A esquerda dividida

“Proletários de todo o mundo, uni-vos!” A célebre frase que encerra o Manifesto Comunista, de autoria dos alemães Karl Marx e Friedrich Engels, proclama a organização do povo para que o ideário socialista se consolide e uma realidade mais justa e igualitária seja possível. No entanto, a união proposta por Marx parecer ter sido esquecida, ironicamente, pelos próprios socialistas. Em Porto Alegre, PSOL e PSTU, partidos identificados como extrema-esquerda no país, divergem e apresentam diferentes candidaturas, tornando-os menos representativos.

Se em algum momento as várias visões do socialismo foram um empecilho para que os partidos estivessem juntos, o motivo agora é outro. É o que assegura Luciana Genro, liderança do PSOL que teve sua candidatura a vereadora impugnada recentemente por ser filha do governador do Estado, Tarso Genro. “Temos discordâncias em relação ao socialismo inclusive com o PCB, nosso aliado nessas eleições. No entanto, isso não é obstáculo para se fazer uma aliança, pois temos uma identidade ideológica que ultrapassa as questões táticas”, explica.

Luciana Genro garante que o afastamento entre os partidos foi gerado pelos ataques vindos do PSTU. “Em Porto Alegre, o PSTU fez reiterados ataques contra o PSOL, dificultando a nossa aliança”, revela. “Mas, por resolução do diretório nacional do partido, os nossos aliados preferenciais são o PSTU e o PCB”, pondera.

Para Roberto Robaina, candidato do PSOL à prefeitura de Porto Alegre, a situação é diferente. Ele nega qualquer pretensão de aliança com o PSTU por parte de seu partido e faz questão de marcar as diferenças existentes. “Com o PSTU não buscamos aliança, pois temos divergências mais profundas, de método e concepção”, declara.

Pelo lado do PSTU, Érico Corrêa, candidato a prefeito do partido, presta maiores esclarecimentos. “Para que ocorressem alianças, exigíamos que os demais partidos atuassem no cotidiano da luta de classes, defendessem um governo de trabalhadores, não se aliassem com partidos da burguesia e fossem independentes em relação aos governos de conciliação de classes. Também não aceitamos financiamento de empresários na campanha eleitoral”, explicita.

A partir desses critérios, PSOL e PCB se enquadram nas “exigências” do PSTU? Não, responde Érico Corrêa. “Eles não atenderam ao nosso chamado, com certeza, por não concordarem com o programa”, completa.

Érico, que foi fundador do PSOL e integrou sua direção nacional até 2011, diz que deixou o partido em razão dos rumos que ele estava tomando. “Eu e a Construção Socialista, corrente em que milito, rompemos, pois vimos que o partido estava caminhando para o eleitoralismo e abandonando a luta direta com os trabalhadores”, analisa. E exemplifica: “Episódios como a aliança com o PV(eleições municipais de 2008, em Porto Alegre), o voto em Paulo Paim (eleições para o Senado Federal, em 2010), e pior, o dinheiro da Gerdau, da Taurus e de outras empresas consolidou esta divergência e nos obrigou a sair”, argumenta.

Érico toma para o PSTU a alcunha de “única candidatura socialista”. E argumenta que “defendemos a estatização das empresas de ônibus, somos contrários ao uso de dinheiro público para obras da Copa do Mundo e também contra Parcerias Público-Privadas, que significam a privatização dos serviços públicos. Portanto, é certo que somos a única candidatura que defende de fato o socialismo”.

Vera Guasso, candidata a vereadora e liderança do PSTU, vê nas atitudes da direção do PSOL no Rio Grande do Sul o impeditivo para uma aliança. “Em outras capitais, como em Natal, no Rio Grande do Norte, a parceria ocorreu. Aqui, eles aceitam a contribuição de empresários e nas últimas eleições se coligaram com o PV, que é um partido bastante diferente ideologicamente. Não compactuamos com isso”, esclarece.

As acusações que, segundo Luciana Genro, impossibilitaram a aliança são contestadas. “Não há acusação moral contra militantes ou contra o próprio PSOL. O que existe são acusações políticas”, defende-se Vera Guasso.

A liderança do PSTU descarta, porém, que o PSOL tenha tomado o mesmo rumo do PT. “Não dá para comparar, até porque eles ainda não governam nenhuma cidade, mas há elementos que se assemelham, como o financiamento de empresários. Programaticamente, eles recuaram bastante”, avalia. Para Vera Guasso, o PSOL tem uma “visão mais eleitoral”. Ela conclui: “Mas eleição não é um fim em si mesmo. Para nós, é parte de uma luta muito maior”.

Texto: Caio Venâncio (2º semestre)

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