Salter, do Style Savage e Caroline Blomst, do Caroline’s Mode também participaram do projeto, em que cada um deles ficou responsável por criar um modelo de sapato – como já era de se esperar, as vendas foram um sucesso.

Além de render frutos econômicos aos blogueiros, “esses registros do street style também são importantes para apontar os estilos e costumes de uma determinada comunidade”, explica Paula.  Mas é preciso compreender alguns aspectos simbólicos que relacionam indivíduos de um determinado contexto, territorial e cultural. “Acho que os ‘alvos’ retratam várias coisas. O recorte de observação e análise deverá ser feito pelo pesquisador, ou seja, o indivíduo que buscará o entendimento de algo a partir do registro – visual, ou, escrito – de outros indivíduos”.

Para explicar o movimento atual de disseminação da informação de moda pela internet, Yvan Rodic cita a frase da editora do The Herald Tribune, Susy Menkes: “A moda costumava a ser um monólogo, agora ela passou a ser um diálogo”. E, a partir da observação disso tudo, é possível entender muita coisa do que se passa na sociedade contemporânea, pelo menos em uma primeira análise. “Acredito sim que é possível utilizar o método etnográfico em ambientes online, mas, que a identificação do espírito do tempo (ou, um termo que prefiro mais, o l’air du temps (do francês, o espírito de nosso tempo), não se dá só nesses contextos. A partir de comunidades online podemos identificar algumas questões que, quando alinhadas a outros dados, coletados em contextos distintos, podem apontar para um ânima (do latim, alma) que está sendo materializado em um determinado período de tempo”, aponta Paula.

Texto: Priscila Vanzin (6º semestre)

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